Roger Waters: Arranjos fieis do clássico "Dark Side of The Moon"
Resenha - Roger Waters (Morumbi, São Paulo, 24/03/2007)
Por Daniel Takata Gomes
Postado em 26 de março de 2007
Roger Waters definitivamente está mudado. Se na última vez que passou pelo Brasil, há cinco anos, por ocasião da turnê "In The Flesh", o ex-mentor do Pink Floyd não economizava nos disparos contra os membros remanescentes de sua antiga banda (o guitarrista David Gilmour, o tecladista Richard Wright e o baterista Nick Mason), as recentes entrevistas mostram que nada melhor que o tempo para curar antigas feridas. Agora, ao contrário de antigamente, ele se refere ao Pink Floyd atual com respeito e se coloca no mesmo patamar do ex-desafeto Gilmour - a recíproca, aparentemente, não é verdadeira.
O show da turnê "Dark Side of the Moon" que Waters apresentou no Morumbi dá mostras claras disso. Em 2002 os membros de sua banda se preocupavam em dar um toque pessoal aos antigos clássicos. Agora, Waters se preocupa em reproduzir fielmente os arranjos das canções originais. Ele se deu conta que o público quer ver o Roger Waters do Pink Floyd, e não apenas um artista solo fazendo cover de seus velhos sucessos.
Tanto isso é verdade que, no final da canção "Wish You Were Here", o guitarrista Dave Kilminster reproduziu o solo executado por David Gilmour que aparece na versão da canção do álbum "PULSE", de 1995 - ou seja, do Pink Floyd sem Waters. O mesmo Pink Floyd que há alguns anos Waters costumava execrar em qualquer declaração.
O mesmo artifício se repetiu durante todo o espetáculo. Apoiado por músicos de primeira linha (entre eles Snowy White, guitarrista de apoio do Pink Floyd nas décadas de 70 e 80, Andy Fairweather-Low, guitarrista que já trabalhou com The Who, Eric Clapton e Joe Satriani, e Jon Carin, tecladista de apoio do Pink Floyd na década de 90 - e que participou do último álbum de quem? Sim, David Gilmour!), às vezes era impossível distinguir se era apenas Roger Waters ou o Pink Floyd inteiro que tocava no palco.
Tudo no espetáculo foi grandioso. A começar pelo palco, ideal para um grande fã de futebol como Roger Waters. Ele chegava a faltar a algumas sessões de gravações quando fazia parte do Pink Floyd para ver jogos do Arsenal. Então, nada melhor que ter como palco o estádio do São Paulo Futebol Clube, tricampeão mundial e um dos maiores times do mundo. O telão gigantesco também era imponente. Para completar, as águas de março que fechavam o verão de São Paulo há dias deram uma trégua. O terreno estava pronto.
Depois do começo com duas músicas do álbum "The Wall" - "In The Flesh" e "Mother" -, uma homenagem aos antigos companheiros em "Set The Controls For The Heart Of The Sun", com imagens da banda no telão ainda contando com o ex-guitarrista e fundador, o diamante louco Syd Barett, morto ano passado. Na seqüência, três do álbum "Wish You Were Here" - "Shine On You Crazy Diamond" (nova homenagem a Barrett), "Have a Cigar" e "Wish You Were Here" - e talvez o momento mais sonolento, duas músicas do Final Cut ("Southampton Dock" e "The Flecther Memorial Home"), último álbum de Waters à frente do Floyd. Surpreendentemente, a seqüência com "Perfect Sense" partes 1 e 2, de seu trabalho solo, foi em boa parte cantada pela platéia. A quase inédita "Leaving Beurit" veio a seguir, com uma grande idéia: a letra da canção, praticamente desconhecida por todos, aparecendo no telão, fazendo com que até aqueles que não conhecem bem o músico cantassem junto com Waters. O final da primeira parte foi matador, com "Sheep", do álbum Animals. Sendo um álbum totalmente politizado, baseado no livro "A Revolução dos Bichos" de George Orwell, a apresentação foi digna. Um gigante porco inflável apareceu sobre o estádio com dizeres como "Ordem e Progresso?", "O Brasil está sendo vendido" e "Salvem a Amazônia". Uma crítica ácida que não poderia faltar.
15 minutos de intervalo depois para o mais esperado. Todos estavam prontos para ver Waters no lado escuro da lua. Depois da introdução "Speak to Me", os músicos desarrolam "Breathe" como se estendessem um tapete de veludo para a seqüência de clássicos que já fazem parte da história da cultura ocidental. "On The Run" é uma viagem em som surround e telão lisérgico. "Time" é cantada em uníssono pelos presentes.
Roger Waters declarou em entrevista para a Revista BIZZ que é difícil alguma cantora chegar ao nível de execução da cantora Clare Torry em "Great Gig in the Sky", no álbum "Dark Side of the Moon". Ainda disse que a versão do "PULSE" não é satisfatória - e ele tem toda razão - e que sua backing vocal Carol Kenyon faz um excepcional trabalho na música. Pois foi exatamente a performance de Kenyon o ponto alto do show. A música, que com suspiros e gritos desesperados leva a uma fatigada aceitação da missão da morte, fez arrepios percorrerem as arquibancadas. Com certeza uma das melhores performances da história!
"Us and Them", com Jon Carin reproduzindo fielmente os vocais originais de Gilmour e os teclados de Wright, foi outra performance matadora. Em "Any Colour You Like" foi a vez dos músicos mostrarem virtuosismo na canção que mais parece uma jam bem comportada. "Brain Damage" e o grand finale "Eclipse" levaram o público ao delírio total. Nos shows no exterior, muitos disseram que a performance de "Dark Side of the Moon" de Roger Waters é superior à versão do disco "PULSE". Eu achava difícil de acreditar. Mas agora vejo que os elogios não eram exagerados.
No bis, apenas músicas do álbum "The Wall", o preferido de Waters. Primeiro, "Another Brick in the Wall" (com direito a som de helicóptero executado com perfeição pelo sistema de som que fez todos procurarem algo no céu!), com presença de crianças do Projeto Guri. As músicas "Vera" e "Bring the Boys Back Home" abriram terreno para a "bala de prata" do Pink Floyd, "Comfortably Numb". Sim, eu disse do Pink Floyd, não de Roger Waters. Porque, apesar da música ser talvez o maior clássico da banda e de ter levantado o público e tudo mais, na minha opinião não faz o menor sentido essa música ser tocada sem David Gilmour. É a única música em que o vocal de Jon Carrin e o solo de guitarra de Dave Kilminster, apesar do esforço, não chegam aos pés de Gilmour. Para mim foi como um anti-clímax no final do show.
É verdade que não foi um show perfeito, afinal isso não existe. Mas o mais próximo que poderia chegar disso, Roger Waters chegou. Com "Dark Side of the Moon" tocado com rigor cirúrgico, grandes performances de grandes músicos e Waters ainda mostrando um domínio vocal muito bom, será uma passagem que ninguém irá esquecer. Waters cantou na música "Amused to Death", do álbum homônimo: "it was the greatest show on earth". Ele não estava se referindo a esta turnê, mas bem que poderia.
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