Necronomicon: entrevista com a banda, que fará turnê em São Paulo

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Por Breno Airan, Fonte: Rock na Velha
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Em 2009, ainda no início do ano, nascia um projeto do futuro guitarrista e vocalista da Messias Elétrico, Pedro Ivo Araújo.

A ele, deu-se a alcunha de Necronomicon - sim, o nome do mesmo livro fictício usado por Howard Phillips Lovecraft em alguns de seus tenebrosos contos fantásticos.

Não à toa a banda usa-o como chamariz. A literatura de horror está impregnada em cada nota teclada por Pedro Ivo, que além de cantar, toca baixo, órgão, piano, cravo e sintetizadores.

O power trio se completa com sua namorada, a excelente guitarrista e executora de wah-wahs Lillian Lessa, e seu parceiroThiago Alef, que destrói lá atrás, na cozinha, estando ou não usando seus óculos de grau.

Para todos os efeitos, o som deles é calcado nesse ambiente soturno e tem como influências bandas a exemplo de Emerson, Lake & Palmer, Atomic Rooster, Black Sabbath, Witchcraft e Coven.

Já em seu segundo álbum "The Queen of Death" - lançado em vinil em outubro último pelo selo estadunidense Hydro-Phonic Records (ouça neste link) -, o grupo alagoano embarcou em tournée para a estado de São Paulo e já chegou com pelo menos cinco datas marcadas, tanto na capital como no interior.

O primeiro compromisso deles foi no festival Anhangabaú da Feliz Cidade, no dia 4 de maio, último sábado, em São Paulo-SP.

No domingo (5), eles fizeram apresentação no evento Cidadão do Mundo, no município de São Caetano.

Dois shows e muito fôlego farão parte do set na capital paulista no próximo dia 11, primeiro no Rock na Vitrine, depois no Formigueiro.

Quase uma semana depois, no dia 17, o power trio volta para o interior e executa suas músicas no Triball Show, em Barueri.

E, sem delongas, a Necronomicon é um prato cheio para quem gosta de boa música, literatura - as letras do último play são baseadas num conto chamado "A Rainha da Morte" do próprio frontman - e, literalmente, viagem. Façam seus check-ins e se segurem: http://necronomicon.bandcamp.com/

Entrevista

Rock na Velha - Bem, pelo que sei, há duas outras bandas além da sua com esse nome – referência óbvia ao mestre da literatura fantástica H.P. Lovecraft –, uma de Thrash Metal, da Alemanha, e outra de Death, da Suécia. Você acha que não haverá problemas de direitos autorais mundo afora depois?

Pedro Ivo Araújo: Acho que não... Até porque há ainda mais duas que conheço: uma canadense que não lembro o gênero e uma de krautrock, alemã, dos anos 1970. O único problema é conseguir uma identidade, principalmente no meio Metal, tão saturado por esse nome...

- Uma sugestão para acabar com esse impasse seria pôr uma letra repetida no nome do grupo, mas creio que o H.P. não iria gostar, né? (risos)

Ou "NecronomicoM", "Necronomycon", "Nekronomicon"... (risos)

- Como surgiu, afinal, a ideia de montar um power trio em Alagoas?

Aquela clássica história de reunir os amigos e se divertir tocando o que gosta. Como não tenho tantos amigos assim, acabou sendo só um trio... (risos)

- Quem está assistindo ao show de vocês pela primeira vez, mal sabe que o cantor namora a guitarrista. Você a influenciou musicalmente de alguma forma?

Acredito que sim. E também fui influenciado por ela, logicamente. É sempre uma troca, né?

- O interessante é que, no palco, os olhares de vocês sempre se cruzam quase que dizendo "muito bem, você detonou nessa passagem".

Nós três somos muito próximos, o que se reflete no palco. Também nos admiramos muito como músicos e a cada show eu fico mais feliz pela evolução de todos.

- O som da banda é bem soturno. Essa é a palavra que me vem à cabeça de imediato. Como se denominam?

Eu realmente não sei como denominar... Alguém, certa vez, nos rotulou como "Occult Rock" e eu achei um bom título.

- Há muito Coven, Pentagram, Focus, Emerson, Lake & Palmer e Atomic Rooster na Necronomicon. É chato quando apenas os comparam com o Black Sabbath? Afinal, a proposta é outra.

É legal quando o público saca as referências da banda. Black Sabbath também não deixa de ser uma, por isso não é exatamente ‘chato’ quando falam disso. Mas claro que é mais gratificante quando vem alguém e fala "legal o som, senti uma pegada Captain Beyond aí!" (risos).

- Esse é o segundo play de vocês, com quase 40 minutos. Qual a maior dificuldade para "superar" o anterior?

Não tentamos "superar" o anterior. Foi mais um aprendizado/evolução de um para o outro. Foi até mesmo mais fácil compor e gravar esse segundo play.

- Como vocês conseguiram que ambos os álbuns saíssem por um selo lá de fora?

Assim que gravamos o primeiro disco, começamos a divulgá-lo na internet. O Travis, do selo Hydro-Phonic Records (lá de Michigan, nos EUA) curtiu o som e se ofereceu para lançar em CD. Desde então, estamos nessa parceria com o selo, que lançou o primeiro disco em CD, o segundo em vinil e pretende relançar o primeiro também em vinil ainda esse ano.

- O vinil no Reino Unido, no ano passado, teve um aumento de 70% nas vendas. É clara a volta da bolacha de 33rpm. Por que vocês resolveram lançar o "Queen of Death" nesse formato?

