Farmhouse Odyssey: beleza sônica em dois álbuns excelentes
Por Roberto Rillo Bíscaro
Postado em 21 de fevereiro de 2016
No outono de 2012, universitários formaram o Farmhouse Odissey, cujo nome advém do fato de a criação ter sido numa casa de fazenda no interior californiano. A julgar pela dupla de álbuns lançados, odisseia também se aplica como luva às viagens sônicas dos arranjos complexos desse quinteto que junta tantos estilos e beleza que fica mais fácil defini-los como um grupo de prog sinfônico.
Em maio do ano passado, saiu o début homônimo; meia dúzia de canções prenhes de momentos memoráveis e do clima improvisacional provavelmente inspirado pelas jams de jazz. So It Would Seem é o primeiro passo da jornada. 13 minutos que abrem com instrumental luxuoso, nostálgico, cheio de fraseados memoráveis e melancólicos e antes de tornar-se mais pesada há segmento de psicodelia Krautrock early 70’s, com ruídos de máquina de escrever e afins.
Dante transiciona de leveza de voz fina de indie rock e teclado pimpão para mais peso guitarreiro, mas nunca chega a heavy metal, pra mudar prum clima que poderá agradar até a fãs de MPB mineira anos 70. Farmhouse Odissey é progressivo pela extrema fluidez das canções, rigorosamente executadas, mas cheias de nuanças, detalhes, variações. Ora a guitarra é suave, ora incandesce, como em Sleeping Silent. Ora o teclado é eclesiástico sci fi como o de Tony Banks fase Foxtrot, basta conferir Cross the Deep, que ademais tem cozinha levemente funkeada e evolui pra eventual peso. Colossal Cypress (que abre meio Gentle Giant) e A Moment to Take emendam-se pra fechar o álbum com as melodias vocais mais marcantes da odisseia. Ouvir Farmhouse Odissey é um momento que se leva por muito tempo. Você pode também; o trabalho está completo no Bandcamp:
https://farmhouseodyssey.bandcamp.com/album/farmhouse-odyssey-2
Dia 5 da janeiro do corrente, Rise of the Waterfowl foi disponibilizado no Bandcamp (link abaixo). O álbum é menos sinfônico no sentido de ter menos teclados setentistas e abraçar ritmos e tonalidades de prog eclético, jazz-rock, Canterbury ou um estilo que tenho chamado de indie prog, devido à junção com maneirismos de indie rock.
As 9 faixas representam o transcurso de um dia, porque o álbum abre com Daybreak, que nasce mansa como dia, vira samba funkeado pra se metamorfosear em virtuosismo de teclado psych prog e fecha com a tecladisticamente linda e curta From the Night Sky.
Space Revelead é instrumental que flerta novamente com o samba, mas também jazz e dá espaço para cada instrumentista brilhar. O filé de Rise of the Waterfowl deveria ser a longa suíte de nome comprido com mais de 15 minutos, mas Speedbump Catalyst: Upon the Wheel, Blessing in Disguise, Energetic Tides, The Road Alone soa um tanto anticlimática. A despeito de lindas passagens ao piano, há segmentos em que a melodia é conduzida quase exclusivamente pelo vocal, a instrumentação falhando em prover-lhe complementação ou acompanhamento a altura.
Esse segundo álbum mostra que o Farmhouse Odissey está buscando sonoridades novas para seu receituário. Pode não ser tão lindo como a estreia, mas convém ouvi-lo, porque é bom demais da conta de bem executado e cheio de ideias.
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