Por que gravadora precisou controlar quantidade de Toddynho da Legião Urbana?
Por Gustavo Maiato
Postado em 14 de fevereiro de 2025
A relação entre música e bastidores sempre rendeu histórias curiosas, e o empresário musical Jorge Davidson tem algumas delas para contar. Responsável por intermediar a contratação da Legião Urbana pela gravadora EMI, Davidson revelou uma piada envolvendo Renato Russo, líder da banda, e o famoso Toddynho – que acabou virando folclore nos corredores da gravadora. A história foi contada por ele no livro "Contos do Rock".
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"Por intermédio dos Paralamas, eu vim a conhecer a Legião", relembra Davidson, explicando como teve acesso ao material da banda. "Logo depois de ouvir, liguei para Brasília para falar com o Renato, dizendo que a companhia estava interessada, que íamos contratá-los." Após as negociações iniciais, o grupo foi trazido ao Rio de Janeiro para formalizar o contrato e dar início à gravação do primeiro disco.
A equipe da gravadora instalou os integrantes – Renato Russo, Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá – em um hotel em Copacabana. Foi então que Davidson recebeu um telefonema inesperado. "Era o Renato me ligando, o jovem Renato Russo. Ele queria me agradecer, dizendo que estavam bem instalados, e perguntou: 'Têm uns Toddynhos aqui no frigobar, eu posso tomar um Toddynho?'"
A reação do empresário foi imediata: "Claro, Renato, você nem precisava me ligar por conta disso, fica à vontade. Vocês têm a alimentação coberta pela companhia, só não podem consumir bebida alcoólica, despesas extras de telefonemas e lavanderia, essas coisas. Mas o Toddynho está liberado!"
Davidson lembra com carinho do episódio: "Achei aquilo muito curioso, que menino bacana, educado. Aquilo virou um folclore ali no departamento." No entanto, o que parecia uma história inocente acabou revelando um truque engenhoso da banda – e, posteriormente, de outros artistas.
"A companhia não pagava bebidas alcoólicas", conta o empresário. "Mas descobrimos que o Toddynho e o Toblerone começaram a ser usados como 'códigos'. O hotel articulava com os artistas e maquiava as contas. Então, nas faturas, vinha escrito '15 Toddynhos', '10 Toblerones', mas, na verdade, eram uísque, cerveja, vodca."
Renato Russo e alcoolismo
Renato Russo, líder da Legião Urbana, viveu uma relação tumultuada com o álcool e outras substâncias, marcada por fases de abuso e reflexão. Ele próprio abordou o tema em entrevistas, como no programa Onze e Meia, de Jô Soares, em 1994.
"Minha dependência química era com tranquilizantes, mas todo e qualquer tipo de droga pode ser uma dependência", disse na época. Renato também relatou o impacto do álcool em sua vida. "Eu cheguei ao ponto de procurar ajuda. Entrei no Alcoólicos Anônimos", revelou.
A percepção romântica de que artistas precisavam de experiências autodestrutivas para criar foi algo que ele enfrentou. "Cazuza já falava: ‘Meus heróis morreram de overdose’. Isso não é verdade de jeito nenhum", afirmou, desmistificando a ideia de que o consumo de álcool ou drogas fosse inerente à produção artística.
Renato também refletiu sobre os efeitos emocionais do álcool: "A palavra para álcool em latim é spiritus. Existe essa dicotomia do álcool transferir uma ilusão de espiritualidade e acabar minando a espiritualidade da pessoa. Dá um vazio terrível e uma sensação de que a vida não vale a pena ser vivida."
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