Dream Theater: Review das duas noites de show em São Paulo

Resenha - Dream Theater (Credicard Hall, São Paulo, 10 e 11/12/2005)

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Por Bruno Coelho
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O texto representa opinião do autor, não do Whiplash.Net ou dos editores.

Resenhar ponderadamente os shows do Dream Theater em São Paulo é tarefa ingrata! Ser parcial quando a emoção de ver seus ídolos inunda-te os olhos prejudica o julgamento de qualquer um. Ainda assim, ofereço uma pequena viagem através dos dias 10 e 11 de dezembro de 2005, no Credicard Hall, em São Paulo, sem muitos saltos emotivos ou enaltecimentos bajulativos e desnecessários. Sendo honesto, podemos começar resumindo as noites como, simplesmente, FU-DI-DAS!

1271 acessosDream Theater: Caos Sistemático em Demasia5000 acessosVocalistas: belíssimos timbres de alguns cantores de rock

4000km viajados até o “Teatro dos Sonhos” – Duas noites para nunca esquecer

Tentando fugir do esquema "diário de bordo", vou resumir minha jornada, saindo de São Luís do Maranhão às 3:50 da madrugada do dia 08 de dezembro, em um apertado vôo da GOL com conexão em Fortaleza, chegando às 9:00 da manhã em Guarulhos. Acompanhado de meu irmão, buscamos os ingressos com uma amiga apenas no dia 10, sábado, já prontos para seguirmos para o local do evento de "busão". Lá, por volta das 5:00 da tarde, a fila parecia ter aproximadamente 400 pessoas e tivemos a sorte de encontrarmos amigos de nossa cidade já na fila.

Às 8:00 da noite, ou pouco mais que isso, as portas do Credicard Hall são abertas e os milhares de fãs entravam em grande euforia. Quem não havia chegado com uma camisa da banda ao local acabou comprando uma ainda na fila e fazia questão de exibi-la agora. No hall de entrada, mais camisas estavam disponíveis, ao preço de 40 reais. A esta altura já estava adquirindo minha segunda camisa!

Pausa para breve observação: havíamos comprado os ingressos com bastante antecedência e escolhido assistir a primeira noite na pista e a segunda na platéia superior. Acertei em cheio e explico o porquê disso mais adiante, nesta mesma resenha.

Ao adentrarmos a área da pista, já muitos aguardavam o show. Escolhemos o lado direito do palco por vontade de estar perto do John Petrucci. Erramos... Na pista é difícil conseguir visualizar muita coisa e, quanto mais perto do palco, a não ser que você esteja bem próximo dele, mais difícil conseguir um bom ângulo de visão. No lado direito tínhamos apenas o Petrucci posicionado, enquanto no esquerdo tínhamos o Rudess e o Myung. Para mim, que pouco via, era preferível ver dois músicos que apenas um! Bom, talvez seja exagero considerar isso um erro. Talvez alguém que tenha estado dos dois lados do palco possa tirar a dúvida...

Enquanto esperávamos o show começar, o som da casa tocava Porcupine Tree, Radiohead e outros sons que não consegui identificar. Algo me lembrou Rush ou Placebo, desconfiei de Yes e Genesis, mas me recuso a afirmar com veemência. Peço para que complementem a informação no fórum da banda, aqui mesmo no Whiplash. Além disso, tivemos um pequeno problema com a grade de contenção, a famosa barricada, inimiga cruel dos moshers, no lado esquerdo. O chefe de segurança, que pediu "um passinho para trás" foi vaiado e teve sua mãe ofendida, mas conseguiu o que pediu.

Às 22:30, precisamente, as luzes se apagaram e a banda subiu ao palco com a entrada agitadíssima de The Root Of All Evil. O público, que já gritava insanamente, passou a cantar cada palavra da letra e o primeiro ponto relevante na análise do show apresentou-se de forma satisfatória - o som parecia indefectível, salvo talvez uma leve predominância de médios e graves, fazendo com que os pratos de ataque do kit de Portnoy falassem um pouco mais baixo do que eu esperava. Fora isso, nada de hummings vindos de qualquer dos equipamentos ou estalares de cabos. Lógico que esperávamos isso do Credicard Hall e da produção do Dream Theater, mas, sabe lá... Essas coisas acontecem!

