Gene Simmons: Kiss, Bon Jovi, Maiden, e crianças africanas

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Por Nacho Belgrande, Fonte: Playa Del Nacho
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O líder e cofundador do KISS, GENE SIMMONS, é o entrevistado do mês da revista bretã CLASSIC ROCK MAGAZINE, e como não poderia deixar de ser, o baixista abriu sua caixa de ferramentas e discorreu sobre o presente e o futuro da banda, e porque a palavra ‘longevidade’ tem outro peso quando o assunto é o grupo de Nova Iorque.

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O que segue abaixo é a entrevista traduzida para o português.

A nova cinebiografia do KISS, "You Wanted The Best, You Got The Best" está sendo feita atualmente com o diretor Alan G Parker, conhecido pelo filme "Hello Quo!". Por que demorou até agora pra isso ser feito?

Gene: Tudo tem a ver com o cineasta. Queríamos achar alguém com uma voz honesta, porque o que você está fazendo é colocar seu filho nas mãos de alguém. Alan não somente tem uma tatuagem do KISS em sua pele, mas ele também tem uma vibração autêntica nele. A abordagem sugerida por ele pro filme tinha que incluir tudo, e não só o que Paul e Gene queriam. Com certeza não vai ser uma pílula dourada. Nós não vamos interferir – de modo algum.

Você está dizendo que ele tem cem por cento de liberdade artística?

Gene: Exatamente. Nós não temos o direito de editar nada. Ele tem a liberdade de nos apresentar da maneira que ele achar correta, se isso nos deixa parecendo porcos capitalistas, que seja. É exatamente o que eu sou – eu te cobro por qualquer coisa que eu faça. Eu sustento 14 mil crianças em Zâmbia – eu as alimento e as visto – mas eu não dou coletivas de imprensa a respeito disso. Eu não o faço pra que você fique pensando que cara legal que eu sou, isso é particular.

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Você obviamente não se importa com o que as pessoas acham de você ser um filho da puta ganancioso.

Gene: Não, eu acho que isso é bom. Ouça, eu trabalho por tudo que eu tenho. Eu comecei muito pobre. Eu quero receber. As pessoas que te dizem: "Eu não quero muito dinheiro, tudo que eu preciso é o suficiente pra viver" são mentirosas. Qualquer um que elas tenham sobrando, mandem pra mim.

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Mas isso não se trata de proporção? Alguns podem achar sua postura indecente.

Gene: Proporção pra quem? Quando eu era criança, um dólar era muito dinheiro, mas à medida que você cresce, ele vale menos. Eu não esbanjo. O que você faz com o dinheiro não tem importância. Você pode doá-lo pra caridade ou enfiar no seu cu. Mas enquanto você estiver vivo, sua função é continuar a fazer mais dinheiro e manter a alimentação da economia.

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Você e Paul Stanley agora são donos de um time de futebol estadunidense, o LA Kiss. Mas você já admitiu antes que odeia esportes.

Gene: Eu não gosto de esportes do modo que eles foram concebidos, mas eles estão se aproximando do que eu gosto – que é o lance ‘na cara’. No boxe, por exemplo, por quem a plateia torce mais?

Pelo vencedor, obviamente.

Gene: Não. Na verdade a moça com a placa com o número do assalto é quem recebe a maior ovação. E o que isso tem a ver com boxe? Nada. Esportes são maravilhosos quando eles prendem sua atenção. É por isso que a filosofia do LA Kiss está mais próxima de um show do KISS do que de um jogo de futebol. Há muita coisa pra qual se olhar: fogos de artifício, líderes de torcida e toda aquela coisa boa. Um ingresso pra fase classificatória custa apenas 99 dólares, e você ainda ganha um show do KISS de graça.

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Então você gosta mesmo do jogo. Você sabe falar de táticas?

Gene: Não, não sei. Nem deveria. Não sou qualificado pra isso.

