Metal em Angola, África: Metal Ground on the Road
Por Natália Ribeiro
Fonte: Metal Ground
Postado em 28 de novembro de 2014
Esta resenha sobre o Festival Rock Huambo 2014, realizado na província de Huambo (Angola), nos dias 20 e 21 de setembro, começa com a passagem simbólica abaixo. Este diálogo ocorreu no momento de passar pela imigração, no Aeroporto Internacional 4 de fevereiro, na capital de Angola, Luanda. Já passava das cinco da manhã do dia 17 de setembro…
Policial: Bom dia, mocinha!
Eu: Bom dia, tio!
Policial: Primeira vez em Angola? Qual seu período de estadia?
Eu: Sim… Meu retorno é dia 23.
Policial: Qual sua idade e profissão?
Eu: Tenho 29 anos, e sou ‘pesquisadora’.
Policial: Hmmm, pesquisa o quê, mocinha?
Eu: Cenas Musicais… :D
Policial: Olha, interessante! Veio pesquisar kuduro ou semba?
Eu: Não, tio. Pesquiso sobre metal e rock.
[Esse é o momento em que o policial para, esfrega os olhos, e me analisa de uma forma estranha].
Policial: Você vem do Rio de Fevereiro para pesquisar sobre rock em Angola?! Querida, não tem isso aqui. Você veio para o lugar errado…
[É, neste momento, em que solto uma gargalhada satânica].
Policial: Você tem de ir pros Estados Unidos ou para a Europa. Aqui não tem isso. Se você me falasse que veio pesquisar kuduro, eu acreditaria.
Eu: Tem rock aqui sim, tio. Errhh, tem rock aqui sim, senhor.
[É, neste segundo, em que já começo a me preparar psicologicamente para ter minha entrada negada em Angola. Prato cheio para meus amigos me trollarem].
Policial: Ei, mocinha, quem te convidou para vir ao país?
Eu: Sonia Ferreira, da ONG Okutiuka.
Policial: Hmmm… Sabes aonde vai ficar? Alguém vem te buscar?
Eu: Sim, sim. :D
Policial: Tudo bem, então. Vais entrar pelo sorriso.
Boa sorte na sua pesquisa. Espero que você encontre o que está procurando.
Bem-vinda a Angola.
Após este momento simbólico, caiu a ficha de que o rock e [e seus subgêneros] é BASTANTE marginalizado por lá. Mesmo com a divulgação da cena musical com o documentário Death Metal Angola (2012), do Jeremy Xido…
FASE 2: MISSÃO HUAMBO
O primeiro dia desta quarta edição do ORLEI aconteceria no sábado, 20. Catorze bandas [de províncias diferentes] tocariam na programação: Afogados; Before Crush; B-Side; Dor Fantasma; Hiflow; Jam Huambo; Kizua Gourgel; Lunna; M’Vula; Paralelo State; Singra; Still Rolling With The Times; Vodka; Zé Beato. Quem animou o evento foi o DJ Manel Kavalera, que produz eventos dedicados ao metal em Luanda, no King’s Club. O festival teve a apresentação do radialista AntonioVideira, mais conhecido como O Toke É Esse, para não quebrar a tradição de edições anteriores. Contudo, a programação deste primeiro dia foi prejudicada pela falta de luz no Pavilhão Osvaldo Serra, o que atrasou a montagem do palco e dos equipamentos. Já passavam das 20h, e não havia muito que ser feito sem energia elétrica. Quando as coisas começaram a andar, e os equipamentos foram testados, dando a entender que as bandas poderiam começar a tocar, veio a chuva…Eu só via os membros correndo para proteger os equipamentos.
Em determinado momento, comecei a linkar as dificuldades das produções underground do Brasil e de Angola… E como o gênero tem sua continuidade em torno do circuito fora do mainstream e de pessoas engajadas no circuito musical. Porém, já nos quarenta e cinco do segundo tempo, a banda M’Vula decidiu tocar debaixo de chuva, levando choques… Nada mais literal para uma banda que acabara de lançar um EP chamado Tempestade. Lil Jorge e M.G. (vocais), Paulo Albuquerque (guitarra), Red Zimba (baixo), Félix Bateria (bateria) foram os únicos a tocar no sábado.