Bom, o refrão de The Root Of All Evil foi cantado em bom volume, o que já mostrava a familiaridade dos presentes com o último álbum da banda, Octavarium. Para manter o pique, a banda encaixou a furiosa Panic Attack. O público pulava bastante, mas muitos ainda estavam tentando encontrar saída daquele momento surreal. Sete anos sem Dream theater podem ser nocivos à vida de muitos viciados na banda - crise de abstinência!

Pelas duas primeiras músicas, minha aposta era que o Dream Theater faria um set centrado nos últimos álbuns da banda, passando a limpo o Six Degrees Of Inner Turbulence, Train of Thought e o já citado Octavarium. Ledo engano, grato engano! De onde eles tiraram A Fortune In Lies, não ouso cogitar, mas foi justamente ela que chegou a nós, cortante. A banda, sem dúvidas, apostou em uma música pouco provável (primeira faixa do primeiro disco da banda, When Dream and Day Unite, de 1989) para manter o público surpreso e com aquela estranha - e ainda constante e incômoda - sensação de surrealidade. A iluminação deu um toque especial na passagem em que Portnoy rufa incansavelmente sua caixa. Tudo piscava e brilhava gradativamente, acompanhando as batidas das baquetas.

O que se seguiu foi inesperado, mas muito bem vindo. LaBrie havia avisado que a banda tentaria percorrer todos os seus álbuns naquela noite, ainda assim, o público parecia surpreso a cada nova faixa. Under a Glass Moon foi a primeira faixa do álbum Images And Words a ser tocada e foi, também, muito bem recebida por todos.

Se alguém disse: "Agora vem uma do Awake!" ao final de Under A Glass Moon, acertou na mosca! Caught In A Web foi mais uma faixa que, desnecessário até dizer, foi recebida com euforia por grande parte dos presentes. Muita gente continuava a cantar tudo, inclusive riffs e passagens de teclado. O refrão de Caught In A Web não podia fugir da regra. O que ninguém cantou bem foi a ponte, antes do refrão, devido ao seu tom altíssimo... Mas adivinhem quem fez muito bem neste trecho? Sim, o escorraçado James LaBrie, o sempre achincalhado James Labrie, aquele que não canta que preste ao vivo, apresentava-se na ponta dos cascos! Vocal límpido, afinado, alto em volume e em qualidade. Os achincalhadores calaram-se. LaBrie havia sido aprovado com honras por todos os presentes.

Sem dúvida, a estaticidade dos membros da banda, excetuando as idas e vindas de Petrucci e Myung até o praticável de Portnoy, perturbava alguns. LaBrie fazia seu papel de frontman, tentando não se descuidar e errar. Rudess não podia fazer mais que suas habituais caretas e poses estranhas com o teclado, já que, sem cabelo, o “carequinha” não produz efeito algum ao bater cabeça. Mas Mike Portnoy pagava o show todo! QUE SHOWMAN! Cuspia, batia na cabeça, ficava em pé, incitava o público a bater palmas no ritmo da música, gritava e tocava como poucos. Ver Portnoy ao vivo é simplesmente fantástico e não há quem negue isso (creio que nem ele mesmo).

Bom, saindo dos clássicos mais clássicos, chegamos ao Falling Into Infinity com Peruvian Skies. Bom momento para amornar os ânimos de todos. A música, com sua pegada pinkfloydiana, recebeu partes de Wish You Were Here, do Pink Floyd, e de Wherever I May Roam, do Metallica, incidentalmente. Tudo com o bom gosto da banda para misturar outras músicas às suas.

Strange Deja Vu segue Peruvian Skies ovacionada e para esta última exige-se pausa e observação na resenha. Especulava-se que o álbum Scenes From A Memory seria executado na íntegra e em ordem no domingo, dia 11, e a execução de Strange Deja Vu deixou todos desconfiados de que isso não aconteceria. A banda repetiria a música no segundo dia ou estaria executando-a porque o Scenes From A Memory não estava em seus planos para o domingo? Pulgas atrás da orelha à parte, grande parte do público torcia para que a notícia de que a banda tocaria um álbum do Pink Floyd fosse falsa... todos queriam o máximo de Dream Theater possível!

A belíssima Solitary Shell foi mais uma música cantada quase que em uníssono, abrindo a tríade que representaria o excelente Six Degrees Of Inner Turbulence, juntamente com About To Crash e Losing Time/Grand Finale.