Então essa é apenas mais uma oportunidade de negócios?

Gene: Claro que o dinheiro é importante; você quer ser pego e eu também quero. Mas eu não concordo com essa ideia de que você tem que estar envolvido em todos os detalhes. Por que você não pode ir a um jogo de futebol sem saber nada sobre o esporte e se divertir tanto quanto alguém que está a par de cada minúcia? Todos são bem-vindos na igreja do LA Kiss. Se você vier e ver o KISS sem conhecer nenhuma das músicas, você ainda vai sair dizendo, "Esse foi o melhor show que eu já vi na minha vida". Com o LA Kiss é a mesma premissa. Há os dois gols em cada ponta do gramado, é só isso que você precisa saber.

Jon Bon Jovi foi – reforçando o tempo verbal – coproprietário do Philadelphia Soul. Você pediu conselhos a ele?

Gene: Não. Nós [KISS] fazemos as coisas bem diferentemente do Bon Jovi. Nós obtemos sucesso.

Touché!

Gene: Three-ché – acrescentei a inflação. Não, ouça, eu amo Jon, e o que ele tem feito é ótimo, mas isso não se trata de patrocínio de uma celebridade. Eu tenho mesmo me pendurado no telefone e feito vendas corporativas.

Então essa é somente outra expansão da marca KISS?

Gene: Sim, mas eu estaria mentindo se dissesse que não fiquei entusiasmado com o modelo do negócio. Tenho muito orgulho pelo KISS ter chegado aonde nenhuma banda chegou antes.

E o que acontece se vocês não vencerem nenhum troféu? Vão sair?

Gene: Não. Não se trata de troféus. Alguns dos times que vencem menos são os que fazem mais dinheiro.

Então tudo gira em torno de dinheiro?

Gene: A vida gira em torno de dinheiro. Até deus passa o chapéu. Essa é uma pergunta típica de jornalistas ingleses. O dinheiro é uma coisa boa, não a raiz de todos os males. Falta de dinheiro é pior. Com cem milhões de dólares no banco, por que eu precisaria assaltar uma loja de conveniência?

Saindo do assunto esportes, há boatos do KISS fazer ume turnê pelo Reino Unido no segundo trimestre de 2014.

Gene: È verdade. E como um Anglófilo assumido, mal posso esperar. Mas o Reino Unido é um lugar muito estranho. Ele é de fato como o mundo do Hobbit, um reino mágico. Os Europeus chamam vocês de Europeus, mas os ingleses não. Vocês são uma ilha bem pequena cercada por água. Vocês não inventaram o rock, ou o blues, ou o jazz, mas vocês pequeninos com suas comidas estranhas e coloquialismos estranhos criaram a música que comanda o planeta – os Beatles, os Stones, The Who, Zeppelin, e a lista vai até o infinito – e vocês continuam a fazê-lo.

Vocês levariam em consideração tocar como parte de um elenco com o Mötley Crüe, com quem tocaram pelos EUA no último verão?

Gene: Não. Estamos pensando em uma celebração de quarenta anos. Temos o palco com a aranha, que faz tudo menos dar à luz. Eu não quero entregar o que vamos fazer, mas [começa a falar com sotaque Cockney], vai ser uma comemoração bem apropriada.

A primeira autobiografia de Paul Stanley será publicada na próxima primavera. Você sabe de alguma coisa sobre o conteúdo?

Gene: Não. Paul e eu somos tipos muito diferentes de pessoa. Ele é muito reservado e não gosta de mostrar nada pra ninguém até que ele esteja totalmente feliz com aquilo. Eu estou ansioso para ler o livro, tanto quanto qualquer pessoa.

Como várias bandas de certa idade, o Crüe agora trabalha rumo à aposentadoria. Por quanto mais tempo podemos esperar racionalmente que o KISS perdure?

