A canção dos anos sessenta que Robert Plant sabia que jamais conseguiria superar
Por Bruce William
Postado em 21 de junho de 2026
Robert Plant ficou conhecido por uma voz capaz de transformar uma música em acontecimento físico. No Led Zeppelin, ele gritava, sussurrava, esticava frases, improvisava gemidos e fazia o blues soar como ritual elétrico. Mas, quando falava de composição, também sabia reconhecer lugares onde a força não vinha do volume.
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Um desses lugares era Leonard Cohen. Plant sempre teve interesse por folk, música antiga, blues e por cantores que pareciam carregar histórias maiores do que o próprio arranjo. No caso de Cohen, o impacto vinha principalmente das palavras. Havia ali uma economia que podia derrubar qualquer compositor vaidoso: poucas imagens, nenhuma pressa e uma sensação de confissão sem espetáculo.
A música que deixou Plant sem saída foi "Bird on the Wire", lançada por Cohen em 1969 no álbum "Songs from a Room" (youtube). Não é uma canção feita para impressionar por exuberância. Ela caminha de forma quase simples, sustentada por imagens de culpa, liberdade, promessa e desgaste emocional. Justamente por isso parece crescer quanto menos tenta crescer.
Plant resumiu esse incômodo criativo com uma mistura de admiração e palavrão, republicada na Far Out. "Eu ouço Leonard Cohen e penso: 'Puta merda, essas letras!' Para onde você vai depois de 'Bird on the Wire'? Como eu posso chegar perto disso? Certamente não tem nada a ver com espremer limões, se é que você me entende."
A referência aos limões é uma piscadela óbvia para "The Lemon Song", uma das faixas mais carnais do repertório do Led Zeppelin. Plant estava comparando dois tipos muito diferentes de escrita. De um lado, o blues sexual, teatral e inflamado. Do outro, Cohen transformando fragilidade em verso.
O próprio Cohen tinha uma relação especial com "Bird on the Wire". Ele dizia que costumava começar seus shows com a música porque ela o devolvia às suas obrigações. Também contou que a canção foi iniciada na Grécia e concluída em um quarto de motel em Hollywood, por volta de 1969. Mesmo assim, nunca parecia completamente encerrada para ele, que seguia mexendo em versos e versões ao longo dos anos.
Esse tipo de inquietação talvez ajude a explicar a reverência de Plant. "Bird on the Wire" não soa como uma peça fechada em mármore, mas como uma tentativa permanente de dizer algo difícil sem enfeitar demais. Cohen escrevia como quem sabia que a frase certa não eliminava a dor; apenas dava forma a ela.
Plant tinha suas próprias grandezas como letrista e intérprete. "Going to California", "No Quarter" e "The Rain Song" mostram um lado muito mais delicado do Led Zeppelin do que a caricatura de banda de testosterona deixa supor. Ainda assim, diante de Cohen, ele parecia aceitar que algumas canções pertencem a uma zona impossível de disputar.
No fundo, o espanto de Plant diz muito sobre "Bird on the Wire". Não era apenas uma música bonita de 1969. Era uma daquelas composições que fazem outro grande artista parar por um segundo e perceber que talvez exista uma distância entre escrever bons versos e encontrar uma imagem que parece ter estado ali desde sempre.
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