Bom, caso você já esteja cansado de ler esta longa resenha, caro leitor, prepare-se! Chegamos apenas à metade do show, quando a banda deu uma pausa de 15 minutos a eles próprios e ao público. Muitos já haviam pedido que Metroplois Pt.1 fosse tocada. Seguindo a lógica do show, teríamos músicas do Train Of Thought e, já que músicas do Octavarium já haviam sido executadas, teríamos os clássicos dos clássicos! Pull Me Under e Metropolis Pt.1 tinham que ser executadas! Learning To Live também não podia ficar de fora, muito menos Lie ou Just Let Me Breath! Afinal, depois de tanto tempo fora do Brasil, merecíamos estes presentes...

Durante o intervalo, versões acústicas de Erotomania, Voices e The Silent Man saíam a baixo volume do som da casa. Uma voz feminina cantava e muitos não sabiam o que era aquilo. Eu, resenhista pesquisador, não poderia deixar de revelar o mistério! Acessem: http://pipoelo.free.fr/music.html e deleitem-se com ainda mais faixas gravadas por Pipo e Elo, franceses que adoram Dream Theater.

Bom, como alguns haviam previsto, tivemos nossa dose necessária de Train Of Thought, representado pelos novos clássicos: As I Am e Endless Sacrifice. LaBrie estava em noite inspiradíssima e Portnoy parecia incansável! Petrucci praticamente não mirou o público, absorto em solos mirabolantes e toda a complicação que é executar cada uma das músicas de sua banda. Todos sabemos, por já termos assistido aos DVDs da banda, que não é a presença de palco o forte do Dream Theater, mas era incômodo não notar maior simpatia entre os membros e o público. Não os culpo, de forma alguma, por isso. Não é fácil tocar tudo tão perfeitamente e ainda correr loucamente pelo palco... Aliás, isso é impossível, em se falando de músicas do Dream Theater, para 99,9% dos seres viventes deste planeta. Nunca vi músicos de orquestra fazendo isso e não esperava que o Petrucci fizesse tal! Deixo isso para quem toca coisas bem menos complexas, como Angus Young, ou para quem não tem que se preocupar tanto com tantas notas altíssimas, como Mick Jagger! Não quero denegrir o trabalho de nenhum dos dois últimos citados, mas convenhamos que tocar Back In Black e cantar Satisfaction não são tarefas exatamente complicadas até para músicos principiantes.

Bom, Endless Sacrifice acabara de se tornar a melhor música da noite para mim, mas eu não esperava MESMO o que ainda viria pela frente! Os caras voltaram para o Octavarium e, caso não fosse justamente I Walk Beside You o ponto de entrada, creio que teríamos uma certa revolta. Digo isso porque ela foi executada, estranhamente, ainda melhor que no CD e, agora sim, não restavam dúvidas sobre a aceitação do álbum pelos fãs brasileiros. Dizer que todos cantaram a música pode parecer exagero, mas o volume das vozes do público agora parecia abafar bastante o som da casa, principalmente para quem estava na pista, o que dava a sensação de que cada garganta cantava as mesmas palavras que James LaBrie. Se nem todos cantaram, pelo menos os que cantaram fizeram isso em alto e bom volume!

Seguimos com mais duas do Octavarium: a morna e bem progressiva Sacrificed Sons e a ainda mais morna e progressiva faixa-título, Octavarium. Vejam bem, não uso morna como sinônimo de chata ou desagradável! Músicas lentas não podem ser consideradas quentes, podem? Chamo-as de mornas porque dão uma esfriada no público e, justamente na épica Octavarium, o número de arrepios em meus braços e nuca chegava a doer, logo, não podemos concluir que morna, em meus conceitos, iguala-se à sonífera!

Não achava Octavarium uma música forte no CD, mas soou muito convincente ao vivo. A música coloca exposta a veia mais progressiva da banda em sua abertura, alcançando o patamar de genialidade de muitas coisas na obra do Yes e do Pink Floyd, sem o mínimo exagero! Essa é uma daquelas canções que parecem ter sido escritas para calar a boca de quem arrota aos quatro ventos que não há feeling nas composições da banda. Sinto muito, mas quem não deve ter feeling é o ouvinte, amarrado ainda às noções adquiridas em 60/70 com os solos ortodoxalmente pentatônicos do Blues tradicional e do Rock da época.

Após encerrarem Octavarium, LaBrie deu boa noite à todos, avisando que, no domingo, o show seria completamente diferente e teríamos uma surpresa. O público pedia Metropolis Pt.1 insistentemente, ao mesmo tempo que aplaudia a banda.

