Uma pergunta sobre afinação mudou o destino do maior sucesso do Metallica
Por Lucas Caldeira
Postado em 18 de setembro de 2026
Seis músicas dentro da pré-produção de um disco novo, o produtor Bob Rock reparou em algo estranho: tudo o que a banda tinha composto até ali estava afinado na mesma nota, Mi. Perguntou o motivo. James Hetfield respondeu seco: era a nota mais grave que tinham. Rock sugeriu tentar Ré, citando Van Halen e Black Sabbath como bandas que afinavam mais baixo. A banda testou ali mesmo, e o resultado pegou todo mundo de surpresa, a própria banda incluída. "Foi uma coisa pequena, e aos poucos a parede foi caindo", contaria Rock depois.
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Pelo relato que o próprio Rock daria depois, foi a primeira de várias vezes em que isso aconteceria: ele não chegava com um plano pronto pra mudar o Metallica, testava aos poucos, ouvia alguma coisa que soava esquisita pros próprios padrões da banda, perguntava por que era daquele jeito, sugeria uma alternativa pequena, e só ia atrás da próxima mudança depois de ver aquela funcionar. A banda já tinha gravado três discos anteriores com o produtor Flemming Rasmussen, então produtor de fora não era novidade. O que Rock foi desmontando, pergunta por pergunta, foram hábitos mais antigos: riffs longos, trocas constantes de andamento, cada parte gravada separada, prática que vinha desde o início da carreira do grupo.
O disco em pré-produção sairia em 1991, ficaria conhecido como "Black Album" e se tornaria o mais vendido da carreira do grupo. A história que normalmente se conta sobre ele é de amadurecimento, o Metallica teria simplesmente crescido. A versão mais específica é mecânica: uma sequência de perguntas e pequenos testes de Bob Rock que começou a desmontar um processo que a banda vinha usando havia anos. Depois de "...And Justice for All" (1988), disco de faixas longas e cheias de mudança de andamento, o baterista Lars Ulrich resumiria anos depois o sentimento da época numa frase seca: "aquele lado do Metallica tinha esgotado sua função". Parte do incômodo, segundo a própria banda contaria mais tarde, vinha dos shows: em meio às faixas mais longas e técnicas daquele álbum, era comum notar plateias mais paradas do que a banda esperava depois de tanto trabalho posto em cada arranjo. Pra buscar um som mais direto e maior, contrataram Bob Rock, produtor conhecido pelo trabalho recente com Mötley Crüe e Bon Jovi.
Com a primeira pergunta já validada, Rock foi atrás de mudanças maiores. Até ali, a rotina de gravação do Metallica era isolar cada músico numa sala separada, tocando sozinho sobre um click track, com as partes montadas depois, pedaço por pedaço. Rock quis testar outra coisa: reunir a banda inteira no mesmo ambiente, tocando ao mesmo tempo, se olhando enquanto tocavam. Passaram a gravar assim, aceitando mais imperfeições de execução em troca de uma sensação de conjunto que o método anterior dificultava. Rock também notou que as músicas se apoiavam em muitos riffs diferentes, e sugeriu reduzir, de estruturas de dez minutos com uma dúzia de mudanças de andamento pra canções mais curtas, construídas em cima de uma ou duas ideias centrais.
A prova mais concreta desse método apareceu numa faixa específica, "Sad But True". A demo que a banda tinha levado pra pré-produção era rápida, do jeito que o Metallica sempre tinha feito. Bob Rock ouviu aquilo, estranhou de novo, e perguntou de novo: por que tão rápida? Enxergou ali uma pegada parecida com "Kashmir", do Led Zeppelin, mas só se a música desacelerasse. Pediu pra Hetfield tocar de novo, bem mais devagar, com o riff mais pesado. A banda testou. Funcionou de novo.
"Enter Sandman" nasceu do mesmo período, mas por outro caminho. Kirk Hammett trouxe um riff simples, quase óbvio pros padrões técnicos do Metallica até ali, e a banda fechou a música em um ou dois dias, sem precisar de nenhuma pergunta de Rock, nenhum pedido de desaceleração. O método já tinha virado hábito da própria banda.
Nem todo mundo recebeu bem a virada. Parte do público que acompanhava a banda desde os discos de thrash mais técnico passou a tratar o som mais simples e melódico do "Black Album" quase como uma traição do que o Metallica representava até ali. A própria banda, incluindo Rock, sempre defendeu a direção como um passo necessário depois de quatro discos no mesmo caminho.
O disco venderia mais de 31 milhões de cópias no mundo e passaria quatro semanas no topo da Billboard 200. "Sad But True" virou, décadas depois, uma das faixas mais reconhecíveis do repertório da banda exatamente pelo andamento mais lento que Bob Rock pediu naquele período de pré-produção. A parede, como ele descreveria depois, realmente tinha caído.
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