Engenheiros do Hawaii lança novo CD dia 15

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Por Taís Bleicher
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Matéria de 13/01/02. Quer matérias recentes sobre Rock e Heavy Metal?

Os Engenheiros do Hawaii lançam, no próximo dia 15, seu novo CD. Surfando karmas & DNA é o décimo terceiro disco da banda e promete.

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Gravado entre junho e novembro de 2001, sem sair de estrada, o disco é fruto de atividade intensa, uma vez que o ano passado foi o segundo com maior número de shows na história do Engenheiros.

Dando uma sacada nas letras das músicas e no release do próprio Humberto, é impossível não se colocar ansioso para a chegada do dia 15. Para ele, a atual formação da banda foi a que amadureceu mais rapidamente: Paulinho Galvão nas guitarras; Gláucio Ayala na bateria e nos vocais de apoio; e Bernardo Fonseca no baixo, lugar que, desde o segundo disco da banda, era de Gessinger. Esse último consta, na ficha técnica, como “concepção, voz, guitarras, violões e teclados”. O primeiro papel sendo no mínimo complicado, se nos detivermos ao pé da letra à palavra “concepção”. Até que ponto os Engenheiros são “concebidos” por Humberto, ou são ele próprio?

O disco também conta com participações mais que especiais, como Carlos Maltz, que montou a banda com Humberto em 1985, continuando até o Simples de Coração (1995) e que, inclusive, também está lançando CD atualmente. Na mesma faixa (e-STORIA), Renato Borghetti, o Bhorgetinho, já tão conhecido dos fãs engenheirianos, dá o ar de sua graça tocando gaita.

Não bastasse tudo isso, Surfando Karmas & DNA é classificado, para Humberto, como sendo da mesma família de Revolta de Dândis (1987) e Ouça o Que eu Digo: Não Ouça Ninguém (1988).

A julgar pelas letras, Surfando... não vai decepcionar nenhum fã. Se formos pensar em um eixo que unifica esse CD, teríamos, certamente, a temática recorrente nas velhas e boas letras de Humberto: o indivíduo que sidera frente a um cotidiano atordoante, o caos diante de uma realidade que o coloca no lugar de um não-sujeito e o esmaga, a melancolia de um passado que se foi, e finalmente, além de tudo isso, um leve desejo de fugir ou construir algo a partir desse não entender. Talvez esse algo se concretize no amar alguém, afinal, “o que há de mais moderno ainda é um sonho muito antigo”.

Todas as letras, de conteúdo tão rico, são costuradas, logicamente, por muita sensibilidade e pela poesia tão característica de Humberto, com seus trocadilhos, às vezes, tão brilhantes, e em outras vezes nem tão felizes assim. A linguagem, cotidiana e informal, traduz como ninguém esse “pop-existencialismo” que, nem por isso perde a sua beleza.

As faixas são: 3a do Plural, Datas e Nomes, Arame Farpado, Esportes Radicais (180o), e-STORIA, Nem + Um Dia, Nunca Mais, Pra Ficar Legal (Poa-Rio-Nepal), Ritos de Passagem, Sei Não e Surfando Karmas & DNA.

3a do Plural

3a do Plural é eleita, com muito mérito, a música preferida do disco, por Humberto. A questão que se coloca é a tão recorrente questão do dito capitalismo tardio, com seu consumismo e o aniquilamento do sujeito perante um grande mercado que nos quer não como seres pensantes, mas apenas como consumidores. Eles, que “matam a nossa sede nos sedando”, fazem-nos tossir, cuspir, jogar pra fora, tudo o que de podre nos impõe. No entanto, no momento em que cedemos a nossa “cabeça para usar boné e professar a fé de quem patrocina”, ao perguntar “quem são eles”, cabe-nos continuar: Quem são eles senão nós mesmos, que nos permitimos vedar os olhos? Quem são eles, mas, fundamentalmente, quem somos nós também?

Datas e Nomes

Na música “Surfando Karmas & DNA”, Humberto é categórico: “Não pergunte quem foi Ana”. Ana, uma personagem quase mítica na carreira de Gessinger, parece ser uma figura onipresente, constante e eterna em suas canções de amor. Datas e Nomes tem “gostinho de Ana”, mas também, gostinho de Humberto apaixonado; paixões não resolvidas, um passado que se faz presente e sonha ser futuro, a explosão que quebra algo e que ele tenta reconstruir. “Amanhã, vamos rir de tudo isso?” é um convite belo em seu desespero.

Arame Farpado

Humberto diz que “Arame Farpado talvez seja uma canção sobre ser artista num país como o Brasil ... ter que sobreviver e manter intacta a sensibilidade em meio a uma realidade tão grosseira”, mas eu me estenderia mais. Não é só o artista que precisa sobreviver nessa realidade tão grosseira, mas nós todos, com absurdos legalizados, com algo que passa sobre nós e faz com que sintamos que não existimos, e, no entanto, temos que sobreviver: Pra quê? E então sobrevivemos, carregando todas essas ruínas, sem nunca esquecer... Tantas feridas causadas por uma realidade de muitos arames farpados no caminho! Talvez sejam exatamente esses arames e essa grosseria que nos torne mais sensíveis...