Não foi exatamente uma escolha nossa, mas sim do selo, que afirma que praticamente ninguém mais deste nicho musical compra CDs; daí, não vale a pena o investimento. Como também sou colecionador de LPs, sei desta realidade: a venda de vinis está em alta agora no mainstream, mas no underground, principalmente neste nicho de rock pesado-psicodélico-retrô, o vinil já é a principal mídia há muitos anos.

- Você comentou uma vez que esse disco foi feito para ser ouvido na vitrola, especificamente. Que elementos ficam no vácuo quando se escuta esse trabalho no CD, por exemplo?

O tipo de mídia influencia na qualidade do som, nas frequências atingidas. Não quero discutir se vinil é superior ou inferior ao CD, mas que há muita diferença entre eles, é fato. Muitas bandas que lançam vinil simplesmente pegam seus arquivos master e jogam para prensar, sem se preocupar com as limitações e particularidades da mídia vinil - daí que muitos álbuns ficam com o som no CD superior ao do vinil, "desmentindo" os entusiastas dos LPs. Está aí um exemplo dos vinis recém-relançados dos Beatles: os CDs com as remasterizações saíram em 2009, mas só agora no fim de 2012 terminaram a preparação das músicas para poder lançar em vinil. A mixagem e a masterização do "The Queen of Death" foram feitas cuidadosamente para a mídia vinil desde o início.

- Vocês ainda são pouco conhecidos em Alagoas – o que é algo intrigante –, mas, no exterior, já começam a trilhar por entre resenhas, audições e até covers no Youtube. Onde vocês foram parar, virtualmente falando? Nos EUA, Europa?

Acho que já estamos ficando um pouco mais conhecidos em Alagoas (risos). No exterior, é por aí mesmo. O disco foi lançado nos EUA... Temos uma pequena divulgação do selo por lá e na Europa também, principalmente, ali pela Holanda e subindo via Suécia, Noruega. Também vemos uma porçãozinha de gente do Peru que curte a banda; até descobrimos que lá tem uma baita cena de Rock!

- O conceito de "Queen of Death" é baseado em um conto seu. Explique tal alegoria.

"Queen of Death" é baseado no conceito thelêmico de força libertária feminina, Babalon, a Mãe Arquétipa, o conceito do Feminino que nos reúne em uma só Humanidade.

- Maravilha. Mas o primeiro álbum, que foi autointitulado, saiu em fevereiro de 2011. Um ano e meio depois, vocês lançam o segundo. Já há pretensão de um terceiro por aí?

Pretensões existem, mas ainda não começamos os trabalhos. Apenas ideias esparsas, alguns riffs, mas ainda nada concreto.

- Ele vai seguir o mesmo esquema conceitual?

Talvez, quem sabe... Mas creio que não. Acho que o próximo disco vai ser mais "relaxado", menos sisudo.

- Dá pra ver seu apreço por Lovecraft e histórias densas e escabrosas. Do que mais você gosta de ler nesse mesmo âmbito "dark"?

Além do Lovecraft curto Willian Hodgson, algumas coisas do Poe, Michael Ende, Kafka, Asimov, muito HQ: Alan Moore, Neil Gaiman, Morrison...

- E filmes do estilo? Você recomenda algum?

The Andromeda Strain, Lifeforce, The Thing, Nosferatu (o do Herzog)... é só o que lembro agora (risos).

- Aproveitando o gancho, há películas que tratam do Necronomicon, como o clássico "The Evil Dead", do Sam Raimi, e o "À Beira da Loucura", do John Carpenter, e muita gente acha que o livro realmente exista, mesmo o Lovecraft tendo desmentido. Isso não dá uma tensão a mais à coisa toda (risos)?

Talvez... Mas eu preferia que as pessoas fossem mais esclarecidas e soubessem a verdade (risos).

- De que modo a literatura fantástica influência na musicalidade de vocês? Vocês três dão conta do recado, com quebradas rítmicas e solfejos na medida, devo frisar.

(Risos) Obrigado! Acredito que influencia no modo como arranjamos as composições, que, se você prestar atenção, são desenvolvidas em atos como uma história, independentemente das letras: prólogo, desenvolvimento, crise, clímax, epílogo.

- Como você vê o atual cenário roquístico de Alagoas? Há esperanças, diante dessa maldita tríade de axé-forró-pagode?

Enquanto houver um moleque tocando três acordes haverá esperança (risos). Houve um tempo em que o cenário estava muito parado, era bem difícil ver shows legais e também tocar. Ainda é bem difícil fazer rock em Alagoas, mas tenho percebido uma melhora considerável na cena. Tenho visto as pessoas gradualmente deixarem de lado a ideia de "vencer sozinho" e partirem para a parceria e comunicação. Temos som de qualidade; temos gente fazendo a correria... só é preciso de mais espaços para os shows se abrirem.

- Verdade que você teve que se desfazer de um de seus baixos, um belíssimo SX jazz bass de uma série vintage, para poder arcar com as despesas da viagem para esta tour em São Paulo?

Sim (risos). Saudades dele, mas valeu...




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Sobre Breno Airan

Acima de tudo, um forte. Ser roqueiro no Nordeste é estar cercado de olhares de soslaio. Mas ele sabe ser simpático. Começou a escutar Heavy Metal ainda na barriga da mãe. A seu pai, uma verdadeira enciclopédia do estilo, deve tudo. Aos 14 anos, pediu para uma tia R$ 12 de presente de Natal, foi a uma loja de CDs usados e catou logo o "Rust in Peace", do Megadeth - em perfeito estado, inclusive. Daí por diante, a paixão só vem aumentando. É editor do blog Rock na Velha, integrante do blog Combe do Iommi e colaborador da revista alagoana Rock Meeting. Ainda tem tempo para ser jornalista e de tocar baixo em sua banda de Hard Rock, a Azul Manteiga.

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