Jovens roqueiros pedem a benção da MPB
Fonte: Veja Online
Postado em 28 de setembro de 2004
A cantora baiana Pitty é um fenômeno recente do pop-rock nacional. Seu CD de estréia, Admirável Chip Novo, bateu a marca de 100.000 cópias vendidas e estourou quatro músicas nas rádios. As crianças e o público adolescente não apenas gostam de Pitty como começam a imitar seu estilo. Ela exala espírito roqueiro. É cheia de "atitude" e tem um conhecimento enciclopédico de seu gênero musical preferido. Ex-estudante de música da Universidade Federal da Bahia, teve o topete de montar uma banda punk no período áureo da axé music. E continuou a fazer rock mesmo depois de ver muitos de seus amigos de farra largar a pauleira para correr atrás do trio elétrico. "Posso até tomar uma cerveja com a moçada do axé, mas jamais me convidem para assistir a um show deles", diz. Pitty se orgulha de não fazer concessões. "As pessoas me perguntam: 'Você mistura rock com quê?' Misturo rock com rock, ora bolas!" Quase sempre, pelo menos. Em seus shows, Pitty tem tocado a canção Deus Lhe Pague, de Chico Buarque. Nem a ortodoxa roqueira baiana se livra da vassalagem que o rock brasileiro não se cansa de prestar à MPB.
Quando Pitty se gaba de não fazer "misturas", ela tenta marcar diferença em relação a grupos como o pernambucano Nação Zumbi, que casa heavy metal com maracatu, ou o carioca Los Hermanos, que combina samba e rock. Mas o problema não está exatamente nas fusões. Há tempos o gene da mistura faz parte do DNA da música brasileira. Os tropicalistas baianos tinham até mesmo uma "téoria" para legitimar esse tipo de ação. Citavam o modernista Oswald de Andrade (1890-1954), que falava em "antropofagia cultural": o negócio era devorar o que vinha de fora e combinar com as tradições locais. Lembre-se a guitarra elétrica que Gilberto Gil e os Mutantes acrescentaram à regionalíssima Domingo no Parque, em 1967. O verdadeiro problema dos roqueiros brasileiros de hoje em dia é o excesso de reverência – para não dizer o complexo de inferioridade – em relação aos suseranos da MPB. Do ponto de vista mercadológico, isso não faz sentido nenhum. Estrelas ascendentes do pop vendem mais que um veterano da MPB. Ainda assim, elas não apenas regravam sem parar músicas velhas como pedem a bênção a grandes senhores feudais como Caetano Veloso, Chico Buarque ou Milton Nascimento – e até a baronetes como Lô Borges. Esperam, com isso, ganhar uma espécie de "selo de qualidade" para o seu trabalho. Os veteranos, por seu turno, além de se gratificar com a tietagem, podem dizer que estão sintonizados com as novidades e têm a chance de conquistar novos fãs.
Um elogio de Caetano Veloso sempre foi o mais cobiçado – e ele nunca os poupou. Caetano já "achou lindo" o RPM e já classificou de "alta MPB" a música dos Titãs. Paula Toller, do Kid Abelha, acredita ser uma boa letrista porque Caetano certa vez aplaudiu os versos da canção Como Eu Quero. Mais recentemente, o cantor deixou clara sua simpatia pela música do Los Hermanos – que, no entanto, tem Chico Buarque como seu principal ídolo. Outra grife que os roqueiros cortejam é a de Gilberto Gil. Os Paralamas do Sucesso tocaram com ele nos anos 80, Chico Science, nos anos 90 e, em 2002, o Cidade Negra exultou com a participação do futuro ministro em seu disco acústico. Mas a mais surpreendente "homenagem" prestada aos veteranos da MPB está no caso de amor entre o Skank e o Clube da Esquina. O Skank é uma banda popular de reggae e rock psicodélico. O Clube da Esquina foi um movimento tedioso que tomou conta de Belo Horizonte nos anos 70. Seus expoentes eram Milton Nascimento, Beto Guedes e Lô Borges. Até se compreende que os rapazes do Skank, naturais de Minas Gerais, sintam alguma nostalgia da infância ao ouvir um dos clássicos do Clube. Mas para que ressuscitar Lô Borges? O grande projeto de Samuel Rosa é gravar um disco com seu velho ídolo (e bota velho nisso) no ano que vem.
De toda essa patética vassalagem, a sensação que fica é que todo guitarrista nacional é um violonista enrustido, pronto a cantar as proezas do mulato inzoneiro – e que o rock brasileiro não passa mesmo de uma província da MPB. Às vezes, até parecem existir alguns territórios livres. Atualmente, há cenas independentes de rock fervilhando em capitais como Goiânia e Curitiba. O mesmo ocorre na Salvador de Pitty. Pelo menos até o próximo elogio de Caetano Veloso.
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