A briga de ego que separou a dupla mais importante do punk rock
Por Gustavo Maiato
Postado em 18 de setembro de 2026
A disputa entre Joe Strummer e Mick Jones pelo comando do Clash consumiu a banda entre 1981 e 1983, até a demissão do guitarrista e o fim da formação clássica. O episódio ganhou novos detalhes em vídeo publicado pelo jornalista Júlio Ettore, que reconstituiu a derrocada do grupo a partir do depoimento de Glyn Johns, engenheiro de som chamado às pressas pela CBS para salvar as gravações de "Combat Rock". O relato faz parte de um livro autobiográfico do produtor recém-lançado no Brasil.
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O racha vinha de antes. No fim de 1981, Jones alegava ter chegado primeiro à banda, enquanto Strummer respondia que sem ele nada existiria. Em cinco anos frenéticos, o Clash havia saído dos clubes de Londres para o posto de estrela global do rock, e a química interna se desgastava sob exaustão, pressão comercial, disputas ideológicas e abuso de drogas. Quando chegou a hora de fechar o novo disco, os dois resolveram a queda de braço do jeito mais improvável possível: cada um faria a própria mixagem para ver quem entregava o melhor resultado.
Obcecado por hip hop, Jones reservou um estúdio e voltou com um álbum tomado por dance music e dub. Strummer, concentrado no discurso político, achou tudo confuso. A gravadora também recusou o material e acionou Johns, que tinha trabalhado com Rolling Stones, Beatles, Led Zeppelin, Eagles, The Who e Jimi Hendrix, mas olhava o punk com desdém. Segundo Ettore, o engenheiro mudou de ideia ao ouvir as fitas pela primeira vez.
"Eu fui ouvir muito cético, pensando que provavelmente seria uma bagunça antimusical péssima, que eu não entenderia nem simpatizaria. Depois de ouvir tudo, foi uma agradável surpresa. E, por mais autoindulgente que fosse o trabalho, percebi que eles eram muito inteligentes e que havia um grande álbum a ser extraído dali", escreveu Johns.
A reunião marcada para alinhar o trabalho escancarou o tamanho do problema: Jones simplesmente não apareceu, por saber que já não tinha voz e por não querer legitimar a nova mixagem. Sem ele, Johns e Strummer cortaram trechos de várias faixas e transformaram o projeto num álbum simples, e não duplo como o guitarrista queria. Boa parte das ideias de Jones ficou de fora. Às sete da noite daquele mesmo dia, ele bateu à porta do estúdio.
"Quando perguntei o que achava do que acabara de ouvir, ele falou de várias mudanças que gostaria de fazer em cada faixa. Informei educadamente que era uma pena, já que eu tinha terminado. E, se ele tivesse se dado ao trabalho de chegar às dez da manhã, como todos os outros naquele dia, sua opinião teria sido recebida e incorporada de bom grado", relatou o engenheiro.
Jones desistiu e mandou avisar que não daria opinião nenhuma sobre o disco, rejeitado criativamente pelos próprios companheiros. A ironia é que "Combat Rock" virou o maior sucesso comercial do Clash, entrou no top 10 dos Estados Unidos e do Reino Unido e gerou "Rock the Casbah" e "Should I Stay or Should I Go". Dias antes do lançamento, em maio de 1982, o baterista Topper Headon recebeu um ultimato por causa da dependência de heroína, não conseguiu se livrar do vício e foi demitido. Terry Chimes, o baterista original, cobriu o buraco.
O desfecho veio em maio de 1983, no US Festival, na Califórnia. A banda aceitou meio milhão de dólares para encabeçar o Punk Day, exigiu que parte do lucro fosse para instituições de caridade e ameaçou não tocar quando o acordo foi cancelado em cima da hora. Subiu ao palco com duas horas de atraso, diante de 140 mil pessoas, sem nenhuma camaradagem entre os integrantes: Strummer se afastava sempre que Jones se aproximava, e os dois chegaram a discutir durante as músicas. Em setembro, Strummer e Paul Simonon anunciaram a demissão do guitarrista.
A tentativa de reformular o grupo naufragou. "Cut the Crap", lançado em 1985, teve vendas razoáveis e recepção desastrosa, e o último show aconteceu em julho daquele ano, na Grécia, antes da dissolução no início de 1986. Jones seguiu com o Big Audio Dynamite, explorando a mistura de gêneros que defendia. Os dois voltaram a trocar composições, viram "Should I Stay or Should I Go" chegar ao primeiro lugar britânico em 1991 e dividiram um palco pela última vez em 2002, poucos meses antes da morte de Strummer, em dezembro daquele ano.
Confira o vídeo completo abaixo.
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