Buzzcocks: O tempo não apaga algumas coisas extraordinárias
Resenha - The Buzzcocks (The Bowery, Nova York, 02/12/2000)
Por Marcio Ribeiro
Postado em 02 de dezembro de 2000
Dizem que depois de certa idade, coisas que antes lhe pareciam extraordinárias, mágicas e inatingíveis, perdem bastante a aura de intocáveis. Este definitivamente não é o caso dos Buzzcocks. É impressionante a capacidade deste quarteto, quase 25 anos depois de lançar seus primeiros compactos, continuar a criar uma tempestade sonora e uma alegria de viver em todos que os ouvem. Como diz a canção do Pete Shelly: "Feeling, like I'm almost sixteen again" (Me sentindo quase como se eu tivesse dezesseis anos novamente).
A banda mantém o "driving force", energia pura e força motriz que a tira da categoria de meros músicos e os tornam uma banda capaz de lhe fazer esquecer não só dos seus problemas mundanos, como até de suas limitações físicas. Um público que varia de quarentões a adolescentes de puberdade recém-descobertas, todos pulando incansavelmente, em alegoria punk (com menos anarquia e mais alegria).
O show começou com a banda solo de Steve Diggle, um trio guitarra-baixo-bateria muito bom, que acendeu o público e serviu como amostra para o que ainda estava por vir. Diggle, um impressionante pilar energético, promove seu álbum solo, "Some Reality", recém-lançado no mercado.
Depois de uma pausa, foi a vez de Pete Shelly subir ao palco, sozinho com sua guitarra e com uma base pré-gravada, tocando em play-back. Junto com sua guitarra, Shelly fez vinte minutos de karokê com material de seu mais novo trabalho, ao lado de Howard Devoto. Fala-se em um disco em 2001, todo em colaboração com seu ex-parceiro e co-fundador dos Buzzcocks, com quem não trabalha desde 1976. Batizaram provisoriamente a dupla de Buzzkunst. A palavra "kunst" soa como um oposto ao "cocks", uma possível indicação de nova direção para uma idéia antiga. Kunst em alemão na verdade significa "arte".
O material, como toda a carreira solo do Pete Shelly, é marcado pela música eletrônica com nuanças pop. O resultado lembrou um pouco alguns caminhos traçados por Neu!, banda alemã dos anos 70, sem ao mesmo tempo deixar de soar Shelly. A receptividade foi semi-morna, que o público nova-iorquino só abraçou de verdade na última música, o hit de 1982, "Homosapiens". Foram ao todo quatro músicas, iniciadas por "Stupid Kunst", "Til The Stars In His Eyes Are Dead", e "Going Off".
Mais uma espera de vinte ou trinta minutos e entra finalmente The Buzzcocks, com a mesma formação desde o início da década de 90, com Tony Barber no baixo e Philip Barker na bateria. O que mais se percebe é a crescente participação do material do Steve Diggle no repertório. Se durante o auge da banda, na era punk, ele era relegado a duas músicas por disco e alguns lados B de compactos, hoje percebe-se que ele se tornara o grande showman da banda. Sua presença de palco é infinitamente superior a de Shelly, que sequer faz sombra para o seu parceiro.
Shelly se resume a cantar suas canções e tocar sua guitarra. Mas o faz com paixão e grande credibilidade. Ele continua o principal compositor e arquiteto musical da banda, talvez o maior "hitmaker" da geração punk. Mas ao vivo, é Steve Diggle quem sobe no PA, dança com a guitarra, pula, quica, canta e dá tudo de si e mais. Com tremenda disposição, aos quarenta e poucos anos, no palco Diggle se comporta como se tivesse metade da sua idade. Como grã finale, em "I Believe", depois que Pete Shelly já tinha se retirado e enquanto a banda continua tocando, Diggle pega o pedestal com uma mão, a guitarra na outra e esfrega o pedestal nos captadores e cordas, criando uma zoeira em microfonia e humming. Derruba outro pedestal, joga tudo no chão, inclusive a guitarra, chuta a dita, uma Rickenbacker vermelha (que substituiu sua Les Paul negra nesta canção) e sai aplaudido enquanto sua guitarra esgoela microfonia, tendo o volume do amp abaixado por um roadie. A dupla Barber e Baker continua por mais alguns compassos, o que leva o público cantar em uníssono o refrão, "There is no love in this world anymore". A cozinha (baixo e bateria) admira e resolve continuar por mais alguns compassos e encerram.
Mais dois/três minutos e voltam, com uma surpresa. Steve Garvey, que se mudara para Nova York desde 1982, está no baixo para o bis. O público delira ao som de mais quatro clássicos, terminando com o primeiro sucesso da banda, "Boredom". Ao sair, Steve Diggle se aproxima do palco para agradecer a calorosa recepção do público. Um senhor grisalho, provavelmente um velho rocker, estende a mão e Steve Diggle na mesma hora olha, sorri e aperta a mão do sujeito. A partir daí, todo mundo da frente ganhou um aperto de mão, antes dele poder deixar o palco. No caminho de volta para a casa, um frio de -5ºC, um zumbido nos ouvidos e um sorriso na face.
The Buzzcocks nesta ocasião:
Pete Shelly - guitarra & voz
Steve Diggle - guitarra & voz
Tony Barber - baixo & backing vocal
Philip Barker - bateria
Steve Garvey - baixo no bis
Repertório:
1. Autonomy
2. Totally From The Heart
3. What Do I Get?
4. You Know You Can't Help It
5. I Don't Mind
6. Sitting Round At Home
7. Playing For Time
8. Car Crash
9. Fiction Romance
10. Get On Our Own
11. Do It
12. Kiss And Tell
13. Mad Mad Judy
14. Paradise
15. Orgasm Addict
16. I Believe
Bis
1. Harmony In My Head
2. Fast Cars
3. Ever Fallen In Love?
4. Boredom
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