No segundo dia, a equipe técnica já estava a todo o vapor. O evento começou por volta das 19h, e teve atrações para todos os gostos. Dividimos os registros em duas partes: a primeira apresenta os grupos com sonoridades mais pesadas; e a segunda com os grupos que demonstraram fusões e/ou outros subgêneros do rock.
Peso
O power trio de Benguela, Dor Fantasma, apresenta o thrash metal angolano com elementos nacionais nas composições, inclusive com letras em dialetos locais. Pagia (vocais/baixo), Jayro Cardoso (guitarras) e Gildo Lancelot (bateria) lançarão outro EP [o primeiro possuía quatro] com oito músicas, cujas letras também transitam entre o português e o inglês. O trio chegou a lançar a canção System, na coletânea You Failed…Now We Rule, da Cube Records. Formado em 2008, a banda possui em seu repertório as canções Tchingandji; A inocência do assassino; Vision of Suicide e Fantasmo Thrash Metal. Foi, nesta apresentação, que fui engolida por um mosh e arrebentei meu ombro direito, como vocês observaram no vídeo acima.
Na sequência, temos a entrevista do baterista Cláudio Henriques, da banda Singra. Além de Cláudio, o Singra é composto por Nuno Alves (vocais); Denilson Marino e Hernâni Silva (guitarras); Fábio Ascenso (baixo) e Yannick Merino (percussão). Formada em 2008, era uma das bandas programadas para tocar no sábado. Eles lançaram em 2013, EP "Eu contra o mundo", e realizam várias fusões com o metal em suas canções. Para ilustrar o som dos caras, colocamos um trecho do clipe " Trevas sobre horas vazias" neste minidocumentário. E, ah, o EP está disponível para download gratuito.
O grupo de Benguela, Vodka, foi outra formação que trouxe o caos para o mosh pit. Meninos e meninas fazendo stage dive, moshs, subindo ao palco para banguear com os integrantes. Foi bonito de se ver. O grupo também está em fase de composição e, até o momento, possuem três canções: Mentira, Heróis e Imerso nas profundezas obscuras. Temos na formação: Carlos Alberto e Romano Alexandria (vocais); Amilcar Gonçalves (guitarras) e o Nick Costa (bateria).
Com o hino ‘A Bruxa’, o Before Crush tem animado os moshs pits angolanos, desde 2007 . Na formação atual estão os meninos do Lobito: Queirós Ladino Cumpanhe (vocais); Costinha (guitarra); Alex Portela (baixo) e Nick (bateria). [Não. Você não está louco. O Nick e o Costinha tocam em outras bandas. O primeiro, em três (Before Crush; Vodka; Still Rolling With Times), o segundo, toca com o Zé Beato também]. O grupo possui um EP, Ídolos Ancorados (2010), e dois clipes da faixa "A bruxa" e "A grande conquista" (2011). No momento, a banda tem no repertório 13 canções. O Queirós também atua como produtor e sócio no selo Cube Records, em parceria com Carlos Bessa. O selo lançou a coletânea You Failed…Now we rule, em 2013, com cinco bandas [Before Crush; Fiona; Dor Fantasma; Horde of Silence; Eternal Return]. O BC tocou no MetalZone Fest, em Bayreuth (Alemanha), em outubro de 2013, representando a sonoridade angolana na Europa.
Fusões
Já a parte 2 de nossa resenha-documentário apresenta os grupos que usam fusões em suas composições, e transitam entre subgêneros do rock.
