Seven Churches ou Scream Bloody Gore? Qual o pai do Metal da Morte?

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Por Sandro Marcos
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Já vou avisando que não sou adepto das certezas absolutas e inabaláveis, prefiro muito mais as dualidades ou mesmo multiplicidades; sendo assim não espere que eu dê a resposta para a pergunta do título, aqui o objetivo é dar base, ou alguma base, para que possam refletir e tirar suas próprias conclusões, se é que uma conclusão neste assunto realmente importa.

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Sabemos que a década era a de 1980, não importando se em Orlando/FL ou em São Francisco/CA; o fato é que de um destes dois lugares nos Estados Unidos nasceu o ser que foi responsável por disseminar o extremismo na música pesada, levando o Metal, ou o Thrash Metal, como alguns dizem, a patamares nunca atingidos antes. Em 1983, na Flórida, o guitarrista e vocalista Chuck Schuldiner formou o DEATH, ao lado de Rick Rozz, usando ativamente vocais guturais em suas músicas que desde os primórdios davam indícios da brutalidade desejada. O DEATH, que inicialmente se chamava MANTAS, despontou como promessa em 1984, ao lançar a demo “Death by Metal” que os colocou numa cena que já tinha o POSSESSED em certa evidência no underground. O POSSESSED, que vinha da Califórnia, foi formado por Mike Torrao (guitarra) e Mike Sus (bateria) e apostava num som furioso e veloz, inicialmente bem na linha do que já praticavam os seus conterrâneos do SLAYER, porém foi também em 1984 que começou a alçar posições de maior destaque na cena com a entrada do carismático baixista e vocalista Jeff Becerra e o lançamento de sua demo de quatro músicas e participação na coletânea "Metal Massacre 6", da Metal Blade Records (tocando "Swing Of The Axe").

Deixaremos as biografias um pouco de lado aqui pois o mérito deste texto é abordar os primeiros lançamentos “full-lenght” de ambas as bandas. Qual teria vindo primeiro realmente? Qual deles poderia realmente ser considerado o pai do Death Metal? Seria somente uma questão de data de lançamento ou existe como mensurar a data em que as músicas foram compostas? Já imagino que muitos ao lerem este artigo vão dizer que pouco importa, que os dois álbuns e as duas bandas foram excelentes e seminais. Já sei disso tudo mas sei mais ainda que Rock é diversão e estou me divertindo bastante ao dissertar sobre este assunto.


O DEATH já estava em sua segunda demo quando o POSSESSED lançou sua primeira, mas é fato que naquele momento o POSSESSED desfrutava de um maior prestígio no underground, devido talvez à região de onde vinha, uma Bay Area em ebulição metálica. Chuck e sua turma vinham de uma região onde o Metal estava ainda em evolução, ou surgimento talvez, e demorou um tempo considerável para que a Flórida – bem mais Tampa que Orlando – se caracterizasse por possuir uma cena de destaque. Isto realmente foi algo que ajudou na popularização mais rápida do POSSESSED e, consequentemente, sua demo acabou indo parar nas mãos de Brian Slagel, da Metal Blade Records, que pediu à banda uma música para ser incluída na já citada coletânea "Metal Massacre 6" de 1984. Uma ajuda e tanto para uma banda ainda em tímido crescimento. Era realmente uma boa oportunidade para Becerra e Cia. se destacarem, mas alguns problemas internos impediram um contrato com a Metal Blade, contrato este que viria a acontecer com a Combat Records, ainda naquele ano. Eles passariam as férias escolares de 1984 gravando o hoje intensamente aclamado primeiro álbum, chamado “Seven Churches”.

É difícil saber se isto basta, mas a verdade é que o DEATH passou boa parte do começo de sua existência no underground, sendo que seu primeiro álbum, o não menos aclamado “Scream Bloody Gore”, só foi lançado em 1987, um tanto tardio se comparado ao “Seven Churches”. Se fizermos uma comparação da sonoridade dos dois álbuns veremos que eles bebem na mesma fonte e são bem semelhantes em qualidade e direcionamento sendo que a turma de Jeff Becerra vai mais ao encontro do som praticado pelos companheiros do Thrash da Bay Area. Recheado de riffs cortantes e brutalidade à flor da pele “Seven Churches" acabou se tornando um dos maiores clássicos do estilo, até mesmo Chuck Schuldiner, do DEATH, modestamente aponta este disco como uma grande influência para sua música. Músicas como "The Exorcist", "Burning in Hell", "Evil Warrior" e a "Death Metal", além da faixa-título, dão um soco na cara do ouvinte e deixam claro que ali haveria uma reviravolta no quesito peso no Metal.


Já o debut do DEATH, que foi lançado após o retorno de Chuck Schuldiner do Canadá, onde havia se juntado à banda Slaughter (não confundir com o SLAUGHTER americano), veio para consolidar o estilo Death Metal, trazendo um som um pouco mais intrincado que "Seven Churches" mas ainda na mesma linha. As letras, que antes continham algo de social e político, neste primeiro álbum foram para o lado do horror explícito e o som já apresentava indícios de guitarras técnicas somadas à velocidade e partes mais arrastadas, uma das características marcantes do estilo e presença constante nos futuros lançamentos da banda.

Podemos apontar poucas diferenças entre eles, realmente foram álbuns marcantes e fundamentais para o nascimento e consolidação do estilo Death de se fazer Metal. "Seven Churches" foi realmente o pioneiro, as datas não deixam dúvidas, este crédito é dele e do POSSESSED, porém o DEATH com seu "Scream Bloody Gore" pode muito bem ser apontado como responsável por apresentar ao mundo o que seria o Death Metal que conhecemos hoje, este álbum trouxe, e é nisto que acredito, as marcas do estilo que o Death Metal se tornou para o conhecimento de todos e posso arriscar a dizer que se fosse somente pelo álbum do POSSESSED hoje esta vertente do Metal seria diferente. Vejamos bandas seminais como MORBID ANGEL E OBITUARY por exemplo, ou mesmo o cult MASTER, todas elas trazem muito mais elementos do que foi apresentado por Chuck Schuldiner que por Becerra e seus companheiros. Sem medo de errar termino dizendo que, fazendo uma pobre analogia, "Seven Churches" descobriu o carvão encravado na terra e "Scream Bloody Gore" o transformou em diamante. Na dúvida, escutem sempre os dois, bem alto e sem intervalos.

Força sempre Jeff! R.I.P. Chuck.

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