Gene: È uma boa pergunta, honesta. Apesar do que as pessoas possam pensar, todo fio de cabelo em minha cabeça é de verdade. Aqui, olha… [ele inclina a cabeça pra frente e oferece um baita cacho para a inspeção. Apesar de estar pintado de preto graúna, as madeixas parecem surpreendentemente convincentes].

Okay.

Gene: Tem muito spray pra cabelo e tudo mais, mas olha em cima [apalpa o couro cabeludo], é tudo meu.

Certo…

Gene: No frigir dos ovos, quem é que se importa: eu tenho um cabelo engraçado e um rosto bonito. Mas, tendo dito isso, o que o KISS faz é muito diferente das coisas grandiosas que o U2 e os Stones fazem. Nós não podemos subir ao palco de tênis e camiseta. Eu amo o Iron Maiden, e deve ser demais ser daquela banda – eles correm um pouco, mas nem transpiram. Estar no KISS é trabalho de quebrar o lombo. Mesmo em cima de saltos de 20 centímetros, com vinte quilos de armadura, você sua até pelo saco; em torno de você há bolas de fogo. Paul voa pelo palco, e eu cuspo fogo… no fim de cada show, estamos exaustos. Por quanto mais tempo podemos continuar fazendo isso? Francamente, acho incrível que tenhamos conseguido por quarenta anos. Mas, fisicamente, estamos em excelente forma. Ainda temos cabelo em nossas cabeças, e infelizmente, alguns de nós em nossas costas, bundas e dentes também. Na minha idade, ele cresce por toda parte.

Você não consegue ver o KISS durando tanto quanto os Stones?

Gene: Não. Mick e Keith tem 70 anos de idade [Richards faz 70 em Dezembro; Simmons tem 64]. O nosso show é fisicamente exigente. Eu não quero fazer um show sem espetáculo de novo [a banda ficou sem maquilagem de 1983 a 1996], então é isso que rola até onde possamos prever o futuro.

A por assim dizer próxima geração do KISS já foi discutida em entrevistas. Isso é apenas fruto do ego de alguém, ou isso poderia de fato acontecer?

Gene: Eu digo: por que não? É possível.

Tudo bem ficar aqui e verbalizar, mas como você viabilizaria isso?

Gene: Ah, ouça. Todo mundo no KISS é substituível. Meu ego dirá a você que eu não sou, mas não é assim. Paul também é substituível, como todo mundo. Nós amamos Ace e Peter, mas eles não estão aqui, e eu não vi nenhuma placa sendo levantada pelos fãs perguntando onde eles estão. Você vai assistir aos Stones e ninguém pergunta: "Cadê o Brian Jones?" À medida que o tempo passa, as regras mudam. Por que não escolher quatro pessoas do nada que mereçam usar a coroa – apesar de eles provavelmente teriam que manter seu anonimato.

Isso seria o máximo na extensão de uma marca de banda?

Gene: Essa é uma avaliação de negócios, e você está certo nisso. Mas para os fãs que vem e se sentam nos assentos, seria emotivo e real. Somos uma empresa, mas também somos um império; há casas de café e campos de golfe do KISS. Mas no fim do dia, você tem que ter músicas que as pessoas gostem, e você deve acreditar no que você está fazendo. O KISS faz as duas coisas e é por isso que somos os campeões.

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Sobre Nacho Belgrande

Nacho Belgrande foi desde 2004 um dos colaboradores mais lidos do Whiplash.Net. Faleceu no dia 2 de novembro de 2016, vítima de um infarte fulminante. Era extremamente reservado e poucos o conheciam pessoalmente. Estes poucos invariavelmente comentam o quanto era uma pessoa encantadora, ao contrário da persona irascível que encarnou na Internet para irritar tantos mas divertir tantos mais. Por este motivo muitos nunca acreditarão em sua morte. Ele ficaria feliz em saber que até sua morte foi motivo de discórdia e teorias conspiratórias. Mandou bem até o final, Nacho! Valeu! :-)

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