Rock n'roll e heavy metal - Gêneros distintos dividindo o mesmo barco
Por Maurício Rigotto
Postado em 10 de abril de 2005
Por que dois gêneros distintos navegam no mesmo barco enquanto os outros têm sua própria embarcação para seguir seu rumo? Por que um gênero de postura normalmente arrogante se permite posar de subproduto, ou vertente, como costumam argumentar, para pegar carona no barco que realmente revolucionou os costumes do mundo nos últimos cinqüenta anos? Por que não construir sua própria nau?
Após ler este parágrafo introdutório você deve estar se perguntando sobre que diabos estou me referindo. A minha analogia é sobre rock’n’roll e heavy metal, gêneros tão diferentes como tango e samba que são colocados no mesmo barco pelos desavisados que não tem discernimento para separar o joio do trigo.
Sou fã de rock’n’roll desde criança e nunca suportei o heavy metal, com o devido respeito ao gênero, apenas não me agrada da mesma forma que pagodes e sertanejos por exemplo, independente de ser bom ou ruim, o meu gosto e meus critérios pessoais não se identificam com a coisa. Cresci ouvindo bandas como Beatles, Stones, Kinks, Who, Byrds, Beach Boys, Animals, Yardbirds, Clash entre outras e caras como Bob Dylan, Jimi Hendrix, Lou Reed, Eric Clapton, Iggy Pop, Neil Young, Elvis, Chuck Berry, Jerry Lee Lewis, David Bowie, Raul Seixas, etc..., a lista completa teria umas duas páginas, mas a intenção é apenas exemplificar o que gosto, e não são apenas ícones com mais de duas décadas de carreira e serviços prestados que freqüentam meu toca-vinil e meu Cd-player (isso mesmo, ainda adoro manusear um disco de vinil), procuro acompanhar o que vem surgindo de novo e bom no velho rock. Naturalmente gosto de ler a respeito em revistas e sites de rock e aí sempre me deparo com a desagradável divisão entre notícias de rock e metal. Não entendo como musicalidades tão distintas são tratadas como a mesma coisa pelas pessoas ditas entendidas sobre o assunto. Até o público alvo é distinto, salvo exceções, quem se interessa por um gênero não quer saber do outro.
Embora não tenha acontecido comigo, acho normal e aceitável que garotos com até doze anos se deslumbrem com o Eddie do Iron Maiden, com os gritos agudos do Judas Priest e com as capas de discos sempre com caveiras com olhos vazados e o nome da banda escrito com aquelas letras ilegíveis, mas sujeitos com vinte ou trinta anos adotando aquela estética no mínimo duvidosa de se vestir com malhas de super-heróis e fingir que são cavalheiros medievais me parece sintoma de retardamento. As composições metaleiras são um aglomerado de melodias e harmonias sem dinâmica alguma, solos rápidos executados por punheteiros de guitarra que só tem técnica, mas não conseguem expressar nada de feeling ou sentimento, e as letras geralmente beiram a imbecilidade com conotações machistas e até racistas.
Então o que leva a pensar que o metal é uma vertente do rock? O fato das bandas terem formações semelhantes (vocal-guitarra-contrabaixo-bateria)? Até os instrumentos são distintos, bandas de heavy não usam guitarras Fender ou Gibson, indiscutivelmente as melhores do mundo para tocar rock’n’roll, preferem guitarras Jackson ou semelhantes com seus timbres tão horríveis quanto sua aparência. O rock realmente tem várias vertentes como o punk-rock, o rock psicodélico e inúmeros outros subgêneros. Uma destas vertentes do rock’n’roll seria o hard rock, um som mais pesado que teve como seu maior expoente o Led Zeppelin, seguido por ícones como o Deep Purple e o Black Sabbath, estes sim serviram de inspiração para a criação do gênero heavy metal. Então se conclui que o metal é no máximo um subproduto criado a partir de uma das vertentes do rock e que tem independência e adoradores de sobra para seguirem sem pegar carona no transatlântico do rock’n’roll.
Portanto separem as coisas, se eu quisesse ler sobre Carlos Gardel, procuraria em artigos sobre tango, se quisesse conhecer a biografia do Jamelão, iria procurar em livros ou sites relacionados ao samba, se eu estou acessando leituras sobre rock é por que eu quero ler sobre rock e não a respeito de outros gêneros, independente do que sejam.
Já fui cabeludo usando sempre vestimenta preta, já usei topete e costeletas achando que era o próprio estereótipo do roqueiro, a personificação de um rocker. Vivia falando da minha adoração pelo rock’n’roll até que uma mulher me perguntou: "Você gosta mesmo destes loucos cabeludos que ficam batendo a cabeça (headbangers) com os dedos fazendo chifres?" Fiquei chocado, então é isso que as pessoas acham que eu sou? E a culpa nem é delas, que não tem obrigação de saber sobre algo que abominam, a culpa é dos que colocam tudo na mesma caravela, ou por falta de sensibilidade para distinguir as diferenças, ou pior, por pura burrice.
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