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O hit "proibido para os dias de hoje" que dominou os anos 80 e voltou sem fazer alarde

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Postado em 21 de maio de 2026

Em vídeo publicado em seu canal, o jornalista Julio Ettore revisitou a trajetória de Fausto Fawcett, autor de "Kátia Flávia, a Godiva do Irajá", uma das músicas mais ousadas e improváveis do pop rock brasileiro dos anos 1980. A canção estourou em 1987, voltou ao grande público dez anos depois na voz de Fernanda Abreu e, segundo Ettore, talvez hoje colocasse seu criador "na lista dos cancelamentos".

Foto: Reprodução
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A personagem Kátia Flávia ficou conhecida por muita gente nos anos 1990, quando Fernanda Abreu lançou sua versão em 1997. Mas a criação original é de Fausto Fawcett, nome artístico de Fausto Borel Cardoso. No vídeo, Ettore lembra que a personagem era "uma garota de programa, loira, sensual e fatal", que trabalhava em uma casa de massagem no Irajá, na zona norte do Rio.

Segundo o jornalista, Fausto achava fracas muitas letras das bandas nacionais dos anos 1980. Como resposta, criou algumas das composições mais provocativas daquela geração. "Ele estourou em 87, lançou três LPs, mas sua carreira musical foi rápida, efêmera", afirma Ettore.

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A origem de "Kátia Flávia" veio de uma notícia publicada no jornal O Dia. Fausto leu a história de uma mulher que teria apanhado de colegas numa boate porque roubava clientes delas. O jeito marrento da personagem real chamou sua atenção. A partir daí, ele misturou essa figura urbana com a lenda de Lady Godiva, nobre que teria cavalgado nua para convencer o marido a reduzir impostos.

Kátia Flávia e a música brasileira dos anos 1980

Nascia, então, Kátia Flávia, "a Godiva do Irajá". A letra citava bairros do Rio, cidades da Baixada, a antiga Febem e até calcinhas bélicas, como "calcinha antiaérea" e "Exocet", míssil usado pela Argentina na Guerra das Malvinas. "Olha as coisas que o cara pensava", diz Ettore. "Isso é muito fora da caixa."

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A entrada de Fausto na indústria fonográfica aconteceu por acaso. Em uma apresentação por volta de 1986, o cineasta Cacá Diegues estava na plateia. Gostou do que viu e recomendou o artista a André Midani, então chefão da Warner. A gravadora buscava reforçar seu elenco jovem no Rio, depois de apostar em bandas paulistas como Ira!, Titãs, Camisa de Vênus, Ultraje a Rigor e Inocentes.

Fausto foi contratado com sua banda, Os Robôs Efêmeros. O grupo tinha Carlos Laufer, Pedro Leão e os irmãos Marcos e Marcelo Lobato. Este último, anos depois, entraria para O Rappa. Para dar acabamento ao som, entrou em cena Liminha, produtor de vários discos importantes do rock brasileiro.

Liminha estava interessado em sintetizadores, baterias eletrônicas e funk rock. Segundo Ettore, ele gostou tanto da história de Kátia Flávia que elaborou boa parte, "senão todo o arranjo" da música. A faixa ganhou força, entrou na trilha da novela O Outro, da TV Globo, e levou Fausto ao programa Globo de Ouro, onde ele apareceu beijando uma calcinha.

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A música também foi vista por alguns como o primeiro rap de sucesso nacional no Brasil. Ettore pondera que Fausto não vinha nem do universo do rap de São Paulo nem do funk carioca que começava a se organizar. Era, nas palavras do jornalista, "um trintão branco de classe média" que não se propunha exatamente a fazer rap.

Ainda assim, "Kátia Flávia" aproximou o grande público de uma fala ritmada que lembrava o hip hop. Ettore também observa que havia ali uma tradição brasileira de letras longas e rápidas, como o repente nordestino.

Depois do primeiro LP, Fausto e Os Robôs Efêmeros lançaram Império dos Sentidos, em 1989, produzido por Herbert Vianna. O disco trouxe músicas como "Facada Leite Moça", "Android Nisei", "Mapas Alemães" e "Santa Clara Poltergeist". Mas Fausto nunca se viu como líder de banda. Ele se entendia mais como escritor e compositor.

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Nos anos seguintes, o artista se aproximou de outras formas de criação. Transformou "Santa Clara Poltergeist" em espetáculo e reuniu músicos como Carlos Laufer e Dado Villa-Lobos. Em sua autobiografia, Dado escreveu que tocar com Fausto foi "como uma boia de salvação", porque o colocou em contato com uma cena alternativa e underground num momento em que a Legião Urbana vivia, segundo ele, o "suprassumo da chatice e marasmo do mainstream".

A ligação com Fernanda Abreu também veio de longe. Os dois se conheciam desde a faculdade e, em 1987, ela participou da faixa "Juliete", do primeiro LP dos Robôs Efêmeros. Mais tarde, Fernanda, Fausto e Laufer criaram "Rio 40º", um dos maiores sucessos da cantora.

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Ettore conta que Fernanda tinha o refrão e algumas cenas da música. Depois ligou para Fausto, por achar que ele era o nome ideal para transformar aquilo em letra. Ele apareceu com um calhamaço de cerca de dez páginas. Fernanda escolheu as melhores estrofes. Uma delas parece atual até hoje: "O Rio é uma cidade de cidades camufladas, com governos misturados, camuflados, paralelos, sorrateiros, ocultando comandos."

Em 1997, Fernanda regravou "Kátia Flávia" e apresentou a personagem a uma nova geração. Muita gente que conheceu a música naquele momento nem desconfiava que se tratava de uma regravação. O hit original, lançado dez anos antes, voltava com outra voz, outra produção e novo alcance.

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A trajetória de Fausto também teve momentos duros. Ettore lembra que o artista enfrentou alcoolismo por anos. Bebia ao acordar, antes do trabalho, no almoço, no jantar e depois passava horas no boteco. Em 2008, após vomitar sangue, ouviu de um médico que precisaria fazer hemodiálise se não largasse o álcool em 15 dias. Desde então, deixou a bebida.

Hoje, Fausto Fawcett segue como romancista, contista, dramaturgo, jornalista, ator e roteirista. Sua obra permanece como uma das mais provocativas da música brasileira. Para Julio Ettore, mesmo que suas letras talvez fossem mal recebidas no ambiente atual, há algo que continua fora de discussão: "ninguém captou e cantou o submundo brasileiro como ele."

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Confira o vídeo completo abaixo.

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Jornalista, fotógrafo de shows, youtuber e escritor. Ama todos os subgêneros do rock e do heavy metal na mesma medida que ama escrever sobre isso.
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