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Tunecore 2

Collector's Room: Machine Head, o novo gigante

Por Ricardo Seelig
Fonte: Collector's Room
Em 13/10/11

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O topo do heavy metal é pouco propício a mudanças. Lá nas alturas, nas nuvens, acima de todos nós, estão há décadas as mesmas bandas: Black Sabbath, Ozzy Osbourne, Judas Priest, Iron Maiden e Metallica. Por mais que um novo grupo lance discos excelentes e conquiste cada vez mais o público, é muito difícil alcançar o status que esses cinco possuem.

É claro que existem diversas razões para esse reconhecimento. O Black Sabbath inventou o metal. Ozzy Osbourne, seu ex-vocalista, estourou nos Estados Unidos e se tornou maior que a banda ao lançar a sua carreira solo, durante a década de 80. Mais recentemente, com a série "The Osbournes", deixou de ser visto somente como um cantor e se transformou em uma figura da cultura pop, chegando na casa de milhões de pessoas que nunca sequer haviam escutado os seus discos. O Judas Priest formatou o heavy metal como o conhecemos hoje em dia, afastando-o das raízes blues, acentuando o peso e acrescentando generosas doses de melodia na receita.

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O Iron Maiden, alimentado pelo talento e pela disputa interna entre os geniais Steve Harris e Bruce Dickinson, elevou o metal ao status de arte com uma sequência assombrosa de álbuns. E o Metallica, ao unir a melodia e as influências neoclássicas da New Wave of British Heavy Metal – cena da qual o Iron Maiden era o principal nome – com a agressividade e urgência de bandas que flertavam abertamente com o punk – como o Motörhead – fez surgir o thrash, influenciando profundamente milhares de grupos e sendo responsável, ao lado do Slayer, pelo nascimento de uma sonoridade cada vez mais extrema, evidenciada em estilos como o death e o black metal.

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Além disso, o Metallica, uma banda inquieta por natureza, reinventou completamente o seu som no "Black Album" (1991), disco que teve uma aceitação comercial espetacular e transformou o grupo, em números absolutos, no maior nome da história do heavy metal.

O único nome que mostrou potencial para figurar ao lado desses gigantes foi o Pantera. O impacto do quarteto formado por Phil Anselmo, Dimebag Darrell, Rex Brown e Vinnie Paul na música pesada dos anos noventa é evidente e ainda pode ser sentido. Com álbuns excepcionais como "Cowboys From Hell" (1990), "Vulgar Display of Power" (1992) e "Far Beyond Driven" (1994), a banda reinventou o metal inserindo generosas doses de groove na mistura, resultando em um som que sacudiu, literalmente, a cena. Conflitos internos causados, principalmente, pela personalidade complexa e pelo comportamento errático de Anselmo, levaram à separação. O assassinato de Dimebag por um fã em pleno palco em 8 de dezembro de 2004 acabou com qualquer esperança de retorno.

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Todas essas bandas têm como ponto em comum a presença de pelo menos um músico genial em suas fileiras, que puxou para si o controle e a responsabilidade pelo direcionamento musical seguido pelos demais. Tony Iommi era o maestro do Black Sabbath. Ozzy transborda carisma. A dupla K.K. Downing e Glenn Tipton elevou o trabalho da guitarra a um nível inédito no Judas Priest. A voz aguda de Rob Halford influenciou gerações. As composições de Steve Harris transformaram o Iron Maiden em uma lenda. A presença de palco, a voz e a interpretação teatral de Bruce Dickinson servem de parâmetro, até hoje, para qualquer vocalista de metal. Os riffs e as composições de James Hetfield dividiram a evolução do metal entre antes e depois do seu surgimento. E a guitarra sempre surpreendente de Dimebag transformou o Pantera em uma banda milhas a frente de tudo o que havia na época.

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Pois bem. Algo similar a isso está acontecendo novamente, bem diante dos nossos olhos. O responsável por isso é Robb Flynn, vocalista, guitarrista e líder do grupo norte-americano Machine Head. No heavy metal atual, não existe nada igual à banda. Antes que os fãs do Mastodon se pronunciem, devo dizer que o trabalho do grupo também é interessantíssimo, porém explora caminhos sonoros que tem como principal característica alargar os limites do metal, usando para isso, principalmente, a total liberdade criativa que sempre marcou o rock progressivo. Já em relação ao Machine Head, a revolução se dá nas entranhas do heavy metal, retrabalhando os seus principais elementos de tal maneira que, ao emergir, traz consigo um som totalmente novo. É como se o Mastodon fosse as pernas e o Machine Head o coração dessa mudança. A diferença é que, enquanto o som do Mastodon exige um envolvimento maior do ouvinte para ser compreendido – e quando isso acontece o impacto sobre o ouvinte é acachapante -, isso não ocorre com o Machine Head. A força da música da banda de Robb Flynn é imediata e não dá opção para o ouvinte respirar.

