John Lennon criou a primeira linha de baixo heavy metal da história?
Por Bruce William
Postado em 17 de janeiro de 2026
Um vídeo de um canal do youtube chamado Become A Bassist reacendeu uma daquelas discussões que não morrem: quem está no baixo de "Helter Skelter" e por que aquela linha soa tão agressiva. Luke, o autor do vídeo, parte de uma hipótese - debatida há anos - de que John Lennon teria assumido o baixo em uma das versões da música e, sem querer, chegou perto de uma "pegada metal" antes do metal virar metal.
A cena começa antes de qualquer discussão sobre baixo "metal". O vídeo parte de uma rivalidade: Pete Townshend, do The Who, cutucou os Beatles dizendo que, sem as vozes, as bases eram "uma porcaria", e ainda descreveu "I Can See for Miles" como "o disco mais sujo, mais alto e mais ridículo que você já ouviu".
Paul McCartney ouviu falar disso e decidiu transformar a provocação em missão pessoal: "O The Who tinha feito uma faixa que era a mais alta, a mais barulhenta, a coisa mais 'suja' que eles já tinham feito... e NÓS decidimos fazer o rock mais alto, mais nojento e mais suado que a gente conseguisse." Foi daí que nasceu "Helter Skelter".
A teoria entra justamente na hora de gravar: segundo o argumento do vídeo, Paul queria tocar guitarra nessa música e o baixo teria caído no colo do Lennon, que "não era baixista". E é aí que vem o tempero de estúdio: 18 takes no mesmo dia, cada vez mais alto e mais agressivo por "ordens" do Paul; histórias de caos, de gente se queimando com coisas no estúdio, e a lembrança de que o "blisters on my fingers" dito por Ringo ao final da canção seria literalmente uma reclamação por causa do dedo machucado de tanto tocar.

O ponto mais concreto do vídeo nem é que "foi o Lennon" o responsável, e sim o som em si. A linha de baixo de "Helter Skelter", do jeito que aparece isolada, é descrita como crua, cortante e com agudos na cara, bem diferente do grave mais "gordo" que o vídeo associa a nomes como James Jamerson, Carol Kaye e o próprio Paul.
E tem um detalhe técnico que ajuda a explicar essa aspereza: a possibilidade de Lennon ter usado uma Fender Bass VI (seis cordas afinadas uma oitava abaixo), "um baixo feito para guitarristas", com escolha de captador e timbre empurrando os agudos. Depois vem o "como" ele estaria tocando: palheta, ataque forte, muito downstroke, clique de traste aparecendo, toda aquela agressividade que faz o baixo cortar a mix como se quisesse brigar com a guitarra, além de técnicas que anos depois virariam lugar comum em metal e derivados.
A parte boa é que o próprio vídeo admite a treta: há debate sobre ser John ou Paul no baixo, inclusive por causa de uma "conversa de estúdio" em takes anteriores em que Paul aparece tocando entre uma tentativa e outra. Só que não há foto nem vídeo do take final, e o autor do vídeo diz que a maioria dos créditos lista John no baixo, mas que ainda assim existe margem para dúvida.
Outra discussão que existe é se dá pra chamar isso de "metal" em 1968? O vídeo não tenta decretar uma placa de mármore; ele tenta justificar por timbre, agressividade e pelo jeito "adiantado" com que o baixo empurra o tempo, quase passando do ponto. Pra dar contexto, ele cita até uma resposta do Rob Halford, do Judas Priest, quando perguntaram se os Beatles tiveram algo a ver com o metal: "Não há como descartar essa possibilidade. Eles estavam aumentando o volume, não estavam? Eles estavam aumentando o volume dos amplificadores, especialmente em 'Helter Skelter'. Incrivelmente forte".
Se a tese convence ou não, aí é com o ouvido de cada um, e essa é justamente a graça: um riff/linha que você já conhece vira outra história quando alguém te obriga a prestar atenção no timbre, na mão e no caos da sessão. E, convenhamos: pra uma banda que era acusada de "sem as vozes, é ruim", sair com "Helter Skelter" na manga já é uma resposta bem barulhenta.
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