Clássicos são clássicos
Por Herick Sales
Fonte: Herick Sales Guitar
Postado em 29 de maio de 2016
Gosto não se discute. O que eu acho uma merda, você pode amar, e vice-versa. Ok. Mas vou trazer o foco para o que tange o aprendizado e digo até o profissionalismo do músico, no caso aqui, o foco será guitarra.
Hoje, muita coisa do que é possível se fazer musicalmente com uma guitarra, foram feitas, e ficaram registradas muitas vezes, em álbuns que permanecem como clássicos à 20, 25, 30, 40 anos! Então… o que esses álbuns têm afinal? Hoje, encaro parte da música atual como música pra burro: não é para te fazer pensar, questionar, degustar. Tudo tão imediato quanto um miojo. A música da rádio, é feita para celebrar amores de papel, dores de corno e balançar a bunda, celebrando pegações.
Indo para o rock, temos a celebração da juventude com um neurônio do tamanho de azeitona, com gritos, melodias tacadas ao ‘’foda-se’’, groove por vezes duro, e quando tem um refrão que querem cantar ‘’melhor’’, vem uma voz de adolescentes de 13 anos, que parece que vive o maior drama existencial da galáxia… enfim… salvo essas considerações em torno das minhas opiniões, que me fazem sentir falta do Nirvana, que ao menos tinha garra ( olha que nem gosto muito ), esse é meu gosto. Fim de papo.
Agora quando a coisa cai para o lado da profissionalização musical, com conteúdo, a coisa muda de figura. Há álbuns que independente de gosto, predileção, uma hora ou outra, precisam ser escutados. Faz parte da formação, se você almeja um crescimento musical, e não sou eu apenas que digo isso! De Mozart Mello a Slash, de Edu Ardanuy a Jeff Loomis. "Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band ", dos Beatles, foi um marco absurdo para a música, sendo considerado um dos pontapés do rock progressivo, e da psicodelia, já tendo sido considerado o melhor álbum de rock já gravado, além de ter a incrível produção do mago George Martin, que produziu um álbum incrível, numa época em que recursos eram escassos. O mesmo para o clássico "The Dark Side of the Moon", que já apareceu mais de 800 vezes nas paradas desde seu lançamento, e tendo sido revolucionário musicalmente quanto tecnologicamente, tendo usado o que de havia de mais moderno na época, e ainda foram criadas mais umas maluquices, afim de registrar a sonoridade desejada ( isso sem contar a aula de guitarra ministrada por Gilmour que bota 90% dos guitarristas atuais no chinelo ). O que falar do "Machine Head", do Deep Purple, gravado numa tacada só, ao vivo, em instalações de um hotel de Montreux, e sem correções?
Chega a ser um golpe na cara, em tempos de ‘’tudo se corrige’’ no estúdio, e em que você nem precisa tocar de verdade para gravar. A temática abordada no álbum "2112" do Rush, que desafia conceitos comerciais da época, com sua canção homônima super intrincada, passando 20 minutos, mesclando progressivo e hard rock ( se você curte Dream Theater, aqui de onde veio, óh…), e com apenas 3 integrantes. A sobriedade de Clapton, numa aula de canções e blues, flertes ao rock, pop e country, imortalizados no clássico "Slowhand", em que mostra licks por vezes simples, mas perfeitamente encaixados. Dizer que toca metal, ama o gênero, e não ter degustado o "The Number of the Beast" por um bom tempo, sem entender o impacto de cada canção, seus arranjos, técnicas avançadas de guitarra usadas por Adrian Smith e Dave Murray, e o primor da produção do genial Martin Birch, é quase sacrilégio! Sacar o impacto no mercado, que foi o lançamento de "Texas Flood", do Stevie Ray Vaughan, que trouxe de volta o blues, e na década de 80, mostrando uma pegada e fraseado descomunais, de forma orgânica, sem deixar de prestar tributo a Albert King ( outro senhor que merece vossa atenção ). Até mesmo para quem não curte música instrumental, ou virtuosismo, é de extrema importância entender por que o álbum "Surfing With the Alien" do Satriani, o elevou ao status de deus da guitarra, com sua técnica quase sobrenatural, ligados absurdos, e melodias modais.
Eis que já fui questionado, se uma pessoa que não ouve essas coisas, não pode tocar bem, etc…claro que pode! Busque nos youtubes da vida. Eu mesmo já vi e tive contato com gente que ouve Avenged, ou seja lá o que o dia todo, e toca os mesmos com perfeição. Mas e aí? Não estou falando de tocar bem. Tocar bem, tem milhares por aí. Tocar bem não é tão difícil, mas dominar plenamente seu instrumento, ter vocabulário, saber se posicionar perante à um arranjo, de formas que se adaptem e não choquem, ter cartas na manga que te permitam transitar por alguns estilo sem passar vergonha ao menos, e entender como a música evoluiu, qual foi sua trajetória, é o "x" da questão. E olha que citei só alguns clássicos no rock e blues, que acho o mínimo a ser feito e conhecido, se você toca esse gênero.
Estudar certas obras clássicas ( note que chamei de obra, não cd, álbum, disco ), não é o mesmo que baixar o mp3, ouvir 2 vezes, e depois, esporadicamente ouvir. Lembro-me que quando era adolescente, tive a ‘’sorte’’, de não ter internet. Digo "sorte’’, pois óbvio que queria ter! Porém, isso fez com que cada álbum que eu conseguisse, virasse artigo de luxo, a ser degustado até a última gota. Tenha sido o "Houses of the Holy" do Led Zeppelin, o " Heaven & Hell " do Black Sabbath, ou o "Van Halen I ’’, esses álbuns rolaram em meu rádio durante semanas e semanas, e eu com minha humilde strato vagabunda, ficava horas e horas, tentando tirar trechos, licks, riffs, improvisar na dinâmica das músicas, entender o estilo de cada guitarrista, entender o clima das composições e o por que esses álbuns perduraram por 20, 30 anos ou mais, diferente das mais novas hiper bandas do momento, que surgem, vendem milhões e graças ao bom Deus, somem depois.
Seja lá o que você queira ser musicalmente falando, guitarrista, arranjador, produtor, enrolador de cabo de guitarra, não estude apenas para tocar na sua banda, ou para ser apenas bom, para ser mais um. Isso daí tem um monte. Vá atrás da história e do que montou essa história, e estude seriamente isso, pois isso pode fazer a diferença entre você ser de fato músico, guitarrista, ou apenas mais um moleque com uma guitarra pendurada no pescoço.
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