Iron Maiden: Quem comparece não vai a um show, vai a um culto

Resenha - Iron Maiden (Estádio Mané Garrincha, Brasília, 20/03/2009)

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Por Maurício Gomes Angelo
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O texto representa opinião do autor, não do Whiplash.Net ou dos editores.

Quem comparece para assistir ao Iron Maiden não vai a um show. Vai a um culto. Se o metal é tido seriamente como religião por muitos, o Iron é, em grande parte, a divindade central. Você não discute isso. Você respeita. E é difícil imaginar uma palavra que descreva tão bem uma experiência como esta. A adoração e veneração do culto é tido como “uma homenagem de caráter religioso a seres sobrenaturais” e “a religião em suas manifestações externas”, rito. Está aí a espinha dorsal do fã de heavy metal que o Iron representa tão bem.

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Se, de fato, os integrantes da banda estão acima da média no mundo da música – e são considerados sobrenaturais por seus seguidores – a banda sempre soube alimentar isso de maneira ímpar. Eles talvez sejam o melhor exemplo de banda que conseguiu unir música, letras e identidade visual – importantíssima – para criar um mundo a parte. A sua seita. O seu clã. O Iron é sinônimo de heavy metal, com tudo de bom e ruim que isto traz.

Brasília, assim como Manaus, Belo Horizonte e Recife, nunca tinha recebido um show do grupo. Isso, claro, deixa este “culto” com contornos ainda mais históricos, de comoção assombrosa. Aqui na Terra os integrantes do Maiden sabem que não são deuses, e tocam o negócio – a banda – de maneira exemplar para atender da melhor forma possível a todos seus clientes – fãs.

Entenda, leitor apressado, isso não é negativo. Minhas estimativas (calculada com base no preço médio dos ingressos, o público presente em cada cidade e em vários outros fatores) indicam que apenas esta turnê no Brasil, com seis shows, movimentará algo em torno de R$ 25 milhões de reais. Metal contra a crise. Ainda que o grosso desse lucro vá, naturalmente, para o bolso de bem poucos.

E se Brasília tem, disparada, a maior renda média do país (por volta de R$ 2.000 por pessoa), o público pagou por isso. O ingresso na capital federal foi praticamente o DOBRO do cobrado em São Paulo. A inteira da pista premium custava R$600 e o ingresso mais barato, a meia da arquibancada, R$70. Valores abusivos e inaceitáveis que geraram até reclamações no Procon e uma tentativa de intervenção que – advinhem – não deu em nada. O fã animal precisa entender que não é o caso de discutir se o show vale ou não os R$ 600. Muitos concertos, como o do Iron, literalmente não tem preço. Não há como mensurar o valor de um pedaço da história. Isso não significa, contudo, que os fãs precisam ser roubados. No estilo de música em que sabidamente boa parte do seu público é composto por pessoas de classe média baixa, no show da maior expressão atual do metal, por ironia e ganância, pobre não entra. Ou dá a vida e arruma o que não tem, ou não vê. Muito democrático.

Quando entrei no Mané Garrincha, às 19 horas, o que tocava nos PA’s era “Sabbath Bloody Sabbath”, uma das mais clássicas (e que mais gosto) composições do Black Sabbath. Bom começo. O público já era considerável. Foi aumentando gradativamente até o show de abertura da Lauren Harris e alcançou a estimativa oficial de 25.000 presentes.

Sobre o opening-act da filha do baixista Steve, é melhor não comentar. Qualquer conhecedor de hard rock em sã consciência acharia aquilo rídiculo, horroroso, sofrível, medonho. Eu vejo apenas como um “presente” que o papai Harris quis dar para a filha esforçada. A menina canta incrivelmente mal – e deveria tentar qualquer outro ramo de negócio – mas é simpática. Só.