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Ao dar play em "Unto the Locust", novo álbum do Machine Head, percebe-se instantaneamente que estamos ouvindo algo especial. A voz à capella de Robb Flynn introduz o clima sinistro de "I Am Hell", que se desenvolve através de atordoantes riffs agressivos que culminam em uma belíssima passagem de guitarras gêmeas. Preste atenção como o riff extremamente grave que sustenta a canção até os dois minutos é tipicamente Hetfield e saiu direto do núcleo do Metallica.

Um dos pontos fortes de "Unto the Locust" são as belíssimas linhas vocais, que se desenvolvem em camadas crescentes, em uma espécie de emoção contínua que vai crescendo até atingir o seu ápice nos refrãos. A construção dessas linhas vocais é um exemplo perfeito do nível quase sobrenatural em que a banda está trabalhando agora. A inspiração ecoa, fazendo com que tudo brilhe como uma luz ofuscante, puxando todas as ideias para cima, para o alto, para o infinito e além.

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Acredito que o heavy metal, como gênero, possui entre as suas principais qualidades a tradução quase literal das emoções mais básicas do ser humano. Em "Unto the Locust" isso fica claro como poucas vezes já ficou. As sete canções do disco são jornadas intensas e profundas ao interior de cada um de nós. O mergulho a que somos submetidos revela descobertas atordoantes de maneira sucessiva, e o resultado disso é que a audição do álbum se transforma em algo muito maior do que o ato de ouvir um disco. A sensação que essas músicas transmitem ultrapassa o simples entretenimento, a simples fuga, a simples diversão que, normalmente, buscamos ao colocar um CD para tocar. "Unto the Locust" é capaz de abrir novas dimensões, agindo de dentro para fora do ouvinte.

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Na minha percepção, não existe um gênero musical mais apaixonante que o heavy metal. O poder que ele tem de arrancar o ouvinte de seu estado atual, de cooptá-lo imediatamente e sem deixar outra alternativa, é único. E isso se dá através de álbuns marcantes, que conseguem ir além do que, no final das contas, até os seus criadores imaginavam. A música sempre teve vida própria, desenvolvendo-se, muitas vezes, praticamente sozinha a partir do ponto inicial dado pelo instrumentista. O próprio Flynn reconheceu isso em entrevista, ao afirmar que após ouvir "This is the End", a primeira canção finalizada de "Unto the Locust", percebeu o nível altíssimo em que a banda estava atuando.

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Esse poder é transmitido, literalmente, dos músicos para o ouvinte em "Unto the Locust". Não há intermediários. Não há intervalos. Não há desvios. O disco funciona como uma força da natureza com vida própria, uma espécie de entidade poderosa que age direto no coração de quem o escuta. E, ao fazer isso, atordoa o ouvinte de tal maneira que, ao seu final, a sensação é física, com o corpo retesando, relaxando e sentindo as dinâmicas das canções.

A evolução do Machine Head é espantosa. De banda relativamente comum e com um ou outro atrativo, o grupo se transformou em protagonista de uma das evoluções mais intensas do heavy metal a partir do ótimo "The Blackening", lançado em 2007. Porém, "Unto the Locust" consegue ir além, em um trabalho extraordinário que não encontra paralelo no metal atual. Quem ousaria gravar uma canção como "Darkness Within", por exemplo, que começa somente com Flynn cantando a letra ao violão, numa espécie de Bob Dylan contemporâneo, para instantes depois desembocar em uma amálgama de thrash com hard rock que leva o ouvinte direto ao "Black Album"? – sim, novamente o Metallica. E o que dizer de "Who We Are", faixa que encerro o disco? O coro de crianças cantando o refrão é arrepiante, em uma melodia ao mesmo tempo simples e macabra, que fica ainda mais maléfica ao contrastar com as inocentes vozes infantis.

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A minha jornada como fã de música já me levou a diversos lugares. Tive contato e me apaixonei por diversos sons e artistas ao longo da vida. Porém, o meu porto seguro sempre foi o heavy metal. Foi ele que trouxe para o meu cotidiano o Black Sabbath, o Iron Maiden, o Metallica e mais um monte de outras bandas que estão incrustadas em meus poros. Porém, o que eu senti ao ouvir "The Blackening" lá em 2007 foi incrivelmente amplificado com "Unto the Locust". Esse álbum tem a capacidade de reafirmar, com todas as letras, o quanto o heavy metal é único, belo e apaixonante.

Desde o surgimento do Pantera o metal não era abençoado com algo tão incrível como o Machine Head. Com o seu novo trabalho, a banda escreve o seu nome como principal pretendente ao Olimpo do gênero, ao lado dos citados Black Sabbath, Ozzy, Judas Priest, Iron Maiden e Metallica.

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Nasceu um novo gigante, e o seu nome é Machine Head!

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Sobre Ricardo Seelig

Ricardo Seelig é editor da Collectors Room - www.collectorsroom.com.br - e colabora com o Whiplash.Net desde 2004.

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