A fundamental importância de Toni Garrido na vida de Marcelo Barbosa, segundo o próprio
Por Gustavo Maiato
Postado em 15 de agosto de 2023
Toni Garrido, do Cidade Negra, participou da gravação do DVD acústico do Angra. Em post no seu Instagram, o guitarrista Marcelo Barbosa comentou como foi encontrar o ídolo, responsável por mostrar para ele que pessoas da cor negra e de origem humilde podem sim obter sucesso.
Sobre representatividade. Lembro de em 1999, quando frequentava assiduamente os cinemas de Brasília, assistir ao filme ‘Orfeu’, estrelado por Toni Garrido. Já conhecia o seu trabalho com o Cidade Negra, mas foi ali que o vi como ator. Adorei o filme, mas teve algo ainda mais importante do que o filme em si. Lembro-me de passar o filme todo feliz de ver um negro naquele papel, e de ver a admiração de todos que estavam ali (em especial as mulheres).
Àquela época, eu tinha 23 anos, e o Toni 32 (se não me engano). Eu recém-chegado à fase adulta, um garoto sonhador. Ele já um homem formado e reconhecido. Ter clareza sobre quem ele era e como era visto me deixou com uma sensação gostosa de esperança. Me mostrou (junto a alguns outros poucos exemplos) que é possível sim ser negro, não nascer em família rica e ter sucesso com arte nesse país.
Ontem foi uma noite especial e o Toni a abrilhantou com o seu carisma e talento. Pude depois do show contar a ele sobre a importância do trabalho dele para mim e para toda a comunidade. Foi especial e importante verbalizar isso pra ele. Muitas vezes, os exemplos tornam imaginável o que nem ousamos imaginar. Deixo aqui a minha gratidão em forma de mensagem. Muito obrigado @tonigarridooficial", disse.
Marcelo Barbosa, racismo e representatividade
Em outra ocasião, em entrevista ao Ibagenscast, Marcelo Barbosa voltou a tocar na questão racial.
"Eu acredito que o racismo existe até onde achamos que não existe. Por exemplo, quando alguém fala: ‘não sou racista, tenho até um amigo preto’. Isso já é uma fala racista. A pessoa nem sabe! Outro dia, recebi um vídeo do Ministro do STF elogiando um cara e dizendo que ele era um ‘negro de primeira linha’, porque tinha se formado na França. Como se o negro já não fosse de primeira linha. No caso desse, aí sim.
Essas falas são permeadas pelo racismo estrutural. Particularmente, eu não vivi situações claras de racismo, mas no Brasil isso é um problema, porque é um racismo velado. As pessoas não falam que são racistas. Muitas pessoas compactuam com isso sem perceber, mas algumas sabem que são racistas, mas não falam. Só falam para uma pessoa específica, em um ambiente que ela se sinta segura para falar. Em outros países como nos EUA – não que isso seja bom –, mas pelo menos você consegue combater algo que você está vendo. As pessoas não são dissimuladas. Elas falam: ‘sai daqui seu negro imundo’, e aí você pode ir lá e dar uma porrada na pessoa, ou chamar a polícia.
Mas quando falam: ‘infelizmente a vaga de emprego já está ocupada’ e na verdade é por causa da cor da pele, como você vai lidar com isso? Não tem como fazer uma acusação. Eu não sofri muito com o racismo. Em alguns momentos eu já me perguntei se algo era racismo, mas fico com medo de virar aquele cara que fala que tudo é racismo. Se não conseguir o que quer, diz que é racismo.
O que eu faço? A maior parte das pessoas que trabalham para mim são negras. Se a qualidade e o nível técnico forem os mesmos, acabo optando pelo negro porque acho que ele terá menos oportunidade. O outro já está na frente em um país como o Brasil. Se o branco for muito melhor, vou optar por ele. Não é a cor que estou avaliando.
Eu penso que manifestações são importantes, mas o mais eficiente de tudo mesmo é o negro ser foda e se tornar destaque em algo. O sucesso do outro autoriza o seu sucesso. Você vê que é possível. Olha o Joaquim Barbosa, Ministro do STF, ou o Anderson Silva. Na luta e futebol, vemos muitos negros. Penso que falta a gente divulgar mais casos de negros de sucesso, porque isso tem a ver com inspiração.
Você vê alguém que parece com você, se identifica com aquilo e você vê que é possível, dá para tentar, senão vira algo muito distante. Por um lado, fico triste, já que moro em um prédio onde basicamente só eu sou negro. Eu frequento restaurantes em que quem é da minha cor está servindo ou limpando o chão. Sei que não é só racismo, existe uma história por trás. São apenas cento e poucos anos que o negro não é escravo no Brasil".
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