O jantar pago pela máfia que celebrou, sem querer, a ascensão de Ronnie James Dio
Por Gustavo Maiato
Postado em 17 de abril de 2026
Quando Ronnie James Dio era apenas mais um músico desconhecido tocando covers em botecos do interior de Nova York, ele cometeu uma gafe que poderia ter terminado muito mal. Em algum momento durante suas noites com o Elf - ou uma das variações do grupo -, um frequentador de um clube chamado St. George reconheceu o sobrenome do vocalista e foi direto ao assunto: era parente de Johnny Dio? O famoso Johnny Dio, o mafioso? Ronnie, sem pensar nas consequências, disse que sim. "É meu tio", respondeu, segundo Wendy Dio, que contou o episódio no podcast The Magnificent Others with Billy Corgan.

O sujeito ficou entusiasmado e prometeu trazer o próprio Johnny Dio ao clube para ver o show pessoalmente. Ronnie passou dias apavorado. "Ele disse que quase morreu de medo. Sabia que a mentira ia aparecer", contou Wendy. A tensão chegou ao pico quando, numa noite, uma fileira de homens de terno entrou silenciosamente pelo fundo do salão e ficou parada durante a apresentação inteira. Ronnie tocou o set inteiro convencido de que seria desmascarado ao final. Nada aconteceu. Os homens foram embora sem dizer uma palavra. A vida seguiu. Anos se passaram. O episódio foi esquecido - ou assim pareceu.
Ronnie James Dio e a máfia italiana
O reencontro com a história viria anos depois, em circunstâncias completamente diferentes. Em 1980, Ronnie estava em Miami gravando Heaven and Hell, o álbum que marcou sua entrada no Black Sabbath. Era a primeira vez, segundo Wendy, que o casal vivia com dinheiro de verdade. Nos anos do Rainbow, apesar do sucesso da banda, eles recebiam apenas 150 dólares por semana - tudo era debitado da "conta" administrada pela gestão. "A gente nunca via dinheiro. A casa era alugada, o carro era alugado, tudo era descontado", disse Wendy. No Sabbath, Ronnie era sócio com participação igualitária nos lucros. A diferença era brutal.
Com algum dinheiro no bolso pela primeira vez em anos, Wendy fez uma reserva no Forge, um dos restaurantes mais sofisticados e caros de Miami, conhecido pelas carnes de alta qualidade. Quando o casal chegou, o maître os conduziu diretamente a uma sala privativa. Champanhe foi trazido sem que ninguém pedisse. Pratos apareceram em sequência. "Eu ficava pensando: como vamos pagar por tudo isso? A gente não estava mais acostumado a não ter dinheiro, mas ainda ficava nervosa", disse Wendy com humor. O jantar transcorreu sem que a conta aparecesse em nenhum momento.
Ao final da noite, quando Ronnie pediu a conta, o garçom respondeu com um sorriso tranquilo: "Já está paga, senhor. Com os cumprimentos do seu tio Johnny." A mentira contada numa noite qualquer num clube sem nome do interior de Nova York havia atravessado anos, estados e carreiras - e reaparecido no restaurante mais elegante de Miami, na forma de um jantar inteiro pago sem cobrança. Alguém havia acompanhado a trajetória de Ronnie James Dio em silêncio. Alguém sabia que ele estava em Miami. E alguém, em algum lugar, decidiu que o "sobrinho" merecia ser recebido como família.
O episódio não teve desdobramentos. Nenhum contato, nenhum favor pedido, nenhuma mensagem posterior. O jantar foi pago e o assunto encerrado. Wendy narrou a história com leveza, mas o contexto que a cerca é bastante revelador. O casal acabara de cruzar os Estados Unidos de carro - "dois cachorros, um gato e a gente", nas palavras dela - vindos de Connecticut, onde haviam sido deixados praticamente sem nada após a saída de Ronnie do Rainbow. Instalados numa casa pequena em Los Angeles com cerca de 12 pessoas vivendo ao mesmo tempo enquanto tentavam se reerguer, aquele jantar em Miami representava algo muito maior do que uma refeição. "Foi uma época muito divertida. A gente estava bem", disse Wendy.
Heaven and Hell e o período de Miami
A gravação de Heaven and Hell em Miami coincidiu com uma das fases mais produtivas e felizes da carreira de Ronnie. A banda funcionava com humor, respeito mútuo e uma química que o próprio período com o Rainbow - marcado pela tensão com Ritchie Blackmore - nunca havia permitido. Tony Iommi amarrava cobras de borracha no carro de Ronnie; Ronnie recheava o estojo de Vinnie Appice com sanduíches de presunto. "Eles faziam essas bobagens o tempo todo", contou Wendy. O álbum que surgiu daquele ambiente provou que o Black Sabbath tinha uma dimensão épica e melódica que estava apenas aguardando o vocalista certo para emergir.
O jantar no Forge, pago por um suposto tio mafioso que nunca existiu, fica na memória como um dos episódios mais improváveis e perfeitamente cadenciados de toda a trajetória de Ronnie James Dio - uma piada que ele mesmo havia iniciado por impulso, anos antes, e que voltou transformada numa gentileza silenciosa exatamente no momento em que as coisas finalmente começavam a dar certo. "Foi uma história engraçada. Está no livro do Ronnie", disse Wendy. E é o tipo de história que resume bem quem ele era: alguém cuja vida, mesmo nos bastidores, nunca era ordinária.
Confira a entrevista completa abaixo.
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