Bruce Springsteen: o provável show da década em São Paulo

Resenha - Bruce Springsteen (Espaço das Américas, São Paulo, 18/09/2013)

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Por Guilherme Mendes
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A Companhia Paulista de Trens Metropolitanos para de funcionar à meia-noite. Na estação da Barra-Funda, o último trem partindo pra zona oeste sai às 0h14. Se você não pegar o metrô da linha 3 até às 0h16, você é colocado pra fora da estação e espera até eles voltarem a circular, às 4h40.

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O porquê disso? Simples: porque já eram 0h22 e, na casa de shows em frente à estação, ninguém arredava o pé de frente ao palco onde Bruce Springsteen simplesmente virava o mundo do rock de cabeça pra baixo.

Começou com atraso. 15 minutos depois das nove horas ditas no ingresso, os lugares no palco do Espaço das Américas foram sendo tomados - 17 pessoas tocariam - e então, finalmente, aparece o chefe: Bruce é ovacionado, aplaudido, mas principalmente encarado com olhos incrédulos dos fãs mais fanáticos: é ele? é o cara que fez 140 shows de mais de três horas e que está há 40 anos na estrada quase sem parar nunca? É cara, é ele mesmo.

Os shows de Bruce são conhecidos por não ter roteiro. Por ter sua setlist ignorada depois da quinta ou sexta música, e também da dedicação que todos os membros têm durante o espetáculo. Ainda durante a primeira música, ele arrisca uns acordes e então solta um “Viva/Viva/Viva a sociedade alternativa”. Não há palmas, mas queixos caídos tomam quase toda a casa de espetáculos. Raul Seixas? Depois que a música acaba, aí sim uma salva calorosa de palmas pela surpresa.

Sobre o show, pouco precisa ser dito além de tecnicamente impecável. A lendária E Street Band tem estrelas como o baterista Max Weinberg e o sancho-pança de Springsteen, o guitarrista Steven van Zandt. Todos eles tiveram seus momentos de estrela (Weinberg dominou dezenas de músicas e Van Zandt ainda chegou a solar “Prove it All Night”), e o público também teve seu dinheiro recompensado: quem ficou na pista foi surpreendido quando Bruce aparece num pequeno palco, entre a pista e a pista premium, para cantar Spirit in The Night, um dos pontos mais altos do show. As cenas mais memoráveis são de quando, após dar aquele “olhar 43” em uma sortuda lá do fundo, ele se joga, e chega ao palco carregado pelas mãos da plateia - duas dessas escrevem este texto agora.

A setlist em algum momento é ignorada. O vocalista vai passando, puxa uns cartazes aqui e ali, com pedidos de música. Um diz “Bobby Jean”, do álbum Born in the U.S.A, clássico de 1984. Ele aponta pra banda, aqui e ali, e solta um “one, two, three, four”. A banda o segue como se estivessem há anos planejando aquilo. Daqui a pouco alguém manda a cala “American Skin (41 shots)” e todos seguem - plateia e músicos num só. Destaque é o setor de metais, antigamente composto apenas pelo saxofonista Clarence Clemmons e hoje um quarteto comandado pelo seu sobrinho, Jake. Além dele, um trombonista e...bem, tinha um senhor manuseando uma tuba de maneira magistral em certas canções.

Lá pelo primeiro terço do show, nota-se que nenhum cantor no cenário internacional tem os instrumentos tão molhados. Springsteen corre pra lá e pra cá, sua e ainda joga copos d’água em cima de si mesmo. Então cada acorde, cada palhetada é uma chuva das mais cômicas. Enquanto todos vestiam preto e pareciam estar ligeiramente ofegantes, Bruce subia e descia, subia e descia e cada vez mais suado. A camisa logo ficou empapada, que acabou enchendo de água a própria Telecaster.

O repertório privilegiou de tudo: dos clássicos Born to Run e Born in the U.S.A até as músicas do disco mais recente, “Wrecking Ball” de 2012. Falar aqui das músicas tocadas é besteira, ou falar do pedido de casamento que um rapaz fez à bela jovem em “She’s the One”é citar apenas um pequeno pedaço de uma obra grandiosa, na verdade sem tamanho ainda (ela disse “sim”). Este é, com certeza absoluta, o grande show do ano. A Rolling Stone em sua capa desse mês, no final das contas, prova estar corretíssima.

O show segue uma estrutura elétrica, dançante, quase sempre exigindo que o público cante - e que cante alto. Quando a E Street ergue seus instrumentos no fim de “Land of Hope and Dreams”, alguns limpam as lágrimas. Outros só conseguem balbuciar palavrões ou palavras de júbilo. Então, sem sair do palco, a banda volta pra um bis de mais seis músicas, incluindo a habitual “Dancing in the Dark” - com direito a garotas dançando e cercando o cantor- e uma versão animadíssima de “Shout”, dos Isley Brothers, que ainda faz com que todo mundo pule e dance, mesmo que ali já tenham batido as três horas de show. A banda dá tchau. Todos saem. Mas então Springsteen volta. Algo diz que ele realmente não quer sair dali.

A música final começa quando os tais trens e o metrô já encerraram as operações. O relógio marca 0h25, a lei da cidade permite shows apenas até a meia-noite, mas lá está ele, gaita no pescoço e violão na mão, sozinho no palco, para entoar “This Hard Land”. A vigésima nona da noite. O esforço é visível: talvez ali ninguém nunca tenha assistido outro cantor que suou a camisa durante o show mais que a própria plateia. Ou ninguém a fazer isso prestes a completar 64 anos

A música acaba, Bruce sai do palco e as luzes se acendem. Após 3h16 de show (um tempo até baixo nessa turnê), fica a questão: o que ele fará no Rock in Rio? Abraçará velhinhas como fez hoje? Beberá a cerveja de algum felizardo (ou azarado) da plateia? Ou fará um show de quatro horas e ficará marcado como o maior show da história do festival?

Ele provou isso, a noite toda. Pra ele, durante o show, o dinheiro gasto precisa valer a pena. E normalmente vale. As dúvidas podem ser respondidas facilmente no fim da noite de sábado, quando todos estes músicos voltarem ao palco mundo do RiR. Os ingressos estão esgotados há meses e, se você ainda não comprou, é bem difícil. Mas você sabe, a TV tá ali provavelmente passando. E é o Bruce. Se nem a gente, que é fã e estava lá, soube explicar o que aconteceu, imagina o que esse senhor americano e seus amigos podem fazer num dos maiores festivais do planeta?

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