Ao contrário principalmente dos relatos do show em São Paulo, a organização, acesso e estrutura do evento em Brasília não parece ter enfrentado grandes problemas. Foi satisfatória, nem ruim, nem excelente. Tempo firme, vários pontos de acesso e saída, bares e banheiros espalhados pelo estádio, além de muitos ambulantes servindo os fãs durante o show. Penso apenas que, quem ficou na arquibancada (superior ou inferior) deve ter tido um pouco de dificuldade para enxergar o palco não só pela distância mas principalmente pela estrutura montada no meio do estádio, que simplesmente bloqueava parte da vista. Mesmo da pista premium a visibilidade não era excelente. O palco me pareceu baixo. Nessas horas me pergunto se seria tão difícil fazer o palco um pouco mais alto para que a visibilidade melhorasse razoavelmente para qualquer ponto do estádio (e para pessoas de todas as alturas). “Detalhes” que fazem diferença.

“Ace Of Spades” do Motorhead foi seguida da tradicional “Doctor Doctor”, do UFO, a maravilhosa instrumental “Transylvania” e às 21:10 a catarse começou com a explosiva “Aces High”. Daí em diante há pouco a se comentar. O setlist foi o mesmo de todos os shows anteriores, de músicas que já estão gravadas na mente de 100% do público há anos, talvez décadas. “Wratchild” foi a primeira incursão aos dois primeiros discos da Donzela e “Two Minutes To Midnight”o segundo clássico do soberbo “Powerslave” executado. Para qualquer um que goste do grupo é não menos que emocionante poder conferir uma turnê baseada na fase áurea da banda, revivendo o que fizeram de melhor. Se alguém apostasse que o Maiden iria fazer algo do gênero há alguns anos atrás, poucos acreditariam. E estavam lá todos os adornos do palco, todos os panos de fundo, as roupas e fantasias de Bruce Dickinson (mantendo uma tradição quase teatral dos frontman ingleses), fogos de artíficio (muitos), canhões de chamas e o Eddie gigante em “Iron Maiden”.

Bruce é um monstro. Não digo apenas no vocal – a obviedade máxima – mas principalmente na performance, na interação. Nunca vi alguém tão a vontade e tão realizado no palco. E isto, sem dúvida, passa diretamente pra platéia. Na primeira pausa, Mr. Air Raid Siren se apresenta e brinca com o público. Diz que é a primeira vez da banda em Brasília, que achou a cidade “bem legal” – Bruce e Janick causaram frisson na noite anterior ao resolverem ir beber num pub irlandês da cidade, como se fossem clientes comuns – e, fazendo piada, perguntou: “alguém veio aqui hoje para assistir a Liza Minnelli?”, ao que o povo, em uníssono, respondeu: “nãããooo”. A cantora estadunidense estava se apresentando na capital federal no mesmo dia. Então Dickinson retrucou “oh, é uma pena. Ela estava no mesmo hotel, deve estar nos vendo pela janela”. O vocalista seguiu apresentando “Children Of The Damned”, dizendo que a música tinha um significado especial para ele e que foi uma das primeiras que aprendeu a cantar na Donzela. Neste momento, uma pequena briga começou perto do palco, onde estava, e o público vaiou, chamando a atenção de Bruce. Não deixando barato, ele deu a melhor resposta que os dois animais poderiam receber, falando para o público: “aposto que estes dois são fãs da Liza Minnelli”. Felizmente, 99,999% dos fãs de metal são sociáveis o suficiente para irem aos shows apenas para curtir a música, com muito respeito, como todos que vão com frequencia a shows sabem.

O som oscilou um pouco, mas nada que prejudicasse. Não há o que se objetar quanto ao trio de guitarristas, nem a cozinha de Steve Harris e Nicko McBrain. Não são gênios máximos de seus instrumentos nem reis da técnica, mas tocam com vontade e ajudaram a compor músicas históricas, hinos eternos, habilidade que pouquíssimos possuem. Complicado destacar os “melhores” momentos ou os que mais emocionaram. Sendo o repertório composto de clássicos absolutos, essenciais e inquestionáveis, dá para perder um bom tempo tentando entender o que aconteceu na sequencia impecável de canções. “Rime Of The Ancient Mariner” e “Powerslave” foram perfeitas, com toda a pompa e os vários níveis que possuem, sendo reconhecidamente duas das melhores e mais complexas composições do Maiden.

