"Aloha from Hell": o filme dos Cramps sobre Elvis Presley que nunca saiu do papel
Por Diego Carreiro
Postado em 28 de junho de 2025
Ao longo de sua carreira, os Cramps sempre flertaram com o cinema - não apenas por meio de uma estética que parecia ter saído direto de uma matinê de terror barata, mas também por um desejo declarado de fazer filmes. Em várias entrevistas, o casal Lux Interior e Poison Ivy, fundadores da banda, reafirmou essa vontade, revelando ter desenvolvido diversos projetos cinematográficos. Um deles, jamais realizado, levava um título tão explosivo quanto sua proposta central: "Aloha from Hell".
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A ideia do filme nasceu do fascínio obsessivo dos Cramps por tudo o que o mainstream desprezava: filmes B, ficção científica tosca, pornografia velada dos anos 1950 e, claro, Elvis Presley - o ícone definitivo do rock’n’roll e da decadência americana. Em uma matéria publicada na revista "Sounds", em fevereiro de 1986, escrita por Edwin Pouncey, Lux Interior revelou com entusiasmo o roteiro de um filme que ele e Ivy haviam escrito, homenageando Elvis de um jeito que só seria possível no universo distorcido dos Cramps.
O ponto de partida para essa conversa inusitada foi uma lembrança do fotógrafo Peter Anderson sobre um filme obscuro em que um Elvis morto era ressuscitado para voltar aos palcos. A memória acendeu algo em Lux, que reagiu de imediato:
"Tá vendo? É disso que tô falando. A gente escreveu um roteiro pra esse filme há muito tempo. Já tínhamos pensado nisso - ia se chamar ‘Aloha from Hell’."
O roteiro, descrito por Lux com entusiasmo quase infantil, era um delírio pulp com todos os elementos característicos dos Cramps: dança burlesca, brigas de bar, corridas suicidas, explosões e, claro, um Elvis zumbi.
"Começava num bar onde Ivy estava dançando. Eu e Nick estávamos sentados lá e a jukebox tocava ‘Do The Clam’. Um de nós olhava pra Ivy e dizia: ‘Uau!’. Aí a câmera mostrava nossos rostos se aproximando, até que um dizia: ‘Nossa, ele cantava demais’."
A história então descambava para uma sequência absurda de pancadaria e corrida de carros que levavam os personagens direto ao inferno, onde encontravam ninguém menos que Elvis Presley, reanimado, furioso com sua representação na cultura pop. Nas palavras de Lux:
"De repente, começa uma briga do nada, a gente é jogado pela janela e cai no capô de um carro. Um grupo de garotas que estava do lado de fora fica furioso porque a gente caiu em cima do carro delas e nos desafia para uma corrida suicida. A gente entra no nosso carro, elas entram no delas e partimos em direção a uma montanha.
"É claro que ninguém quer dar pra trás, porque somos todos descolados demais pra isso - então os dois carros batem e explodem em chamas. Aí todos nós vamos parar no Inferno e lá encontramos Elvis.
"Tínhamos imaginado ele saindo do túmulo como um cadáver em decomposição, revoltado com tudo o que escreviam sobre ele - dizendo que usava drogas, fazia coisas imorais - quando, na verdade, ele era um bom batista."
"Aloha from Hell", como era de se esperar, nunca saiu do papel. Assim como outras fantasias cinematográficas dos Cramps, o projeto se perdeu entre turnês, gravações e o fato de que talvez o mundo nunca estivesse pronto para um filme desses.
Se tivesse sido realizado, seria menos um filme sobre Elvis e mais uma exumação do próprio rock’n’roll - carregado de sarcasmo sombrio, erotismo grotesco e amor pelo bizarro. Algo que acabou se materializando no álbum "A Date With Elvis", a trilha sonora perfeita para esse delírio profano.
FONTE: "The Cramps: The Curse of Elvis", por Edwin Pouncey. Sounds, 1 de fevereiro de 1986.
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