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Ratos de Porão: Tocando até jazz em Fortaleza

Resenha - Ratos de Porão (Anfiteatro do Dragão do Mar, Fortaleza, 01/02/2014)

Por Leonardo Daniel Tavares da Silva
Postado em 21 de fevereiro de 2014

No início de fevereiro, a cidade de Fortaleza viveu mais um final de semana de efervescência cultural, algo que, na verdade, não chega nem perto de ser uma novidade. Todos os outros (de todos os meses) seriam assim. Estilos e gostos a parte, diversas atrações culturais e musicais se apresentavam separadas por poucos metros uma da outra, como se o bairro inteiro da Praia de Iracema tivesse se tornado uma grande casa de shows de múltiplos ambientes. E nada disso, como em muitos outros finais de semana, foi combinado previamente. No mesmo Centro Cultural Dragão do Mar, em cujo anfiteatro o rock pesado rolaria solto, havia um evento de break, street-dance (ou como quer que você queira chamar) e a apresentação de um maracatu. A poucos metros do Centro Cultural, o pré-carnaval tinha como principal atração uma artista cujo maior talento era ser filha de um dos maiores nomes da música brasileira, mas que levou um bom público ao Aterro da Praia de Iracema. E nem precisamos falar dos bares, quase todos com música ao vivo, no próprio Dragão do Mar ou em suas proximidades. Todas as atrações conviviam quase pacificamente (quase, porque não podemos esquecer do trânsito caótico, nem da violência crescente que vem assustando fortalezenses e turistas).

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Mas, vamos falar de RATOS DE PORÃO (e das excelentes bandas locais que os antecederam). Ali, no Dragão do Mar, punks e headbangers tinham encontro marcado com uma das mais cultuadas bandas do nosso país. O primeiro show começou exatamente na hora marcada no ingresso, às vinte horas. Ponto para a produção.

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WARBIFF

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A primeira banda no palco foi a WARBIFF, trazendo seu thrash metal com solos pra nenhum Kerry King botar defeito em um set list baseado principalmente na sua demo Fresh Meat, de 2006, mas com algumas novidades. A primeira delas, com certeza, foi o retorno de seu antigo vocalista, Pedro Cenobita. A banda iniciou o show como trio, como tem sido desde que os conheço, com o guitarrista Daniel Biffão no microfone. A partir da segunda música, o trio virou um quarteto, alegrando a ainda pequena mas fiel quantidade de fãs que ali estavam. Além dos solos de Biffão e das longas partes instrumentais de cada tema, deve ser destacada a porradaria ensandecida e ultra-rápida, mas precisa, de Rômulo Shaw, que também integra outras bandas da cena local, como AGONY e THE KNICKERS (como convidado). Completando a sonoridade do quarteto, Pedro Torres. A banda é uma das veteranas de Fortaleza e em "Die , Die , son of a bitch", a sua primeira composição no longínquo 1988, alguma influência hard core pode até ser percebida. O show foi curto, mas intenso, botando aqueles que já se aglomeravam em frente ao palco pra bater cabeça. Não foi pelas caras bonitas que eles não tem que o quarteto quase foi parar no Wacken. Nas cadeiras do anfiteatro, infelizmente, envergonhando a cena local, ainda haviam mais cadeiras vazias que pessoas vendo o show para o qual pagaram pra ver.

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FACADA

Em seguida, uma banda que, embora adote um estilo diferente, tem tudo a ver com os RATOS DE PORÃO, a cearense FACADA (tanto que Jão, dos RATOS, é o dono de um dos solos do disco "Nadir", mais recente lançamento do trio cearense). A FACADA mostrou no palco, em meio a muita brutalidade, velocidade e microfonia proposital, por que é um dos grandes nomes do grind core nacional , ao lado de seus conterrâneos do SIEGE OF HATE. Com letras em português e vários sons do sujo e excelente "Nadir", seu último CD, o FACADA fechou seu show com "Tatoo Maniac", cover do RxDxPx, dizendo que pediram permissão a eles para tocar ali aquela música. A faixa também faz parte da compilação Ratomaniax, em que diversos grupos homenageiam os paulistas. Nessa hora, já não havia mais espaço algum na frente do palco. E nas cadeiras, finalmente, já havia um bom número de pessoas.

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A iluminação do palco poderia, no entanto, ser repensada. Os holofotes instalados funcionam perfeitamente num show onde o público fica majoritariamente numa altura inferior ao palco. No anfiteatro, como em outras ocasiões, a iluminação não era algo muito agradável para quem estava nas cadeiras, vendo o show de cima, portanto.

RATOS DE PORÃO

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E o momento mais esperado por todos ali presentes, com o anfiteatro já completamente lotado, veio finalmente. Abrindo o show, nada menos que "Igreja Universal". João Gordo até já bateu ponto na emissora dos famigerados bispos comedores de dinheiro, mas, a música soa tão atual e sincera quanto quando foi composta. Em seguida, uma das músicas mais pesadas que ouvi na minha adolescência na interiorana Tianguá, "Herança". A frente do palco, se ainda não era, virou um liquidificador.

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Falando ao público pela primeira vez, Gordo diz: "RATOS DE PORÃO de novo pra vocês. Quem está pela primeira vez num show do RATOS DE PORÃO levanta a mão". E continuam os petardos, "Amazônia Nunca Mais", "Plano Furado", "Sofrer" e a galera fazia stage dives o tempo todo, às vezes mais de um maluco.

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Numa pausa pra uma cerveja, Gordo fala do clima. "Calor do Caralho. Mas São Paulo tá mais calor que aqui. Lá e concreto. Aqui tem a brisa". E manda, do Feijoada Acidente, "Só Pensa em Matar".

