Marty Friedman: Como é a vida de um rockstar americano no Japão?

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Por Tiago Dantas da Rocha, Fonte: BlabberMouth, Tradução
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No dia 15 de outubro, o guitarrista Marty Friedman (Ex-MEGADETH, Ex-CACOPHONY) que se mudou da América para Tóquio em 2003, participou de uma sessão pública de perguntas e respostas "Pergunte ao Marty: Uma visão do Japão através dos olhos de um rockstar americano", na Fundação Japonesa em Los Angeles. Segue a tradução de alguns trechos.

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Se o fato de ser um músico acabou ajudando a aprender japonês:

Marty: "Eu nunca pensei nisso até que muitas pessoas no Japão começaram a me falar isso. Eles diziam, 'Caramba, seu japonês é muito bom. Deve ser porque você é um músico.' No começo a minha reação era tipo, 'Nada a ver, é porque eu realmente estudei e me esforcei muito. Não tem relação com o fato que sou um músico'. Mas aí, pensando melhor tem muito a ver que eu seja um músico, porque quando você toca uma música o que acaba sendo mais usado são os ouvidos. Não são as mãos nem nada do tipo. Quando você aprende um novo idioma, acaba tendo que usar seus ouvidos constantemente... eles ficam muito, muito sintonizados com o que as pessoas estão falando. Quando se está tocando com outros músicos, você é forçado a ouvir os outros músicos, a reagir com o que você vai tocar, especialmente alguém como eu que adora improvisar. Eu estou ouvindo dentro de um contexto e adiciono meu toque particular, então é um processo bem similar ao de aprender japonês."

Se existe algum paralelo entre a prática do japonês e como ele praticava na guitarra:

Marty: "Eu nunca penso em termos de exercícios, seja no aprendizado do idioma ou na música. Eu penso como eventos. Você participa de um evento, que no final irá te aperfeiçoar. O maior evento que já participei foi quando entrei num torneio de conversação de japonês na Universidade do Estado do Arizona. Eu não precisava fazer aquilo, até porque eu nem era um estudante, mas eu sabia que se participasse daquele torneio, iria me forçar primeiramente a escrever um discurso gigantesco para depois memorizar tudo aquilo para no final ter que falar em frente a toda universidade. Fazer algo assim, exige uma quantidade absurda de aprendizado e prática. Você precisa seguir todos esses passos que normalmente não faria caso aquele evento não existisse."

Sobre o fato de ser o primeiro estrangeiro nomeado pelo governo japonês como embaixador do patrimônio do Japão:

Marty: "Não é o tipo de trabalho de embaixador aonde terei que fazer algo do tipo apertar um botão nuclear. O que o patrimônio do Japão se trata é que existem tipo 39 pontos de interesse no Japão, digamos assim. Todas as cidades tem interesse em ser listadas como um ponto de interesse do patrimônio do Japão. Eu fico muito lisonjeado por fazer parte disso. Basicamente, o que eles me pedem para fazer é o que eu já estava fazendo mesmo que é ir para outros países e conversar com pessoas que têm interesse pelo Japão. Acho que o governo do Japão ficou sabendo que eu já fazia isso e gostaram, ou talvez alguma das muitas coisas que faço no Japão. O que espero conseguir com isso é alcançar pessoas que tenham alguma curiosidade pelo Japão. Quantos americanos vão acreditar num japonês falando sobre o seu próprio país, mesmo que no final ele diga algo com mais conteúdo do que eu poderia dizer? De certo modo, estrangeiros vão se identificar mais com a opinião de outro estrangeiro quando eles estiverem explicando algo por causa do ponto de vista em comum."

Qual conselho ele daria para americanos que estão planejando visitar o Japão:

Marty: "Os japoneses são muito curiosos em relação a estrangeiros que residem no país. Eu gostaria que os americanos também fossem curiosos sobre outros países. Temos tantas culturas fantásticas vivendo junto na América e não parece que os americanos tenham interesse em outras culturas como os japoneses tem... Não se preocupe com coisas do tipo, 'Eita, esqueci de me curvar' ou 'Eu apertei a mão dele quando não deveria ter feito isso'. Não se preocupe com esse tipo de coisa que você lê em livros para turistas. Apenas seja uma pessoa bacana e você representará bem o seu país."