“Run To The Hills” é sempre empolgante e obrigatória, enquanto faltam palavras para traduzir o que “Fear Of The Dark” e “Hallowed Be Thy Name” juntas, causam. Talvez os melhores 15 minutos da vida de muita gente ali. E uma das mais marcantes da minha também, sem dúvida. No hino “Iron Maiden” impossível não cantar o refrão curiosamente adequado: “oh well, wherever, wherever you are/iron maiden gonna get you/no matter how far”. A primeira despedida, apagam as luzes.

O bis não demora e a narração inicial de “The Number Of The Beast” é suficiente para transportar todos aos inúmeros momentos em que a canção possivelmente já foi cantada, em qualquer lugar, sozinho ou com os amigos. “The Evil That Men Do” é uma das que mais gosto – bem como de muita gente – e como tal foi cantada com toda a energia que ainda restava.

“Sanctuary” encerrou a noite que ninguém queria que terminasse, com Bruce agradecendo mais uma vez, apresentando a banda, brincando e prometendo voltar na turnê do próximo álbum. “Vocês estarão aqui?”, pergunta, e um sonoro “YEAHHHH” ecoa no Mané Garrincha. A contragosto, e ainda incrédulos, o público ve a banda se despedir, sair do palco e as luzes abaixarem pela última vez. Claro que, se dependesse dos presentes, a banda ficaria para pelo menos mais uma hora de show e muitos outros clássicos que faltaram. Mas não dá pra reclamar.

A faixa de encerramento que tocava nos PA’s era “Always Look On The Bright Side Of Life”, do grupo inglês Monty Python. Tremendamente adequada, pode ser vista como uma espécie de consolo bem humorado da banda aos fãs. “Terminou, mas olhem o lado bom do que acabaram de presenciar”.

O termo “histórico” muitas vezes é usado de forma arbitrária ou exagerada para se referir a um show. Mas, neste caso, ele é insuficiente. O provável é que jamais o Iron Maiden irá fazer uma turnê nestes moldes novamente, focada no período de 80 a 89 (passando por “Fear Of The Dark”) e com todas as 400 toneladas de equipamento estilizadas de acordo com a época.

Quem viu, pode se considerar um privilegiado para todo o sempre. É pra contar, orgulhoso, para várias gerações que virão. Repito: não há como medir o significado da paixão, dos momentos vividos ao longo de anos, da importância que o Iron tem para muitos ali e do sonho realizado de ver tais ícones ao vivo.

Saudações a todos os abençoados.

Setlist:
- Intro (Playback: Doctor, Doctor / Transylvania / Winston Churchill’s speech)
- Aces High (Powerslave, 1984)
- Wrathchild (Killers, 1981)
- 2 Minutes To Midnight (Powerslave, 1984)
- Children Of The Damned (The Number Of The Beast, 1982)
- Phantom Of The Opera (Iron Maiden, 1980)
- The Trooper (Piece Of Mind, 1983)
- Wasted Years (Somewhere In Time, 1986)
- The Rime Of The Ancient Mariner (Powerslave, 1984)
- Powerslave (Powerslave, 1984)
- Run To The Hills (The Number Of The Beast, 1982)
- Fear Of The Dark (Fear Of The Dark, 1992)
- Hallowed Be Thy Name (The Number Of The Beast, 1982)
- Iron Maiden (Iron Maiden, 1980)

Bis:
- The Number Of The Beast (The Number Of The Beast, 1982)
- The Evil That Men Do (Seventh Son Of A Seventh Son, 1988)
- Sanctuary (Iron Maiden, 1980)

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Sobre Maurício Gomes Angelo

Jornalista. Escreve sobre cultura pop (e não pop), política, economia, literatura e artigos em várias áreas desde 2003. Fundador da Revista Movin' Up (www.revistamovinup.com) e da revrbr (www.revrbr.com), agência de comunicação digital. Começou a escrever para o Whiplash! em 2004 e passou também pela revista Roadie Crew.

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