Zé Beato e Os Desempregados trouxeram outra ‘vibe’ para o festival. O músico lançou o álbum independente Cru, com onze canções que passam pelo reggae e rock. Este show contou com Anderson Gavião Duarte (baixo; guitarras), Costinha Cassoma (guitarras) e O Toke É esse (bateria). Aliás, Yvanov Guardado, o vocalista, em parceria com Wilker Flores (Still Rolling With The Times) foi um dos criadores do Festival Rock de Stock, em 2009. Este se transformaria, em 2011, no ORLEI – O Rock Lalimwe Eteke Ifa, sob a tutela de Sonia Ferreira, Wilker Flores e pela Associação Angolana de Rock.
Os meninos de Huíla, Lunna, representaram a nova geração do rock em Angola. Formada em 2010, a banda tem Cássio Rodrigues "Kcage Kássio" (vocais), Frederico Maurício "The Punisher" (percussão; backing vocal); Paulo Borges "Magic Fingers" (bateria); Rodney Francisco ‘Fingo’ (baixo) e Yllialdo Alves (guitarra). Com 10 canções em seu repertório, os meninos estão correndo atrás para gravar um EP. Logo depois, outro grupo desta nova geração, Paralelo State, de Huambo, animou o público com seu rock alternativo. João Alberto (vocalista), Cassio Rodrigues (guitarrista), Alcides Claudio (bateria) e Agustinho Cussandoca (baixista) completaram quatro anos de formação, este ano, e possuem onze composições.
Em nosso registro também consta o músico angolano Kizua Gourgel, um veterano da cena musical, e bastante popular em Angola. Ele está em fase de lançamento do álbum Kizuísmo, com doze canções, e lançou o vídeo da música Sentinela no início do ano. O festival é bem eclético e abarca artistas que vão do blues, passando pelo reggae, ao metalcore. Caso da apresentação do grupo Still Rolling With the Times, com uma pegada blues-based rock. A banda, formada há quatro meses,é composta por Angela Ferreira (vocais), Wilker Flores (baixo), Oddon (gaita; harmônica; castanholas e violão) e Nick Costa (bateria). Este show teve a participação do guitarrista Bona Sky (banda Instinto Primário).
Antes do encerramento do festival, eu já estava perdida no meio de tantas informações. Como meu retorno para o Rio já estava bem próximo, a imagem do tio da Imigração não saía da minha cabeça. Ainda tinha a esperança de reencontrá-lo, e mostrar os vídeos para ele falando que, mesmo na correria, eu encontrei o que estava procurando…E o que não estava procurando também…
Tem rock/metal em Angola, sim, tio.
Agradecimentos:
Minha aventura em Angola não teria acontecido sem a ajuda de: a) Minha mamãe, Denilza, por todo o suporte e pensamentos positivos; b) Sonia Ferreira (ONG Okutiuka), e Antonio Videira (rádio LAC), mais conhecido como O Toke É Esse, os quais negociaram todo o drama do meu visto para entrada no país rs. E, por terem acreditado na pesquisa dessa bolsista da UFF, pela hospitalidade e pelo carinho dados na minha passagem-relâmpago; c) Minha orientadora, Simone Pereira de Sá, e o professor Marco Roxo (PPGCOM-UFF), pelo apoio em todos os sentidos.
Também queria agradecer aos integrantes das bandas e da cena, que consegui entrevistar nesta primeira fase.Mas, principalmente por terem compartilhado – na correria – suas visões de mundo, e aguentado minha chuva de perguntas o tempo todo: Anderson Gavião; Cláudio Henriques; Costinha Cassoma; Gildo Lancelot; Jayro Cardoso; Manel Kavalera; Queirós Ladino; Pagia; Wilker Flores; Wilson Pipas; Yuri Almeida; Yvanov Guardado.
Um alô para o Tuchometal e o Tiago pelas conversas relâmpago nos bastidores. Outro alô para os integrantes das bandas que não consegui entrevistar, mas que enchi a paciência via redes sociais para completar a resenha: Angela Ferreira; Bona Sky; Jhonny Adalberto; Nick Costa; Rodney Francisco; Paulo Fernandes.
Keep moshing! In Angola! In Brazil! Everywhere!
Por: Melina Santos, Editora canal Metal Ground
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