Mais uma pausa e, na volta para o grande final, o bis, o Brasil foi presenteado com uma performance antológica de Learning To Live. Novamente, LaBrie mostra que não é mais o vocalista em quem poucos podem confiar ao vivo. O cara cantou tão bem, mas tão bem, que parecia playback! Foi tão boa a execução de Learning To Live que ficou difícil, neste momento, decidir o ponto alto do show...

Após a última música, a banda retirou-se rapidamente e voltou ao palco (Portnoy com seu tradicional roupão de boxeador) ao som de Singing In The Rain. Abraçaram-se, curvaram-se, foram ovacionados de pé pela platéia superior e camarotes, correram de um lado para o outro agradecendo cada canto da casa de shows e foram saindo do palco aos poucos, acenando bastante. O público começou a deixar o local do show abraçando os amigos que encontrava. Era difícil não encontrar sorrisos de satisfação estampados por todos os rostos ao redor. Do lado de fora, muita gente ainda gritava, alguns confessavam terem chorado, outros tiravam fotos e alguns já seguiam pra casa. A noite, agora fria se comparada ao ambiente na pista, tinha agradado profundamente a quem apareceu no Credicard Hall pra ver os americanos do Dream Theater e nem mesmo um completo idiota pode discordar disso.

Fecho a resenha deste dia de show reiterando o que adiantei no começo da mesma: não há aqui bajulação desnecessária. Sou fã incondicional da banda e não nego o fato, mas não sou idiota a ponto de forçar a barra e contar o que NÃO aconteceu só por amor à uma banda que nem sabe de minha existência. Vi o show da forma que descrevi e garanto que muitos fazem de suas palavras as minhas. As emoções que senti neste primeiro dia podem não ser compartilhadas por TODOS que lá estiveram, mas, digam aí, quem foi que não se sentiu como eu? Alguém conhece alguém que não gostou do show? Não creio...

4000km até o “Teatro dos Sonhos” Pt.2

Acordar sabendo que passou a noite passada vendo o Dream Theater ao vivo era um sentimento fantástico. A tarde passou lenta, com um almoço reforçado em uma churrascaria paulistana e um bom banho antes de seguir ao local do show, desta vez dirigindo o carro de nosso anfitrião em São Paulo. Demos carona para amigos que nos esperavam e que não tiveram a chance de presenciar o show de sábado. Elogios à performance de LaBrie não faltaram, muito menos ao setlist, que havia agradado a mim e ao meu irmão bastante. Faltava saber se teríamos ou não o SFAM na íntegra no domingo. Nós quatro queríamos, só faltava a banda querer também...

Após nos perdermos pela capital paulista e termos dificuldade em chegar ao local do show, seguimos para a platéia superior, lado par, assentos 210 e 212, enquanto nossos dois companheiros foram para a pista. A visibilidade parecia boa e estávamos felizes em podermos sentar e assistir ao show sem sermos empurrados. Sabendo da distância entre o palco e nós, tínhamos adquirido armas poderosas contra nossas miopias: BINÓCULOS!

Como já havíamos chegado às 8:00 da noite, a espera para que o show fosse iniciado foi curta e, mais uma vez com precisão, a banda subiu ao palco às 8:30, tocando The Glass Prison, faixa de abertura do álbum Six Degrees Of Inner Turbulence. Seria esta a noite em que os álbuns mais recentes seriam executados fartamente? A resposta negativa é dada através de uma das poucas músicas da banda a serem transformadas em vídeo clipes – Just Let Me Breath foi recebida como praticamente todas as músicas mais antigas, com certa surpresa e bastante contentamento.

A banda parecia estar em boa forma, como na noite anterior, e, caso falhas tenham acontecido, elas foram pouco percebidas. Li em fóruns no Orkut comentários sobre erros em determinadas faixas. Até esta altura não havia notado um sequer, mas a banda não sairia imune após praticamente 40 músicas tocadas.

A primeira parte da segunda noite shows continuou com uma das minhas músicas favoritas da banda. Puppets On Acid/The Mirror arrancou-me o ar dos pulmões de tanto que a cantei. Lie, mais um clássico, também agraciado com um vídeo clipe, seguiu a seqüência de clássicos e o sentimento de que todas as composições mais conhecidas do repertório seriam executadas aumenta. The Answer Lies Within não poderia ter me decepcionado mais profundamente. Além de ser, em minha opinião, um ponto fraco em Octavarium, a música não está nem mesmo entre as melhores baladas da banda. O que então fazia ela no meio de tantas outras músicas necessárias já tocadas?

