Rick Bonadio diz que sertanejo é mais inteligente que rock: "Culpa não é do dinheiro"
Por Gustavo Maiato
Postado em 18 de setembro de 2026
O produtor Rick Bonadio, um dos nomes mais associados ao pop rock brasileiro, rejeitou a ideia de que o sertanejo vence uma disputa desleal por ter mais dinheiro. Em entrevista ao canal de Mateus Starling, ele foi questionado sobre o volume de investimento no gênero e respondeu com uma autocrítica ao próprio meio: para ele, o atraso do rock tem menos a ver com o bolso dos concorrentes e mais com a forma como o segmento se organiza.

"O sertanejo, para mim, é um mercado muito legal e muito bom. A gente, que é do pop rock, não tem culpa que eles são mais profissionais e mais inteligentes que a gente. A gente tem que ser sincero. O mercado do sertanejo é inteligente, é forte, é bem profissional, eles são focados, eles se unem, coisa que nunca teve no rock: união. O sertanejo tem união. Eu já fiz muitos artistas sertanejos e gosto de fazer. Trabalhar com sertanejo é mais fácil, os caras estão para frente."
Bonadio descreveu o gênero como um mercado que movimenta o país, responsável por feiras e festas de cidade, com muito dinheiro circulando, público grande e muita gente talentosa. Ressalvou, porém, que ali existe gente boa e gente ruim, como em qualquer estilo. Quando o apresentador lembrou do dinheiro que sai do campo e vai direto para a carreira de cantores, o produtor rebateu perguntando se a gravadora Universal também não investe em seus artistas. "A gente não pode jogar a culpa no dinheiro como se isso fosse uma sacanagem, uma coisa desonesta", afirmou.
A conversa avançou quando o entrevistador comparou o pop rock a um cardume de sardinhas diante de baleias. Na sequência, veio a provocação sobre por que o rock teria espantado os próprios investidores, com a lembrança de artistas que, ao alcançar sucesso, passam a recusar parcerias com outros nomes. Diante da observação de que o sertanejo é mais tolerante nesse ponto, Bonadio concordou e foi além: "Eles são mais inteligentes, eles se ajudam."
Para ilustrar, o produtor contou um episódio ocorrido duas semanas antes, durante a gravação de um disco de country que está produzindo. O artista do projeto convidou a cantora Mariana Fagundes, que vive um momento de grande projeção no sertanejo, para uma participação. "Ela tinha um monte de compromisso no meio, deu um jeito de ir lá, cantou a música na hora, facilitou tudo, pegou rápido, cantou para destruir, foi embora, foi querida com todo mundo. Aí eu pensei: se fosse uma banda de rock e o vocalista tivesse que fazer, o cara não ia conseguir cantar, porque não ia aprender na hora. Ia ter que fumar três baseados antes para poder gravar."
O produtor também comentou o peso do rádio e da TV no lançamento de novos nomes. Pelas contas dele, cada meio respondia por algo como 30% da estratégia no passado, índice que hoje estaria em torno de 15%. Ainda assim, Bonadio disse que o rádio segue decisivo em vários gêneros: um sertanejo que queira fazer shows pelo Brasil inteiro precisa tocar nas emissoras, assim como o pagode e a MPB, enquanto o trap consegue dispensar esse caminho. "Eu acho que nada vai desaparecer por completo, nem mesmo o produtor e o guitarrista vão desaparecer", brincou.
Na reta final, ele tratou das músicas feitas por inteligência artificial (IA). Embora tenha admitido não ter uma opinião totalmente formada sobre o tema, comparou a emoção provocada por essas faixas à de quem admira a réplica de um quadro de Picasso e disse que o problema está nas pessoas por trás da tecnologia. "Eles copiaram as músicas que todos os seres humanos fizeram na história da música. Eles copiaram, eles não pagaram. Eles se apropriaram e pegaram um trechinho daqui, um trechinho dali, ninguém vai perceber. Então é um jogo combinado que vai emocionar as pessoas eventualmente, sim, mas é uma fraude."
Confira a entrevista abaixo.
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