Antes de "Testemunhas do Apocalipse", Gordo falou na situação brasileira, da copa, dos pastores, do Brasil sustentando Cuba (na mesma semana, um porto em Cuba tinha sido financiado com dinheiro do BNDES). O que será de nossos filhos? - perguntou.

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"E aí de quem protestar nessa copa. Trinta anos de cadeia", continuou antes de recitar a letra de "Conflito Violento", tão atual que até poderia ser escritas daqui a quatro meses.

Antes de "Sentir Ódio e Nada Mais", cantada a plenos pulmões pela galera, uma música nova, de Século Sinistro, álbum que os RATOS estão lançando este ano. Gordo ainda comentou que um "fala-da-puta" (em "cearês" mesmo) tinha levado uma pinga roxa de mandioca pro camarim e isso o tinha deixado louco.

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Depois de "Morte ao Rei", outro clássico, Gordo falou novamente à plateia. Disse que não ensaiaram para aquele que era o primeiro show deles em 2014. Aquelas eram as músicas que sempre tocam e estão acostumados.

É depois disso que acontece o momento mais inusitado do show. Durante todo o tempo em que os RATOS estiveram no palco até ali, não ficaram sozinhos. Muitos malucos subiam no palco, apenas para se jogar de volta à multidão logo em seguida. Porém, uma certa "dama" não quis se jogar, achou que era mais conveniente ficar curtindo o show dali mesmo. A produção se apressou em tirá-la do local, mas, Gordo pediu que fizessem isso devagar, sem violência. Mas a moça insistia em continuar naquela área, dividindo a produção entre ser firme como necessário sem usar violência como pediu Gordo. No meio da confusão, o mais impossível de se ouvir em um show do RATOS DE PORÃO começou a soar nos falantes. Jão, Boka e Juninho começaram a tocar um jazz. Já pensou que isso aconteceria? Jazz no meio de um show do RATOS DE PORÃO.

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Com tudo resolvido, Gordo volta a falar: "Nosso objetivo aqui é chingar o governo. Essa música é eterna. Baixaria no Congresso Nacional". E vem "Suposicollor". Alguns nomes mudaram, outros mudaram de função, mas, a letra continua sendo atual. É, Gordo, você tem razão. Essa música é eterna. Até a farinha continua dando as caras.

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Por um minuto, o palco ficou sem stage dives. Por apenas um minuto. A galera não podia... ninguém pode ficar parado num show dos RATOS DE PORÃO, principalmente quando eles tocam "Velhus Decréptus". E a cover do EXTREME NOISE TERROR, "Work For Never", os "mais punks do mundo", não poderia faltar. Dessa vez, a música foi tocada também em homenagem ao guitarrista Pete Hurley, falecido dois dias antes. "O Pete já morreu. Já morreu o Phil (Phil Vane). Quem é o próximo? Que não seja eu", disse Gordo.

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Em seguida, Gordo pede para todo mundo fazer o gesto da "mão de fogo". E os RATOS mandam "Morrer". Ele continua: "Se vocês soubessem o que representa esse gesto... Pra mim mão representa porra nenhuma".

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"Mad Society", "Crianças Sem Futuro" seriam as próximas antes da multidão cantar em coro "Aids, Pop Repressão". Gordo diz que só cantaria se deixassem-no cantar uma música de um MC qualquer coisa, seria punk-ostentação, mais uma vez, culpa da tal pinga roxa.

E vem "Crocodila", "Beber ate morrer" e de vez em quando algum dos stage divers mais afoitos arrisca um abraço, mas o show continua perfeito e memorável. "A apatia é grande, a crise e geral" é a senha para "Crise Geral".

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No bis, alguém teria dito pra Jão que ele era o rei do punk. Ele nega, não pode abraçar essa causa, não era o rei, mas era punk.

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"Agressão/Repressão", a obrigatória "Crucificados pelo Sistema", "Pobreza" e a música que me tirou de casa e me levou até ali: "Caos". Valeu esperar uns vinte anos pra ver essa "You Suffer" bombada na minha frente.

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Ao se despedir, Gordo bateu nas mãos de todos os que conseguia alcançar. E eu com minha dor nas costas nem me atrevi a tentar. O saldo final daquele show é um só: hoje, semanas após o show, só posso desejar um repeteco, que os RATOS DE PORÃO voltem a tocar em Fortaleza o mais brevemente possível. E me arrependo de todas as vezes anteriores em que fui bobo o suficiente de perder. Fica um parabéns para as produtoras Underground Produções (já conhecida por trazer grandes atrações para Fortaleza e outras cidades brasileiras) e Hasta Brazil pela realização de um show que vai ficar na memória por muito, muito tempo.

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Agradecimentos: Jean Carl e 1Bando Comunicação pelas fotos.

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Sobre Leonardo Daniel Tavares da Silva

Daniel Tavares nasceu quando as melhores bandas estavam sobre a Terra (os anos 70), não sabe tocar nenhum instrumento (com exceção de batucar os dedos na mesa do computador ou os pés no chão) e nem sabe que a próxima nota depois do Dó é o Ré, mas é consumidor voraz de música desde quando o cão era menino. Quando adolescente, voltava a pé da escola, economizando o dinheiro para comprar fitas e gravar nelas os seus discos favoritos de metal. Aprendeu a falar inglês pra saber o que o Axl Rose dizia quando sua banda era boa. Gosta de falar dos discos que escuta e procura em seus textos apoiar a cena musical de Fortaleza, cidade onde mora. É apaixonado pela Sílvia Amora (com quem casou após levar fora dela por 13 anos) e pai do João Daniel, de 1 ano (que gosta de dormir ouvindo Iron Maiden).
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