Esportes Radicais (180º)

Esportes Radicais é, certamente, uma continuação de Infinita Highway. “Agora quero freios e airbag”, ao invés de “alimentar os motores”. Podemos imaginar que, na teia de Surfando Karmas & DNA, esse cansaço que se presentifica pode ser fruto do “consumismo que nos consome” de 3a do Plural, ou dos arames que nos machucam e já não agüentamos mais carregar tantas feridas. Ou simplesmente cansaço dos “vendavais nas lojas de cristais”, de Datas e Nomes... De qualquer forma, é preciso “unir o otimismo da vontade e o pessimismo da razão” e fazer algo! Algo que nos fundamente frente ao caos. “Sentir com inteligência, pensar com emoção”... quem sabe, fazer música?!

e-STORIA
e-STORIA, como o nome deixa bem flagrante, tem um nascimento peculiar. Foi fruto de trocas cibernéticas entre Humberto e Carlos Maltz, novas tecnologias que permitem encontros tão frutíferos. Um diálogo cotidiano entre dois amigos, por e-mail, mas com a ironia peculiar de Gessinger. A mesma banda que exprimiu tão bem “a juventude é uma banda numa propaganda de refrigerantes”, agora nos fala que “jogam bombas em Nova Iorque, jogam bombas em Cabul como se jogassem a lata fora depois de beber um Red Bull”. Comparações tão absurdamente reais e tristes por se repetirem na nossa realidade. Mudam os versos, a falta de autenticidade e a ignorância humana, não. Diante dessa constatação, a fuga do caos, recorrente em tantas outras músicas: “às vezes fico a fim de mandar tudo pro espaço”, ou, ainda, “se a coisa ficá [sic] preta o negócio é aquele chá”.

Nem + Um Dia

Nem + Um Dia é, para Gessinger, a música mais intimista do disco. Com um arranjo de cordas de Glauco Fernandes e um abuso de trocadilhos por parte de Humberto, refere, como não poderia deixar de ser, a um amor que não se concluiu, uma promessa que não se presentificou: “o passado voltou rasgando / você ficou de voltar”. Dessa vez o aniquilamento do eu-poético se dá pela falta da pessoa amada (“não dá mais pra viver sem você nem mais um dia”), ares de melancolia de uma história que poderia ter sido contada por qualquer apaixonado.

Nunca Mais

Nunca Mais é uma versão para a canção Lullaby de Shawn Mullins e segue na mesma temática de Nem + Um Dia. O próprio Humberto, nos primeiros versos, desculpa-se: “não é o que se pode chamar de uma história original / não importa: é a vida real”.

Pra Ficar Legal (Poa-Rio-Nepal)

Pra Ficar Legal vem do desejo de fuga dessa realidade de “luzes artificiais”, “euforia industrial” e “da histeria carnaval”, a válvula de escape fabricada e permitida, que se insere perfeitamente no contexto. O mérito, aqui, é o uso das próprias imagens que nos dominam para tentar expressar a tentativa de fuga dessa sociedade mercadológica: Vou sair do ar um tempo, tô fechado pra balanço, vou sair da área de alcance...

Ritos de Passagem

Ritos de Passagem poderia se referir a uma adolescente, à crença e busca de uma liberdade que se descobre ilusória, “só outro modo de ver o mundo desabar”. Imaginar que se está livre de uma prisão para se inserir em outra e os medos que isso causa. Digo mais: Além de Ritos de Passagem parecer tanto espelhar um modo de acreditar e as inseguranças próprias de um adolescente, poderia ser outra forma de cantar a história tão adorável de Natasha, do Capital Inicial, aquela que com 17 anos fugiu de casa, num passo sem pensar.

Sei Não

Sei Não é de uma força lírica belíssima, em sua absurda simplicidade. “Às vezes faz a nossa cabeça um par de olhos”, “o que há de mais moderno ainda é um sonho muito antigo” e “o que há de mais seguro também corre perigo” são apenas formas de nos colocarmos frágeis frente a esse outro que simplesmente faz a diferença e nos toca, um sentimento não quantificável, mas absurdo em sua grandeza. Esse colocar-se frágil traz uma angústia construtiva: o que fazer se a nossa única certeza é esse outro? A resposta vem em verso: Não saber o que fazer às vezes faz nossa certeza.

Surfando Karmas & DNA

Finalmente, Surfando Karmas & DNA abre e dá nome ao disco. Não é à toa. É exatamente o eixo temático do CD. Humberto aborda a questão do micro X macro: “tenho vivido um dia por semana / acaba a grana, mês ainda tem / sem passado nem futuro / eu vivo um dia de cada vez”; e é exatamente assim que vivemos! Um dia de trabalho exaustivo na espera de voltar para casa, uma semana corrida para no final-de-semana desmaiarmos de cansaço, um ano inteiro de trabalho para um mês de “diversão”. Uma prisão ao tempo e à grana, que nos dominam e nos impedem de vivermos e de sentirmos prazer na existência. Sobrevivemos à hora da verdade (que são todas as horas) ou seguimos sem sobreviver? É esse o nosso karma? Não querendo ser maior do que o mar, mas não está na hora de inventarmos a nossa própria liberdade?

Enfim, deu para sentir o gostinho de Surfando... A julgar pelos versos, pelas pérolas distribuídas ao longo deles (“se eu soubesse antes o que sei agora / erraria tudo exatamente igual”), e por permanecer tão fiel à “engenharia hawaiiana”, acho que podemos dar um voto de confiança ao Humberto quando, em sua inconfundível modéstia, declara: “SURFANDO KARMAS & DNA TÁ BOM PRA CARAMBA!”. :-)

13 de janeiro de 2002

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