Músico analisa Angine de Poitrine e diz que duo é "puro marketing e pouca música"
Por Mateus Ribeiro
Postado em 16 de abril de 2026
Mais um entre os fenômenos de popularidade das redes sociais, o Angine de Poitrine vem chamando a atenção de entusiastas da música. Formado por Khn de Poitrine (guitarras microtonais) e Klek de Poitrine (bateria), o duo canadense - que atua de forma anônima - viralizou com composições pouco convencionais, classificadas pelo site Prog Archives como assimétricas e dissonantes.

Além da sonoridade peculiar, o projeto também se destaca pelo visual. Os integrantes se apresentam com fantasias extravagantes e máscaras gigantes de papel machê, elementos que contribuem para a estética enigmática e perturbadora do duo.
Uma rápida busca pelo Instagram mostra que o Angine de Poitrine caiu no gosto de internautas e de alguns influenciadores. Ainda assim, a proposta não agrada a todos. É o caso do músico Marco Antero, que mantém um canal no YouTube dedicado a análises sobre bandas, artistas e temas ligados ao universo musical.
Marco comentou o trabalho do Angine de Poitrine em vídeo publicado na última terça-feira (14). No material, ele explica o conceito de microtonalismo - um dos pilares da sonoridade do projeto - e afirma que o recurso é utilizado "da pior maneira possível". Para embasar sua análise, cita a música "Sarniezz":
"Como na maioria das composições do projeto, a construção se dá pelo empilhamento de camadas. A faixa começa com uma linha de baixo microtonal, que depois é dobrada uma oitava acima pela guitarra, e em seguida recebe uma terceira camada, que funciona como uma espécie de harmonização da linha principal."
"A partir daí, surge uma sensação clara de harmonia, mas nós não estamos ouvindo intervalos verdadeiramente microtonais. Todos os intervalos entre as camadas ainda correspondem aos intervalos tradicionais do sistema de 12 tons (...). Apesar do uso de microtons, a música não chega a propor uma nova lógica harmônica. Ela continua se apoiando em estruturas familiares, apenas desafinadas, ou deslocadas."
Em seguida, Marco analisou "Mata Zyklek" e apontou semelhanças estruturais em relação à faixa anterior. O músico detalha seu ponto de vista no trecho a seguir:
"Se nós analisarmos outra música, como por exemplo 'Mata Zyklek' podemos ver o mesmo padrão. Nessa música, o compasso é 5/4. A maior parte do riff gira em torno de um movimento de ida e volta sobre uma segunda neutra, de Sol para Lá meio Bemol."
"Ritmicamente, a faixa até apresenta divisões interessantes, o que gera boa parte da sua sensação de impulso e tensão. Mas repare que, assim como na música anterior, todas as notas tocadas simultaneamente possuem os mesmos acidentes microtonais. Ou seja, temos novamente os mesmos intervalos e acordes presentes no sistema tradicional de 12 tons. Angine de Poitrine apenas arranha o universo do microtonalismo. Uma espécie de microtonalidade superficial."
Por fim, Marco declara que não aprecia o trabalho da dupla. Para ele, o Angine de Poitrine tem mais a ver com marketing do que com música.
"Por isso, na minha opinião, a música deles é muito ruim (...). Imagine um pintor, que tem uma paleta com 6 cores em uma mão e uma outra paleta com 12 cores em outra mão. Na paleta de 6 cores, ele tem umas certas combinações que ele pode fazer pra misturar as tintas e adquirir novas cores, certo? O que o Angine de Poitrine está fazendo é pegar uma paleta de 12 cores, mas se limitar às mesmas combinações de cores da paleta de 6 cores."
"Essa banda pra mim é puro marketing e pouca música. Vocês já viram as entrevistas deles? Eles fingem falar uma língua alienígena e têm um intérprete pra responder as perguntas. A identidade dos dois membros segue anônima, eles alegam ser viajantes do espaço/tempo, que estão aqui na Terra para explorar a nossa música."
"Pra mim, Angine de Poitrine parece menos um projeto dedicado à explorar profundamente o microtonalismo como linguagem artística, e mais uma construção estética com forte apelo de marketing. O uso do microtonalismo está ali, mas ele é aplicado sobre estruturas herdadas do sistema tradicional, o que cria uma sensação de desconforto, mas sem necessariamente romper com a lógica do temperamento de 12 tons."
O vídeo completo foi disponibilizado no YouTube e pode ser assistido no player abaixo.
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