O lendário bootleg do Led Zeppelin que mostra por que a banda era outra coisa ao vivo
Por Bruce William
Postado em 11 de maio de 2026
A discografia oficial do Led Zeppelin já rende discussão suficiente. Há quem defenda "Led Zeppelin IV", quem coloque "Physical Graffiti" no topo, quem prefira a pancada dos dois primeiros discos e até quem encontre argumentos para fases menos consensuais da banda. Mas conforme relembra a Classic Rock existe um álbum que não aparece nessa conta oficial e, ainda assim, ocupa um lugar especial entre fãs mais obcecados: o bootleg "Live On Blueberry Hill."
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A gravação foi feita no dia 4 de setembro de 1970, no Inglewood Forum, em Los Angeles, durante a sexta turnê americana do Led Zeppelin. Naquela noite, ao menos dois grupos de fãs foram ao show com a intenção de registrar a apresentação em equipamentos de rolo, próximos ao palco. O resultado acabou circulando rapidamente em discos piratas, numa época em que o mercado de bootlegs ainda ganhava força e o Zeppelin já era um alvo perfeito para esse tipo de registro.
A relação da banda com gravações não autorizadas sempre foi complicada. O empresário Peter Grant ficou famoso pela forma dura como lidava com quem tentasse gravar shows do grupo sem permissão. Ainda assim, o Led Zeppelin se tornou um dos artistas mais pirateados da história, em parte porque seus shows ofereciam algo que os discos de estúdio não entregavam por completo. Grant resumiu bem essa diferença ao dizer: "O Led Zeppelin era principalmente uma banda presencial… era disso que se tratava de verdade."
"Live On Blueberry Hill" ajuda a entender essa frase. O Led Zeppelin de estúdio já era pesado, inventivo e cheio de dinâmica, mas no palco as músicas podiam se alongar, mudar de direção e absorver trechos de blues, rock and roll e improvisos que não estavam nos álbuns. A gravação de Los Angeles mostra John Bonham empurrando tudo com uma bateria gigantesca, Jimmy Page esticando riffs e solos, John Paul Jones sustentando a base com baixo e teclados, e Robert Plant ainda em plena forma vocal, com aqueles agudos que pareciam nascer justamente para ginásios lotados.
O repertório também mostra uma banda em movimento. Havia músicas dos dois primeiros discos, material do então futuro "Led Zeppelin III" e várias surpresas espalhadas pelos medleys. "Communication Breakdown" apareceu misturada com "For What It's Worth", do Buffalo Springfield, "I Saw Her Standing There", dos Beatles, e até "Good Times Bad Times". Já "Whole Lotta Love" virou uma espécie de jukebox de rock and roll, abrindo espaço para citações de "Think It Over", de Buddy Holly, e "Some Other Guy", de Leiber, Stoller e Barrett.
O nome do bootleg veio do bis escolhido para aquela noite: uma versão de "Blueberry Hill", sucesso associado a Fats Domino. A música não era exatamente uma peça central do repertório oficial do Led Zeppelin, mas caiu como luva naquele espírito de celebração descontrolada em que a banda parecia capaz de puxar qualquer referência antiga e transformar em parte de seu próprio território. Era esse tipo de liberdade que fazia os shows do grupo virarem material de culto entre colecionadores.
A importância do registro cresceu ainda mais porque ele capturou o Zeppelin em uma fase específica: já grande, mas ainda com muita fome de palco. "Led Zeppelin III" sairia pouco depois, e a banda ainda estava no processo de ampliar sua linguagem além do blues pesado e do hard rock mais direto. No mesmo show, aparecem versões de "Since I've Been Loving You" e da raridade ao vivo "Out On The Tiles", duas faixas que ajudam a mostrar o grupo testando caminhos sem abandonar a força física que havia conquistado o público americano.
Em 2022, a história ganhou um capítulo inesperado quando cerca de sete minutos de filmagem daquele show surgiram depois de mais de 50 anos guardados. O vídeo não tinha áudio próprio, mas fãs sincronizaram as imagens com o som de "Live On Blueberry Hill", permitindo ver trechos de músicas como "Since I've Been Loving You", "Thank You", "What Is And What Should Never Be" e "Whole Lotta Love", além de partes com órgão e theremin.
Mesmo sem ser um lançamento oficial, "Live On Blueberry Hill" permanece como uma peça fundamental para entender o Led Zeppelin. Não tem a limpeza de um álbum de estúdio, nem a chancela formal da discografia da banda, mas carrega justamente aquilo que muitos fãs procuravam nos bootlegs: a sensação de estar perto do acontecimento. Para uma banda que Peter Grant definia como essencialmente presencial, talvez esse disco pirata explique mais do que muito lançamento autorizado.
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