Frank Gambale: resenha do show de Fortaleza
Resenha - Frank Gambale (BNB Clube, Fortaleza, 17/08/2013)
Por Leonardo Daniel Tavares da Silva
Postado em 23 de agosto de 2013
No finalzinho da noite de sábado, 17 de agosto, guitarristas e apreciadores de música bem tocada tiveram mais uma oportunidade de se encontrar e trocar ideias com um grande ícone do instrumento mais representativo do rock, metal e vários outros gêneros musicais, um workshop com o guitarrista australiano e vencedor de um grammy FRANK GAMBALE. O evento, lotado, teve início com o agradecimento da produção aos patrocinadores, que junto aos fãs das seis cordas presentes foram os responsáveis pela segunda visita do guitarrista australiano à cidade de Fortaleza. Entre eles (e assumindo o risco de esquecer algum), Guitartrix, Playloud, Interart, Fire Custom Shop, Casa dos relojoeiros e Luciano Alf. E já na semana seguinte, havia uma forte possibilidade (confirmada depois, durante a confecção desta resenha) de mais um workshop em agosto. Dessa vez, com a presença de um dos guitarristas do ANGRA, Kiko Loureiro, que estará na cidade para show na noite do dia 24 de agosto, ao lado de outros grandes nomes como SIEGE OF HATE (S.O.H) e SOULFLY.
Com muita simpatia, GAMBALE falou com o público e disse que, naquela noite, os presentes poderiam, em suas palavras, se aproveitar dele. Mas não antes que ele tocasse duas canções. Já na primeira delas, Frank arrancou gritos da plateia, ao executar com precisão aparentemente tudo o que é possível fazer com uma guitarra em apenas uma canção. Na segunda, volta a impressionar, deixando muitos dos guitarristas presentes com os queixos no chão. Notei algum sabor de música brasileira nesta segunda.
Na rodada de perguntas que se seguiu, quando questionado sobre quantas horas ainda pratica, Frank respondeu que não o faz mais como antes, quando era jovem. Houve um tempo em que praticava por cerca de 12 horas por dia. E completa: "se você quer ser bom em algo, tem que investir tempo nisso. Os resultados são bem óbvios (sem falsa modéstia). E tem também a qualidade do tempo. Por exemplo: há pessoas que tocam há vinte anos e não tocam tão bem quanto outras que tocam há cinco. Se você tem uma hora para tocar, você tem que passar dez minutos pensando no que quer aprender. Se você não sabe algo, é isso que você tem que praticar. Quando aprendi algumas notas que me amedrontava, eu passei pra outras coisas". E, comparando a facilidade de aprender a tocar guitarra comparando com outros instrumentos ainda disparou: "Eu tenho pena dos pianistas, que tem que aprender doze escalas num piano. Mas não estamos aqui pra falar de pianistas, mas fazer piada sobre eles. E nem vamos falar dos bateristas".
FRANK GAMBALE também tocou por muito tempo com o tecladista CHUCK COREA, uma lenda do jazz. E falou um pouco sobre essa experiência. "Quando eu me juntei ao grupo de CHICK COREA, foi um pouco difícil. Eu não poderia cometer um erro por um décimo de segundo que ele fazia aquela cara, sabe. Eu dizia - eu sou humano, não sou uma máquina como você. Para mim ele é como MOZART, DEBUSSY, um dos maiores compositores do nosso século. Quando eu pegava uma partitura dele eu ficava olhando aquela coisa e me perguntava: - será que eu estou olhando do lado certo? Dava medo. Era melhor sair e tomar um sorvete. Uma vez, eu e outra pessoa chegamos a estender uma folha por uma sala inteira. Enfim, foi uma das melhores experiências da minha vida. Eu era um grande fã dele e ainda sou.
FRANK GAMBALE foi o responsável pela criação e disseminação de uma técnica largamente utilizada chamada "Sweep-Picking" (que podemos descrever rápidamente como "varrer as cordas com a palheta". Frank demonstrou como, em um certo dia, depois de meia-hora fazendo experimentações com palhetada, criou essa técnica (antes considerada impossível). Ao fazer experimentações com arpejos, sem querer quebrou algumas regras. "Tudo o que fiz foi mudar a posição de uma nota", enfatizou. "Daí os céus se abriram e choveram pétalas de rosas. Existem várias formas de tocar a mesma coisa. Então, não fique travado na primeira que você aprendeu. Não há polícia quando você está praticando. Você pode fazer o que bem entender". E demonstrou como tocar a mesma coisa com dezessete e com sete palhetadas. "Eu não sou preguiçoso. Sou eficiente". E fico feliz que minha técnica seja usada por tantas pessoas mundo afora. Sweeping é como ter uma BMW na estrada. Não sou muito de tapping. Não tem ataque. Incrível como quase não há livros sobre palheta, como há sobre outras coisas".
O guitarrista australiano ainda foi questionado sobre suas influências brasileiras. "Eu amo a música brasileira. Músicas de poucos países me tocam tão profundamente quanto a música brasileira". Frank ainda citou TOM JOBIM, JOÃO BOSCO, DJAVAN e chegou a cantar "Me diz, me diz Como ser feliz em outro lugar", trecho de "Meu País" de IVAN LINS. "Eu também gosto de salsa, mas, musicalmente não é a mesma coisa, nem chega perto da complexidade que a música brasileira".
Finalizando o workshop, GAMBALE tocou mais duas canções, sempre com o acompanhamento de trilhas pre-gravadas de baixo, teclado e bateria, sendo a última um rock bem mais furioso. Ainda com o queixo perdido em algum lugar do chão do BNB Clube, o produtor João Paulo subiu ao palco para agradecer, manifestar o desejo de "se matar" ou "nunca mais pegar numa guitarra" e sorter um pedal e uma guitarra, oferecidos pelos patrocinadores. Assim terminou mais uma aula de guitarra e inspiração para grandes guitarristas experientes como o blues man ARTUR MENEZES, guitarristas iniciantes e um cara sem um pingo de talento para tocar, mas que lhes escreve para contar como foi o evento. A noite terminou com mais um show (homenageando o aniversariante festival de Woodstock) com bandas covers de JIMI HENDRIX e JANIS JOPLIN (isso explica as duas baterias que podemos ver nas fotos) e a performance de mais dois grandes nomes da guitarra cearense, ALISON DOS ANJOS e FELIPE CAZAUX.
Crédito das Fotos: Jacob Esteves
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