O erro que Humberto Gessinger admite ter cometido no disco "O Papa é Pop"
Por Bruce William
Postado em 20 de fevereiro de 2026
Corte da participação de Humberto Gessinger no podcast "Corredor 5", apresentado por Clemente Magalhães, mostra o músico descrevendo "O Papa é Pop" como um daqueles momentos em que a cabeça vai na frente do resto. "O Papa foi uma overdose de sinapses que eu tive", ele diz, lembrando uma fase em que compunha num ritmo absurdo. "Eu compus um disco por ano", e queria gravar logo, sem ficar esperando pressão de gravadora.
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O problema é que, quando a banda está naquele ponto de virar assunto nacional, as coisas mudam de escala. Ele comenta que a palavra pesa muito no Brasil, e que às vezes as pessoas esquecem que a letra está dentro de um contexto emocional: pode ter ironia, pode ter uma forma de cantar que muda tudo. Só que, quando bate no sucesso de massa, ele diz que dá "uma certa dor no coração" ver todo mundo cantando em coro numa tarde de domingo uma música que ele mesmo considera "tri-violenta e triste em temática".
A essa altura, você espera que o "erro" que ele admite seja musical - arranjo, letra, produção. Só que ele vai em outra direção: "o erro foi o nome do disco e a capa". Ele diz que, se fosse fã na época, talvez falasse mal também, porque a provocação estava toda ali, na cara, antes mesmo de alguém apertar play. "Se o disco se chamasse, sei lá, 'Exército de um homem só' ou 'A violência travestida faz trottoir' e não tivesse a palavra pop, que era um pecado na época(...) era um pecado, é uma provocação. Aí a gente entrou naquele terreno pantanoso de 'ah, vocês estão enchendo a nossa água. A gente vai provocar vocês, né?"
Ele explica que a canção, pra ele, não era sobre igreja ou religião de forma literal. O "papa" entra como signo do sagrado em contraste com o "pop". "A letra eu acho super triste, fala sobre o liquidificador que a cultura popular é, onde todo mundo entra ali e não tem defesa, e o papa entra ali só como um signo do que é sagrado, então só entra na música em contraposição com o pop". Só que a ironia nem sempre chega inteira do outro lado.
E teve também o lado bem pé no chão da gravação: a pressa. Ele conta que não deu nem tempo de ensinar as músicas pro Carlos Maltz, que teve que programar tudo numa bateria eletrônica Roland, ajustando percentuais pra acelerar e desacelerar porque o Humberto não suporta música "no mesmo tempo" o tempo inteiro. "Foi um drama", ele resume, com o baterista sofrendo pra fazer a máquina acompanhar.
E aí entra o detalhe que ele mesmo levanta como o maior complicador: o Engenheiros virou grande demais pra esse tipo de "sal" na receita. "O problema foi a gente ter virado uma banda quase hegemônica, muito grande", ele diz, ressaltando que nunca se enxergou como esse tipo de banda "de topo", e sim como uma coisa mais de canto, mais "college rock", com ideias e ironias que pedem ouvido e contexto.
No fim, o que ele descreve é aquela esquina chata da música popular: você não quer simplificar o discurso, mas também não controla como uma canção vai ser entendida quando vira trilha de massa. Como ele diz, a pasta de dente sai do tubo, e o resto é conviver com a maratona - longa - e com a certeza de que, às vezes, o erro nem está na música. Está no rótulo.
O vídeo completo com a participação de Humberto Gessinger no podcast "Corredor 5" pode ser visto no player abaixo.
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