O significado de "Ando Meio Desligado", do Mutantes; "composta quase na marra"
Por Bruce William
Postado em 12 de dezembro de 2024
"Ando Meio Desligado" é a música que abre o terceiro álbum do Mutantes, "A Divina Comédia ou Ando Meio Desligado", de 1970. Primeiro disco do grupo como um quinteto, composto pelo trio original formado por Arnaldo Dias Baptista nos vocais, teclados e baixo, Rita Lee nos vocais e percussão, Sérgio Dias Baptista nos vocais, guitarra e baixo, além dos novos integrantes Liminha no baixo e Dinho Leme na bateria, o álbum é considerado mais psicodélico e roqueiro que seus antecessores, que tinham uma sonoridade mais brasileira e tropicalista.
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A canção já havia sido apresentada ao vivo um ano antes, no IV Festival Internacional da Canção de 1969, e apesar de ter ficado apenas no 10º lugar na competição, ela se transformou num dos grandes hits do álbum e até da própria banda. Carlos Calado conta no livro "A Divina Comédia dos Mutantes" (Amazon) que a canção foi "composta quase na marra": "Como o prazo para as inscrições já estava se encerrando e os três não tinham nada de muito interessante na gaveta, o jeito foi inventar rapidamente alguma coisa. Tinham acabado de fumar um baseado, no quarto de Sérgio, quando ele mostrou a primeira parte de uma melodia, que logo ganhou uma linha de baixo inspirada em 'Time of the Season', hit do conjunto inglês The Zombies. Também com uma mãozinha de Arnaldo, Rita escreveu a maior parte da letra. A sensação de desligamento provocada pela maconha serviu de ponto de partida para um dos maiores sucessos dos Mutantes".
No livro "Não Vá Se Perder Por Aí: A Trajetória Dos Mutantes" (Amazon), a autora Daniela Vieira dos Santos destaca que a canção "aponta para o desbunde dos anos de 1970 e para o vínculo dos Mutantes com as drogas. A análise do texto verbal denota a sensação transcendente provocada pelas drogas: 'Ando meio desligado/ Eu nem sinto/ Os meus pés no chão/ Olho e não vejo nada/ Eu só penso se você me quer'."
Mas voltando ao livro do Calado, ele pontua que, excetuando esses primeiros versos, a música fala, na verdade, sobre amor: "Essa canção trazia a letra mais romântica que os Mutantes já haviam gravado até então (com exceção de 'A Minha Menina'), detalhe que pode ajudar a explicar a maior empatia do público. Claro que, na parte final do arranjo, o alucinado solo de guitarra de Sérgio e os vocais berrados em inglês por Arnaldo tingiam esse romantismo com uma pesada dose de rock. Mesmo assim, a canção não perdeu seu toque romântico."
O letras.mus.br cita um trecho da letra que deixa bem clara essa característica: "A repetição da frase 'Não leve a mal' sugere uma certa insegurança e vulnerabilidade do eu lírico, que se prepara para declarar seus sentimentos ('Aquilo tudo que eu decorei') e anseia por uma resposta positiva. A música transmite a ansiedade e a expectativa que antecedem a confissão amorosa, bem como o medo da rejeição. A expressão 'Não leve a mal' pode ser vista como um pedido de compreensão, caso a intensidade dos sentimentos não seja correspondida."
No fim das contas, "Ando Meio Desligado" ficou em segundo lugar entre as dezoito concorrentes e passou para a segunda fase, e o "romantismo" da letra, conforme Calado, possivelmente foi um dos elementos que ajudou a criar empatia com o público, algo que acendeu o sinal de alerta na banda no sentido de que sua música poderia estar se tornando algo "careta": "Nós estivemos muito preocupados, no último festival de São Paulo, porque 'Ando Meio Desligado' foi tão bem aceita que ficamos até com medo. Mas, em parte, é bom ver que estamos sendo bem consumidos. (...) É preciso ter um pouco de consumo. O ideal realmente é arte e consumo. Fazer arte só não é mole. Fazer consumo só não é mole. Nós sempre procuramos fazer o meio", disse Arnaldo em entrevista realizada cerca de um mês mais tarde.
Seja como for, na final da FIC, a canção acabou ficando apenas no décimo lugar. E, como não podia deixar de ser, mesmo sendo uma canção "romântica", os Mutantes deram um jeito de inserir nela uma pequena estripulia, conforme Daniela ressalta em seu livro: "Há algumas frases entoadas em inglês que não aparecem no conteúdo da letra, e mediante as distorções da guitarra a canção termina após a referência ao Brasil com a frase 'Oh meu Brazil'. Ao aclamarem ao Brasil num timbre americanizado, os Mutantes estão mais uma vez provocando os preceitos nacionalistas vigentes na música popular brasileira. Nesse sentido, a aclamação ao 'BraZil' no final, se assim podemos dizer, é mediada pelo rock e nesse ponto instaura-se a provocação do grupo aos nacionalistas. Numa mesma canção os Mutantes produzem vários códigos; porém, dados os aspectos da letra e os solos da guitarra, podemos inserir 'Ando meio desligado' como uma canção de transição do grupo ao rock progressivo."
Para finalizar, vamos retomar a interpretação do letras.mus.br para o verso "Ó, meu Brasil": "Pode ser uma referência ao sentimento de alienação em relação ao país durante um período de repressão política, ou simplesmente uma expressão de amor pelo Brasil, que se mistura ao tema central da canção. De qualquer forma, 'Ando Meio Desligado' é uma música que captura a essência da psicodelia e do amor, com uma melodia que complementa a sensação de estar flutuando em pensamentos e emoções."
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