Marcelo Nova: reconvertendo fiéis em show

Resenha - Marcelo Nova (Sesc Carmo, São Paulo, 27/02/2012)

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Por Xande Capitão
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Uma segunda-feira com um ótimo show pra assistir fez até esquecer que o final de semana tinha acabado. Aquela seria minha primeira visita à essa unidade do Sesc. Logo na calçada encontramos (a Sra. Capitã e eu) com Leandro Dalle (baixo) e Célio Glouster (bateria). Essa seria a confirmação de que a concepção original do show seria alterada, inicialmente programado com uma apresentação somente com Marcelo e seu filho Drake, a presença dos meninos da cozinha indicava que teríamos também um set com banda.

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Depois de um tempo com eles decidimos entrar. Assim que entramos vi Inez Nova (preciso dizer quem é?) e Carlos Eládio (gostaria de dizer quem é), guitarrista dos Panteras, primeira banda de Raul ainda na Bahia. E essa seria a confirmação de que estava com sorte. Nos cumprimentamos e fui apresentado à Eládio, e fiquei honrado com a oportunidade de conhecer essa figura tão importante e gentil, o que tornou a oportunidade ainda mais agradável. Fomos convidados a ficar juntos com eles, e assim ficamos ainda mais empolgados.

O Sesc Carmo se apresentou como um espaço pequeno, todo mundo sentado e acomodado em mesas. O cenário para aquilo que convencionou-se a chamar de “show intimista” estava montado. Um pequeno palco à frente foi explorado de forma inteligente pela banda, com uma diminuta bateria (Marceleza classificou-a como “de fazer inveja aos Stray Cats”) e sem amplificador de baixo.

Uma locução do Sesc anunciou o evento. Era hora do show.

Marcelo e Drake sobem ao palco e se sentam. O primeiro ao violão, o segundo à telecaster. A primeira canção foi “Coração Satânico” do pesado álbum “A Sessão Sem Fim”. Seguida por “Papel de Bandido” do primeiro disco solo de Marceleza. Com um título muito adequado para o momento, já que nossas carteiras iam sendo batidas naquilo que se desenhava como um grande show, daqueles pra Ronald Biggs nenhum botar defeito.

A ironia se fez presente com Mr. Nova cantando um verso de “Garota de Ipanema” para risos gerais. Banquinho e violão é o caralho, isso aqui é rock´n roll, porra.

Avaliando a trajetória de Marcelo Nova, encontramos alguns marcos importantes. Após a dissolução do Camisa muitos pensaram “vamos dividir a carreira dele como antes e depois do Camisa”. Então veio a parceria com Raul, e novamente surge a teoria “bom, agora vamos dividir em antes e depois de Raul”. E quando alguns acreditavam que não havia mais nenhum ás de espadas no seu baralho, surge a parceria com o filho Drake. E aquilo que começou como um menino que subia ao palco para visitar o pai no escritório, se apresenta como um novo e definitivo marco.

O jovem guitarrista que não para de evoluir teve uma noite memorável. E ganhou do pai (ou do chefe, você decide) um elogio que deixaria qualquer filho (ou guitarrista, você decide novamente) muito orgulhoso. Marceleza falou que descobriu seu ponto forte no texto, e procurou se focar naquilo que era melhor. E que nunca se deixou impressionar por malabarismos na guitarra, e que sempre procurou um guitarrista que trabalhasse entrelaçando suas letras, contribuindo com o cenário e o clima que elas pediam. E que encontrou esse guitarrista na própria casa. Drake retribuiu com um belíssimo trabalho na “Ninguém Vai Sair Vivo Daqui”, canção do cultuado “Galope do Tempo”.

“Eu Vi o Futuro”, encerrou primeira parte do set. Marcelo trocou o violão pela guitarra e convocou ao palco Leandro e Célio, iniciando a sessão mais elétrica de um show eletrizante desde o início. Vieram “Hoje” e “Rock n Roll”.

Marcelo lembrou que a primeira vez que viu uma banda de rock ao vivo foi com Os Panteras. E disse que Eládio estava ali presente, e que ele era um dos “culpados” por ele ter seguido esse caminho. Não somente pela atitude rocker, mas pelas garotas que Os Panteras pegavam depois do show, dentro de uma velha Kombi. Entre risos e aplausos, Eládio foi devidamente reconhecido, e Marcelo Nova demonstrou generosidade ao dividir esse grande momento.

O tradicional solo de Marcelo em “Quando Eu Morri” foi interrompido quando este percebeu que sua guitarra estava desafinada. Após rir de si mesmo, trocou o solo pela performance e pela microfonia.

Alguém na platéia gritou “Pastor João”, pedindo a canção presente em “A Panela do Diabo”. Marcelo respondeu “você quase acertou, mas minha situação é mais grave”. Deixou os intermediários de lado e foi direto no “filho do homem” com o novo hit dos shows “Ela Me Trocou Por Jesus”. Nas primeiras vezes em que pediu para o público cantar “se eu encontrar com Jesus, dou-lhe um chute na bunda”, a resposta foi contida. Na segunda, o rebanho aumentou. A partir da terceira, “DOU-LHE UM CHUTE NA BUNDA” já ecoou da Rua do Carmo até a Praça da Sé. Estavam todos reconvertidos e o milagre da multiplicação completo. Amém.

“Só o Fim” veio mais acelerada do que no show anterior, reforçando o quanto Marceleza se dedica a alterar os arranjos de suas canções. Mas foi com a versão de “Simca Chambord” que isso ficou mais claro. Enquanto acordes dramáticos colocavam novos frisos nesse velho Simca, Marcelo desceu do palco e cumprimentou à quase todos, circulando por entre as mesas. Chegado ao ápice, chegado ao fim.

Duvidando do calendário que tudo aquilo era possível em plena segunda-feira, os fãs ainda puderam tirar fotos e pegar autógrafos com Marceleza, que como sempre, atendeu à todos. Muitos também aproveitaram a presença do Eládio. Eu fui um deles, e consegui uma foto com o pantera e com o leão da montanha Marceleza.

Com mais um show irrepreensível, a conclusão que chego é que Marcelo Nova é indivisível. Os muitos marcos da sua carreira são parte de um todo, elos da mesma corrente que o aprisionam à sua coerência. Sorte dos fãs que não precisam ficam esperando a próxima cartada, e que podem aproveitar o ótimo momento da parceria Marcelo / Drake, com a da certeza de que fertilidade ali está longe de terminar.

Set list com Marcelo Nova e Drake Nova
Coração Satânico
Papel de Bandido
Carpinteiro do Universo
Ninguém Vai Sair Vivo Daqui
Robocop
Eu Vi o Futuro

Set list com a banda
Hoje
Rock´n Roll
Quando Eu Morri
Ela Me Trocou Por Jesus
Só o Fim
Simca Chambord

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