Como funcionava a divisão de direitos autorais no Angra e Shaman, segundo Luis Mariutti
Por Gustavo Maiato
Postado em 10 de fevereiro de 2022
Questões relacionadas aos direitos autorais de músicas e como se dá essa divisão dos rendimentos costumam ser alvo de discussão entre bandas. No caso da fase "Andre Matos" do Angra e também no caso do Shaman, a visão entre os integrantes não costumava privilegiar quem apenas deu alguma opinião sobre as músicas.
Em entrevista ao Ibagenscast, o baixista Luis Mariutti, que atuou em ambas as bandas, explicou que essa mentalidade de não ligar muito para os direitos autorais, ainda que tenha contribuído de alguma forma com alguma canção, acontecia porque ele entendia que a banda estava no auge e não havia problema relacionado ao dinheiro.
"O jeito que penso hoje em dia é diferente. Na época, eu pensava o seguinte: ‘Estou numa banda de sucesso. Não via sentido brigar por uma parte que eu fiz na música’. Nós estávamos ganhando disco de ouro. Penso que quando você junta cinco pessoas para compor, como foi no caso do ‘Angels Cry’ e ‘Holy Land’, nós íamos todos os dias ao estúdio, frequentávamos os ensaios, dávamos opinião... Você pode não ter sido o compositor, mas estava lá participando. Falando tipo ‘Dobra isso aqui. Bota essa nota’. A partir do momento que estão os cinco ali, as ideias só nascem porque estão os cinco ali. Elas só evoluem porque os cinco estão dando opinião. Senão, ficava lá na minha casa e dizia para quando estivesse tudo pronto me mandarem que eu aprendia as músicas", refletiu,
Em outro ponto, Luis Mariutti relembra que no caso do ‘Holy Land’ foram 3 meses de composição com a banda toda reunida, mas isso não foi refletido nos créditos de composição.
"No ‘Holy Land’, fomos para um sítio por 3 meses! Eu não fiquei só no meu quarto e do nada eles chegavam com as músicas e diziam: ‘Luis, aprende essa aqui’. Senão eu ia para casa! Tiveram muitas ideias que começaram do Ricardo Confessori ou de mim. Essa ideia era desenvolvida e geralmente não tinha créditos para mim ou para ele, por exemplo", explicou.
Já hoje em dia, o baixista afirma que pensa diferente e que é possível dividir a autoria de forma que o compositor principal ganhe mais, mas os outros compositores não fiquem totalmente excluídos.
"Hoje em dia, penso que você pode dividir financeiramente uma música de maneira que o cara que fez mais vai ganhar um pouco mais. Mas a partir do momento que cinco pessoas estão no estúdio e as cinco estão dando opinião sobre a mesma música, a música está nascendo, então os cinco precisam estar ali nos créditos. Passei um período muito ruim e hoje em dia, como tenho meus filhos, vejo como um legado. Isso rende financeiramente. Na época, não pensava assim. Só pensava que estava no auge. Eu estaria sempre ganhando bem, não precisaria brigar por merda, mas não é todo mundo que pensa assim. Isso eu falo no meu livro. A culpa de não ter me imposto foi minha. Não fiz reconhecer minha parte. Não posso reclamar disso. Já foi, mas hoje em dia eu faço diferente. Geralmente, o que eu fazia era essas dicas de ‘Toca duas vezes, faz assim’. O Andre Matos em uma entrevista disse que sempre tinha que perguntar as coisas para mim antes de terminar. Era assim. Muitas vezes vinham me perguntar. No próprio Shaman, isso aconteceu. Também não ligava para as coisas que eu idealizava. Na ‘Born To Be’, por exemplo, era um final de ensaio e o Andre estava tocando aquele tema no piano aleatoriamente. Todo mundo já tinha ido embora. Eu parei, ouvi aquilo e disse: ‘Andre, esse é o refrão da música, que está faltando’. Ele olhou com o olho arregalado! Eu estava fazendo a música acontecer. Se eu não tivesse entrado ali e falado que aquilo era o refrão, tinha passado batido. Ela não seria a ‘Born To Be’. Hoje, sei do valor que tenho ido lá e participando dos ensaios, dando opinião, trocando nota etc. Então o nome de todos precisa estar na música. O quanto você vai receber, é discutível depois", concluiu.
Assista ao episódio completo abaixo.
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