The Vines: Os homens da indústria não brincam em serviço
Resenha - The Vines (San Francisco, CA, 22/03/2003)
Por Bruno Romani
Postado em 22 de março de 2003
Capa da Rolling Stone no último ano, participações nos maiores festivais de música europeus, presença constante na MTV americana. Essas foram algumas das credenciais apresentadas pelos australianos do The Vines para a apresentação realizada no lendário teatro The Fillmore em San Francisco, CA. Com tanto hype em torno da banda, muita expectativa criou-se em relação a tal show, ainda mais por esse ser o primeiro a ser realizado em terras estadunidenses no ano de 2003. A média de idade das pessoas que compareceram inicialmente era algo a se estranhar: 16 anos. Porém tudo se esclareceu mais adiante.
Sem muito a perder, os ingleses do The Music ficaram por conta da abertura. A banda de Leeds que vem sendo apontada como mais uma promessa do rock inglês venceu e convenceu. A mistura de música eletrônica, hard-rock e pitadas de Jane’s Addiction animou bastante o público. Os destaques ficaram por conta de "The Truth is No Words," "The Dance," "The People" e "Take the Long Road and Walk It." O vocalista Robert Harvey é um excelente front-man, despejando energia em sua performance através de sua aguda voz e de danças um tanto quanto esquisitas. A partir desse momento máscaras já começavam a ruir no The Fillmore.
Os Vines subiram ao palco já demonstrando pouco interesse pelo show. O vocalista Craig Nicholls e o batera pareciam estar altamente alcolizados e completamente indispostos a tocar. Mesmo assim, a banda deu início ao martírio com "In the Jungle." Àquela altura do campeonato, a resposta das pessoas foi bem positiva, mas a maneira arrastada com que essa primeira canção, e quase todas as outras que se seguiram, foram executadas guilhotinou qualquer eventual clímax. A segunda música também não foi muito feliz: um cover lentíssimo de "Mrs. Jackson" do Marvelous 3. A partir dessa canção foi possível acompanhar a constante movimentação de entrada e saída do palco do guitarrista de apoio, que na verdade tocava apenas um violão "quebra-galho" em algumas canções.
A chance de redenção poderia vir com a bela "Homesick." Não veio. A falta do piano, e a postura irritante de Craig Nicholls, que insiste em cantar pouco e fazer muitas caretas, acabou estragando a oportunidade de ouro. Talvez a banda estivesse esperando pelos trunfos "Get Free," "Highly Evolved," "Outtathaway" ou "Country-Yard," mas a verdade é que nenhum desses funcionou completamente. Os adolescente vibraram, claro, mas talvez não tanto quanto esperavam. No palco um triste retrato de uma banda super hypada, mas pouco competente nos palcos podia ser observada. O batera (cujo nome foi extraviado por esse que vos escreve) ainda está aprendendo, errando coisas relativamente fáceis, atrapalhando assim a progressão das canções. O baixista David Olliffe parece estar entendiado de ver seu companheiro de cordas berrando e fazendo muita pose noite após noite, mas ele também demonstra que será obrigado a suportar isso até que faça um bom dinheiro do mundo musical.
O vocalista Craig Nicholls é uma caricatura de mau gosto do grunge. Picasso preferiu pinturas abstratas porque sabia pintar da maneira convencional, assim como cantores que sabem cantar preferem berrar em alguns momentos para extravazar. Nicholls faz dos berros sua única tentativa de arte. Argumentos de que este poderia estar bêbado também não cabem aqui, caso contrário ele não trocaria de guitarra a cada canção, para que a primeira fosse afinada. Quando Cobain estava "alto" enfrentava o show inteiro com uma mesma guitarra, estando essa desafinada ou não. A tentativa por parte da banda de inserir músicas inéditas também ficou comprometida, porque essas soaram extremamente ruins. Prova maior de que os Vines não convenceram? As pessoas começaram a deixar o Fillmore antes mesmo do início do bis. Para os jovens que ainda lá estavam, Nicholls ainda destruiu a aparelhagem ao final do show, mas àquela altura nada mais poderia elevar o "teen spirit" da moçada.
Quando interesses de gravadoras estão em jogo, os homens da indústria não brincam em serviço. O Vines é uma prova disso. O produto de estúdio que eles são só pode ser mesmo comprovado na nudez de um palco. Quem foi ao Fillmore esperando ver o super hype australiano, acabou saindo com The Music. Uma dica? Esqueça o Vines e corra atrás da banda inglesa já!
SET-LIST
In the Jungle
Mrs. Jackson (Marvelous 3 cover)
Homesick
Inédita
Autumn Shade
Outtathaway
Inédita
Mary Jane
Ain’t no Room
Highly Evolved
Country-Yard
Get Free
Bis
1969
Inédita
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