Opinião: o Kiss fez sucesso com "quatro acordes e letras ruins"?
Por Pedro Dias
Postado em 21 de maio de 2021
Recentemente, o empresário de longa data do Kiss (e de várias outras bandas também), Doc McGhee, refletindo sobre o sucesso e o futuro da banda americana, soltou uma frase polêmica (para alguns de fácil ofensa): "Fazemos quatro acordes e letras ruins, e funciona fabulosamente para o Kiss."
E aí, em algumas comunidades de fãs, tivemos discussões acerca da frase. Com a idade você vai percebendo certas coisas que, quando era mais novo ou pouco estudado na escola da vida, não percebia. Quer ver? Por exemplo: repare com as linhas de baixo da banda Calypso são legais, cheia de ligados e grooves fantásticos.
Se você dissesse isso para o Pedro de 2009, ele diria: "cala sua boca, Calypso é uma merda, música brasileira é uma merda, forró não é música, rock and roll é vida, rock and roll, mano". A onde quero chegar com isso? Às vezes eu tenho uns devaneios e me perco nos assuntos. Enfim.
Digo: se o Doc dissesse essa frase para o Pedro de 2009, ele diria: "NÃO FALA ASSIM DA MINHA BANDA PREFERIDA. ELES SÃO INCRÍVEIS E FANTÁSTICOS". Mas hoje não. Ao contrário, para essas pessoas que falam isso e com relação a frase do Doc, eu diria: ele não tá errado, não.
C’mon, guys! As letras do Kiss não são e nunca foram um primor, não. Sejamos honestos! Inclusive, algumas são bem toscas e só servem para encher linguiça no álbum. Isso toda banda tem. Claro, seria injusto se não fizesse algumas ressalvas! Principalmente nos primeiros 6 álbuns, temos letras mais inspiradas ou que, de fato, representam a força da juventude, do rock e toda aquela ideia de celebrar a vida que o Kiss representou nos anos 70.
"100.000 Years", por exemplo, tem uma temática bem massa: a letra não deixa claro, mas segundo o próprio Gene Simmons é baseado num astronauta que vai para o espaço, fica lá um tempão e depois volta para a mina dele e se questiona como ela ficou tanto tempo esperando por ele. Massa, né? Bom, eu acho. Além do mais, é a cara do Gene (muito embora seja o Paul que cante). Sem falar no riff, na melodia, na linha de baixo... É muito massa.
Veja "Deuce" agora, um riff incrível, música rápida, visceral e do caralho ao vivo. Mas você já reparou como a letra é uma merda? "Get up! And get your grandma outta here". Levante e tira sua avó daqui. TIRE SUA AVÓ DAQUI, MANO. E aí, depois, Gene vem e pergunta se a mina dele tá bem, se ela tá legal e se ele sabe que ele dá um duro danado no trampo e que, por isso, ele deve ser bem tratado. O QUE CARALHOS ISSO TEM A VER COM A MINHA VÓ, MANO? Entende o que eu quero dizer?
O Rock And Roll Over, Destroyer e o Love Gun vieram com bastante letras legais, de empoderamento, que dá vontade de cantar alto e que representa e justifica a "Kissteria" dos anos 70, mas nada que se diga "ÓH! QUE BELA LETRA". Tá. Ok.
Aí, vamos para os anos 80: descartando o Creatues Of The Night, temos que os anos 80 é uma década perdida em termos de letras de músicas. Tem umas (poucas) exceções, claro, mas na maioria só uma ou outra música que tinha uma letra mais inspirada. O Music From The Elder não precisa nem mencionar, né? O Kiss tinha aquela política de "no drugs" e mesmo assim tentaram fazer um The Wall, que foi 100% composto sob efeito de drogas altamente alucinógenas e que são chaves para um portal dimensional da epifania profunda. Por isso o The Elder é aquela coisa horrorosa (em termos de letra) resultado do "não usamos drogas, mas, ei, olha que legal essa música super conceitual e motivacional chamada ‘I’. Da ate arrepio. Deus me livre.