A resposta, mais uma vez, mostrava o quão bem o repertório da banda havia sido organizado, já que, logo após a chatinha The Answer Lies Within, duas das melhores peças de Octavarium foram executadas: These Walls e Never Enough. Mais uma vez, caros amigos, o presente para os sul-americanos mostrava-se dos melhores! Tivemos cada uma das faixas do álbum mais recente da banda executadas ao vivo em nosso solo. Só por isso, pelo fato de termos visto e ouvido o Octavarium em sua íntegra, dividido em duas noites diferentes, não ouso reclamar da presença de faixas teoricamente substitutíveis, como a longa e belíssima faixa-título, que poderia ter cedido o lugar para a espetacular A Change Of Seasons.

Abro um parágrafo para comentar as vantagens de se estar na platéia superior, de posse de binóculos: ao contrário da pista, podíamos ver cada solo que quiséssemos e, finalmente, pude ver o Jordan tocando. Como o carequinha toca! Agora de posse de um instrumento que, perdoem-me pela ignorância, parecia um sintetizador acionado e tocado pelo deslizar de dedos, Rudess tirou algumas das passagens mais bonitas do show, como na abertura de These Walls. Isso sem falar de uma steel guitar, ou guitarra havaiana, como alguns a conhecem. A steel guitar é um instrumento de cordas, que lembra bastante o braço de uma guitarra elétrica tradicional, disposta deitada em uma pequena mesa e tocada com uma barra cilíndrica de metal ou vidro, chamada slide. A familiariadade de Jordan com ambos instrumentos, ausentes nas apresentações que conhecemos através de registros gravados em DVD, me surpreendeu. Mais um trunfo do incansável mestre dos teclados.

Bom, pode parecer desnecessário repetir, “over and over”, o quão bem a banda executava cada música. Petrucci “fritava” cada vez mais furiosamente suas cordas a cada solo e eu não poderia deixar de compara-lo ao nosso “fritador-mor”, Kiko Loureiro. Detesto comparações do tipo, mas minha mente não conseguia parar de funcionar desta forma naquele momento. Não sei se por esta ser uma velha discussão entre guitarristas que conheço, cada um com seu favorito, ou se por ter visto Felipe Andreoli na pista na noite passada, mas o fato é que não decidi quem mereceria a coroa de “fritador” máximo da atualidade. Não que eu ache que isso vá mudar muita coisa na minha vida ou na de qualquer um. A discussão é até infantil, mas gera uma rodada de chopp bastante animada, posso garantir.

Myung, visto de cima e de longe, apresentou-se bem mais ativo do que eu o tinha retratado em minha mente e do que pude ver da pista, na noite de sábado. Sua precisão é fora do comum e, com certeza, junto com Mike “The Camel” Portnoy (como cospe, este rapaz!), os dois formam uma cozinha que qualquer músico de rock neste mundo gostaria de ter. LaBrie movimentou-se muito também, cantando para cada canto da casa.

Pausa de 15 minutos antes da segunda parte do show, corri para onde poderia fumar, tirei a água do joelho, comprei cerveja, arrisquei mais um cigarro e então o som da introdução do álbum Scenes From A Memory socou-me os ouvidos. Aquele arranhar de disco presente no álbum fazia a intercalação entre o começo de obras diferentes de bandas diferentes.

Operation: Mindcrime?

Som de vinil saindo da agulha!

Dark Side Of The Moon?

Som de vinil saindo da agulha...

Outros discos que não reconheci passaram por este processo e a dúvida sobre qual álbum seria realmente tocado na íntegra continuava a pairar. Foi então que Regression garantiu a mais alta saudação das duas noites de show! Sim, o SFAM seria tocado “de cabo a rabo”. Não contive as lágrimas e só lá pela metade de Strange Deja Vu consegui me recompor. Pode um resenhista que se preze admitir coisa do tipo em seu texto, dito imparcial e apenas informativo? Bom, se não pode, fudeu! Relatei, é fato e agora já era!

O público estava em êxtase e cada uma das músicas foi cantada e acompanhada. Solos eram vocalizados por muitos, riffs eram tocados em “air guitars”, passagens de teclado viravam Ensaio do Coral Credicard Hall! O SFAM é, sem sombra de dúvida, o mais querido álbum do DT, pelo menos pela maior parcela dos fãs.