Qual ele acredita ser a maior diferença entre americanos e japoneses:

Marty: "O que vou falar é uma regra geral. No Japão, existe um consenso geral que é de nunca criar problema para os outros e manter a paz. Sempre coloque o outro em primeiro lugar. Na América tudo se trata do "eu", como posso me destacar e como posso ser o melhor? Nenhuma dessas duas mentalidades é nociva e essa ideia do "eu" é ótima para pessoas que passam por várias dificuldades para criar coisas fantásticas, então não estou dizendo que isso de fato seja algo ruim. No Japão é que isso é meio que desaprovado. O prego que se destaca acaba levando uma martelada. Na América somos levados a acreditar que 'Você é o número um'. 'Você pode fazer o que quiser'. No Japão é uma mentalidade coletiva. Ambas as ideias são ótimas. Tentar viver com algo que você não gosta é que é ruim. O que eu me identifico na cultura japonesa é que quando você está com um grupo de pessoas que são ótimas naquilo que você faz e você se dá bem, você acaba por celebrar com um grupo de pessoas e essa celebração em grupo é muito mais agradável. É meio solitário quando você comemora algo que fez sozinho. Eu percebo que se tem alguém com quem eu possa compartilhar o meu sucesso é um tipo de pensamento muito característico do Japão, o qual me agrada demais. Por outro lado, se não tivesse crescido na América não teria percebido que se estou trabalhando com alguém que está me atrasando eu não quero estar nesse grupo, quero fazer outras coisas. Isso seria algo desaprovado no Japão e eu não poderia ter me desenvolvido. Tem sido muito benéfico para mim poder ter sido parte de ambas as culturas.

Por que ele se considera feliz por não ter crescido no Japão:

Marty: "Eu tive sorte porque me mudei para o Japão depois de adulto. Acho que teria morrido se tivesse sido uma criança aqui, porque o sistema escolar japonês é outro nível, tipo é uma parada real mesmo... As crianças no Japão, elas ralam de verdade. Eu lembro que nos meus dias de escola foi uma tranquilidade. Eu raramente estudava e ainda assim passava de ano. Eu faltava aula a maior parte do tempo para praticar guitarra. Acredito que isso seria algo muito desaprovado no Japão. Outra coisa que também percebi no Japão é que na América somente os fracassados tocavam algum instrumento, aqueles com cabelos compridos, meio que os isolados. No Japão você tem os caras que estão no time de esportes, caras bonitões que fazem música e vão para a escola. Na América você tem de um lado aquele cara nerd estilo escolar e do outro lado um tipo Kurt Cobain. Eles não se misturam. Se você for para o Japão você conhece alguns desses músicos, e eles frequentaram a escola numa boa e não tem essa nossa atitude rock 'n' roll que temos, coisas do tipo faltar aula e ficar jogando aviõezinhos de papel na sala, coisas assim. O incentivo principal para tocar música, pelo menos para mim, era unicamente para pegar garotas. Quando eu explico isso para o pessoal aqui no Japão eles não entendem, porque eles já pegavam as garotas. Eles estavam indo bem na escola, tinham boa aparência e eram bons nos esportes. É uma atmosfera diferente."

Se os pais japoneses encorajam seus filhos a correrem atrás de uma carreira na música:

Marty: "Eu não conheço muitas pessoas que realmente esperam que seus filhos entrem na indústria da música, e isso vale para todos os países."

Se ele já se sentiu "excluído" por não ser um cidadão japonês nativo:

Marty: "Eu acredito que muitos estrangeiros ficam preocupados se serão aceitos quando se mudam para outro país, ou até mesmo quando estão apenas visitando. Eles se preocupam em serem aceitos naquele país, e o que posso dizer para essas pessoas é que pertencer e ser aceito não devem ser considerados fatores assim tão importantes. O mundo nunca será um lugar igualitário no qual todas as pessoas são iguais e todos vivem em plena harmonia. Nunca será assim e é desse jeito que deve ser. Viva as diferenças. Todas as diferenças são interessantes. Se todos fossem iguais, ninguém teria interesse em visitar o Japão, ou qualquer outro país, nesse aspecto."

Sobre quais as suas coisas favoritas, não relacionadas a música, sobre viver no Japão:

Marty: "A comida. A paz de todos os dias. Mesmo aqui sendo uma cidade grande, tipo Nova York sob esteroides, é um lugar seguro. Eu nunca precisei me preocupar com a minha segurança aqui. Eu já estive em tudo que é canto no mundo e acredito que aqui é o país mais seguro do mundo, e olha que eu moro no centro da cidade, praticamente em Kabukichō, um distrito voltado para o entretenimento na vida noturna. Se de repente eu acordo 4 da manhã querendo comer alguma coisa, eu posso tranquilamente sair de casa e ir comprar algo, sem problema algum. Nunca preciso me preocupar sobre segurança ou quem vem andando atrás de mim, nada do tipo. Claro, coisas perigosas podem te acontecer em qualquer país se você não tiver o mínimo de bom senso, mas no geral não existe a necessidade de se preocupar com a segurança. Quando se acostuma com isso... não tem como não gostar."

O 14º álbum solo de Marty Friedman, "One Bad M.F. Live!!", foi lançado em 19 de outubro. O álbum foi gravado na Cidade do México em 14 de abril durante o último show da turnê mundial de Friedman durante a turnê do seu álbum "Wall of Sound", lançado em 2017 e que entrou em 12º lugar na Billboard.

No álbum "One Bad M.F. Live!!" se juntaram a Friedman os músicos Kiyoshi no baixo, Jordam Ziff (RATT) na guitarra e Chargeeee na bateria.




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