No país com gás a 120 reais, ingresso para festival de música é mais que luxo, é utopia
Por Mateus Ribeiro
Postado em 13 de abril de 2022
Há alguns dias, o internauta brasileiro presenciou mais um daqueles debates infrutíferos e acalorados que as redes sociais nos proporcionam. Tudo começou quando os ingressos para o "Dia do Metal" do festival Rock In Rio não se esgotaram imediatamente. Em contrapartida, as entradas para o show do astro pop Justin Bieber foram vendidas em 12 minutos.
O que se viu a partir dos fatos acima mencionados foi aquele festival de opiniões (nem sempre sensatas) que torna o Twitter um lugar insuportável. Como se esgotar milhares de ingressos para um evento fosse uma obrigação, o "fracasso" do "Dia do Metal" virou assunto até mesmo em redações de grandes portais, sendo que um deles decretou a "decadência do rock de tiozão".
Antes de emitir qualquer opinião mais apressada e emocionada, ou de cravar que o metal já tombou na valeta, é necessário analisar alguns fatores com frieza. O principal desses fatores é o financeiro.
Talvez o jovem usuário da Internet não saiba disso, mas dinheiro não dá em árvore. Em um país onde o botijão de gás custa 120 reais e um quilo de tomate não sai por menos que 10 contos, ingresso para festival de música é muito mais do que luxo, é utopia. Não, eu não quero que o festival abaixe os preços, pois mesmo que quisesse, não tenho esse poder. A organização tem o direito de cobrar quanto quiser. E o consumidor tem o direito de achar caro ou barato.
Por mais que o headbanger ame Bruce Dickinson, James LaBrie ou o furão Dave Mustaine, colocar comida na mesa da família é a prioridade na vida de uma pessoa que tenha o mínimo de consciência. Sim, este redator sabe que o planejamento financeiro poderia ajudar, mas fica meio complicado traçar planos com produtos essenciais subindo semana sim, semana também.
Como qualquer pessoa que já foi em um show ou festival sabe, os custos não morrem apenas no ingresso. Uma garrafa de água, um lanche, um refrigerante ou uma cerveja não costumam ser baratos nesses eventos. Imagine só a grana que não vai em seis, sete horas de evento. Ir até um evento do porte do Rock In Rio exige uma boa grana guardada. Para quem mora em outro estado, a conta fica muito mais alta.
Pois bem, aqui entra outro fator que deve ser analisado: a escolha das bandas. Cada um gosta e assiste o que bem entender, mas todas as bandas escaladas para o "Dia do Metal" se apresentam no Brasil com certa frequência. O Iron Maiden mesmo está indo para a sua quinta apresentação no festival, a terceira em nove anos. O Dream Theater, que faz sua estreia no festival, sempre que pode dá as caras por aqui, mesmo caso do Megadeth, que até a última terça-feira (12), era uma das atrações confirmadas.
Não quero dizer que bandas clássicas não mereçam atenção. Mas existem milhares de bandas "menores" por aí que talvez chamassem a atenção dos fãs de música pesada caso fossem escaladas. Gojira, Machine Head, Trivium, Five Finger Death Punch, Kreator, In Flames, Exodus, Arch Enemy e Nightwish são alguns dos nomes (da "nova" e da velha guarda) que poderiam tornar o cast mais interessante e menos repetitivo.
Pagar para ver sempre as mesmas bandas não parece algo muito atrativo, principalmente para quem não tem dinheiro sobrando. Talvez, uma escalação "mais humilde" (e tão competente quanto os galácticos do metal) tornasse a experiência mais interessante para o(a) headbanger que trabalha muito para (sobre)viver.
No final das contas, os ingressos para o "Dia do Metal" se esgotaram, apesar de todos os chiliques. Os fãs de metal levaram um pouco mais que 12 minutos para esgotarem os ingressos, é verdade. Resta saber se com quarenta anos de carreira, Justin Bieber (ou qualquer astro pop escalado para o Rock In Rio) ainda vai ter seguidores comprando seus discos e lotando seus shows. Eu duvido.
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