E o Crazy Nights? Rapaaaz... "My Way", "I’ll Fight Hell To Hold You", Jesus Cristo, me irrita só de pensar. Sabe aquele meme "copia, mas não faz igual"? Olha ele aí na versão Def Leppard, Van Halen e bandas "tecladistas" dos anos 80...
Só para fechar o tópico anos 80: amo "Tears Are Falling" do fundo do meu coração. Mas a letra, pelo amor de Deus, não dá, cara. Eu baixo o Marcos Mion no "Piores Clipes do Mundo". Pura novela mexicana a música, chama a Paola Bracho para protagonizar o clipe. Tá. PRÓXIMO!
Começo dos anos 90, veio o Hot In The Shade com umas letras legais, o Revenge veio com os dois pés no peito, o Carnival Of Souls veio na onda do grunge e tem lá umas letras legais (maaais ou menos). E aí, temos a era Psycho Circus que dura até hoje. Por que?
Desde então, todos os álbuns foram feitos no mais puro e claro modo automático, just for the money, bitches. Pode notar: o Psycho Circus, o Sonic Boom e o Monster têm EXATAMENTE a mesma estrutura. A música de abertura do Paul (sempre com um assunto aleatório – "Hell or Hallelujah" é um GRANDÍSSIMO "WHAAAT THEEE FUUCK??"), tem a música de demônio sombrio malzão das trevas do Gene, aí tem a música do espaço/trocão/raio/coisaquepisca genérica do Tommy, aí tem a música "os quatro vão cantar sobre motivação, rock and roll, sei lá, qualquer bosta sob um riff nem show", aí eles colocam alguma música que possa colocar uma conotação sexual (preferível com algum trocadilho), algumas músicas aleatórias e, por fim, duas opções: uma balada para o Peter Criss OU uma música sobre qualquer coisa pro Eric cantar... Tadinho do Eric, olha ele lá... Pequenininho, de pintura de gatinho.. Que bença... Vamos dar uma música para ele cantar, afinal, ele é o Eric SINGER (mas NUNCA vamos tocar no show MUAHAHAHA).
Agora uma coisa é inegável: o Kiss é uma MÁQUINA DE RIFFS.
Pode pegar o ano ou o álbum que for! Sempre haverá músicas com riffs MATADORES! Até as músicas com letras toscas do começo de carreira, como "Watchin’ You" e "Nothing to Lose" (para quem não sabe, é sobre sexo anal), tem riffs muuuuito legais! Até o The Elder! Sim, até o The Elder! "The Oath" tem um riff muito legal! Gosto de toca-la ao vivo! Nos anos 80, então... Nem se fala, né? Também, com Vinnie, Mark e Bruce assumindo as guitarras solos, só poderíamos ter riffs atemporais. Paul, Gene, Ace, Bruce... Todos eles têm um feeling para riffs, nossa, incríveis! Tommy também! O Sonic Boom (mais do que o Monster) tem riffs muuuito shows. "Danger Us" (música do quesito trocadilho sexual) tem um riff setentista do caralho! O Kiss sempre soube construir seus riffs.
Então, assim: o Doc está certo. O Kiss construiu a carreira em músicas com letras tocas (em sua maioria) e riffs fantásticos e matadores. E eles sabem disso! Eles sabem MUITO BEM disso (vide a era Psycho Circus que eu falei). E não tem absolutamente nada de errado nisso! Porque as letras são toscas, sem sentido nenhum, mas me diverte e vem divertindo a gente por longos 50 fuckn anos. Cara, para divertir, não precisa ser conceitual. Aliás, nem deve!
Veja, só porque as letras são toscas, não quer dizer que a música, a banda e o álbum são ruins. Não precisa ser uma letra cabeça, Pink Floyd e sobre crises existenciais e o sentido da vida para curtir. O rock and roll é isso: serve para celebrar a vida, balançar a cabeça ao som de um solo de guitarra, esquecer os problemas, ir contra o que é convencional... Isso é rock e é isso que o Kiss e várias outras bandas representam.
Se você é um dos fãs que achou a fala do Doc ruim, vai escutar Engenheiros do Havaí.
FONTE: Rolling Stone
https://rollingstone.uol.com.br/noticia/kiss-fez-sucesso-com-quatro-acordes-e-letras-ruins-diz-empresario/
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