Não vou passear por cada levantar de mãos, cada salva de palmas, cada bater de cabeça ou cada solo da execução do SFAM. Vou pincelar momentos curiosos, como o mar de braços gigantesco durante The Spirit Carries On e o pequeno deslize de LaBrie em Home. Sim, houve um deslize pequeno, mas notável. Falar em deslizes da banda parece mais coisa para nerd e múscio que para um simples ouvinte. Lembremos que, em uma análise “quase” imparcial como esta, não poderia deixar de citar casos do tipo. Já li comentários de deslizes de um ou outro músico em uma ou outra faixa, mas, convenhamos, absolutamente nada que comprometesse o resultado final. Além do mais, dada a dificuldade das músicas, é facílimo relevar isto, a não ser que estejamos predispostos a falar mal da banda e torcendo para que errem!

O final, com Finally Free, satisfazia o coração de muita gente, mas, como era de se esperar, tivemos apenas uma pausa curta e LaBrie, Rudess, Portnoy, Petrucci e Myung voltaram ao palco para executar as duas músicas mais pedidas durante os dois shows em um medley, chamado por muitos de Pull Me Undertropolis ou Pull MeTropolis. E, aqui sim, no final dos finais, uma passagem em que Rudess e Petrucci deveriam estar harmonizados saiu de forma estranha, errada mesmo. Portnoy, vendo que LaBrie já voltava ao palco, pediu para que ele esperasse um pouco e repetiu a passagem, agora sem problema algum. Quem causou o desencontro não sei dizer. Pareceu-me que foi o Jordan, alguns afirmam que foi o Petrucci. Sinceramente, o simples fato de ter a banda voltando a passagem e admitindo o erro já mostrou o respeito deles para com o público.

Com a execução deste medley e as promessas de voltar em uma próxima turnê mundial, o Dream Theater encerra sua passagem por terras tupiniquins, deixando fã nenhum insatisfeito. Claro que alguns gostariam de ter escutado uma música ou outra que não foi executada, mas haja show para tanta música! Sinto-me feliz em ter visto Octavarium e Scenes From a Memory tocados em sua completude e não há nada que possa ter sido mais gratificante para mim que isto.

Pensando bem, eles poderiam ter trazido aquele coral que participou da gravação do Live Scenes From New York, não é? Poderiam ter feito uma terceira noite de shows gratuita, só para quem comprou ingressos para os dois dias. Poderiam ter abraçado e conversado com cada um de nós que fomos até lá, tirado fotos e dado autógrafos... Quem sabe eles poderiam ter pago uma rodada de cerveja também, dado parte do cachê para o Criança Esperança...

Que nada! Ainda assim teria gente que ia reclamar de alguma coisa! Aos eternos insatisfeitos, um conselho: paguem vocês o cachê dos caras e escolham as músicas que vocês quiserem! Que tal?

Tomara que lancem logo outro álbum e tenhamos nova tour, mas uma coisa eu garanto: Scenes From a Memory na íntegra de novo aqui no Brasil, nunca mais! Quem viu, viu, quem não viu...

SETLIST – 10/12/05

- The Root of All Evil
- Panic Attack
- A Fortune in Lies
- Under Glass Moon
- Caught in a Web
- Peruvian Skies (Wish You Were Here e Wherever I May Roam)
- Strange Deja Vu
- Solitary Shell
- About to Crash
- Losing Time/Grand Finale

Intervalo

- As I Am
- Endles Sacrifice
- I Walk Besid You
- Sacrificed sons
- Octavarium

(Bis)

- Learning to Live

SETLIST – SP – 11/12/05

- THE GLASS PRISON
- JUST LET ME BREATHE
- THE MIRROR
- LIE
- THE ANSWER LIES WITHIN
- THESE WALLS
- NEVER ENOUGH
- IN THE NAME OF GOD

Intervalo

Set #2: Scenes From A Memory

- REGRESSION
- OVERTURE 1928
- STRANGE DEJA VU
- THROUGH MY WORDS
- FATAL TRAGEDY
- BEYOND THIS LIFE
- THROUGH HER EYES
- HOME
- THE DANCE OF ETERNITY
- ONE LAST TIME
- THE SPIRIT CARRIES ON
- FINALLY FREE

Intervalo

- PULL ME UNDERTROPOLIS

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Sobre Bruno Coelho

Bruno Coelho é Arquiteto, escritor, poeta, produtor de eventos, pai, tradutor, intérprete e professor de inglês. Morou em cinco capitais brasileiras e hoje dedica-se ao árduo labor de organizar eventos na capital maranhense de São Luís. Fã do Dream Theater, Tool, Symphony X, Pain of Salvation e Evergrey, encontra espaço pra novas bandas e vertentes sempre.

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