Motorhead: biografia mostra o quão Lemmy era único

Resenha - A Biografia Definitiva - Lemmy

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Por Mário Pescada, Fonte: Saraiva
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Nota: 9

Lemmy Kilmister conseguiu ainda em vida se tornar uma lenda. Uma figura mítica: botas de couro de cobra, calça, chapéu e camisa preta com mangas arregaçadas, cinto de balas, tatuagens, cara fechada e um olhar fulminante. Ele impunha respeito, quase medo, mas também era dono de um grande coração.

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Fato é que Lemmy ficou maior do que sua cria, o MOTORHEAD, uma das poucas que transitam na preferência de fãs de vários estilos de rock, do heavy melódico ao mais extremo metal.

A biografia passa pela sua vida, conta fatos de várias épocas, testemunhos de quem estava por perto e trechos das inúmeras conversas/entrevistas do autor com Lemmy, incluindo aí suas tão famosas frases. Mick Wall, o autor, entrevistou, conversou informalmente e foi relações públicas de Lemmy por mais de 35 anos e entre outros livros publicou biografias do METALLICA, AC/DC, BLACK SABBATH e LED ZEPPELIN (Quando os Gigantes Caminhavam Sobre a Terra é um baita livro, recomendo muito).

Ian Fraser Kilmister nasceu na véspera do natal de 1945 com um tímpano perfurado, coqueluche e desenganado pelos médicos. Sua relação com o pai (ex-pároco da Igreja Anglicana) foi nula, só encontrando ele muitos anos depois e nunca mais se reencontraram. Filho único, foi criado pela mãe enfermeira e avó. Sua mãe anos depois se juntou com outro homem, mas não se casaram, pois havia uma regra bizarra dizendo que a Igreja só aceitaria isso se Lemmy fosse considerado bastardo (isso deve explicar sua antipatia com a igreja e a fixação pela palavra “bastard”).

Como vivia em Anglesey, um lugar bem rural sem ter muito o que fazer, passava boa parte do dia ouvindo a rádio BBC e dessa forma foi incorporando a música ao seu dia a dia. Seu primeiro disco foi “Knee Deep In The Blues” de TOMMY STEELE AND THE STELLMEN.

Uma de suas primeiras experiências com garotas foi aos treze anos quando ele e um amigo que tinha um braço postiço adentraram num acampamento de garotas e lá foi Lemmy parar dentro da barraca de uma delas quando, no meio do calor, ouviu-se uma gritaria: seu amigo foi pego pela coordenadora e estava sendo agredido com o próprio braço postiço!

No verão de 1957 ele teve uma “revelação”: percebendo que garotos que tocavam violão logo eram cercados por garotas, ele catou um velho violão do seu tio e começou a ter aulas de guitarra. Sua primeira guitarra foi uma Hofner Club 50. “Entre o sexo, drogas e rock, posso colocar o rock em primeiro lugar, mas o sexo vem em segundo, bem perto. O rock é só um meio de conseguir mais sexo”, testemunho de uma pessoa que pelas suas contas teria transado com mais de 1.000 mulheres (alguns dizem 2.000...).

Expulso da escola aos 15 anos ao ser pego matando aula, foi “condenado” a levar duas varadas na mão (castigo típico da época). Como tinha cortado feio o dedo com um canivete, estendeu a mão boa, mas essa foi recusada pelo funcionário da escola. Ele bateu na mão que estava machucada e o corte se abriu. Lemmy pegou a vara e deu na cabeça do funcionário. “Um tremendo filho da puta, era o que ele era”.

Uma vez fora da escola, teve que arrumar um emprego. O primeiro foi de cuidador de cavalos que ele até curtiu. Depois pintor - esse ele já não curtiu. Seu padrasto arruma emprego para ele numa fábrica - esse ele odiou. Deixou o cabelo crescer e foi intimado: ou cortava o cabelo ou seria demitido. Hora de procurar outro emprego...

E então Lemmy ouviu LITTLE RICHARD. Esse encontro mexeu profundamente com ele. “Ele está de terno, camisa e gravata e ainda assim é um escândalo...ele era o mais louco e ainda é, de todos, o único que continuou louco”. Anos depois em Los Angeles ele encontrou seu ídolo na porta do Hotel Hyatt House e num momento de fã, disparou “Sem você, não existiria eu, a culpa é sua!”.

Decidido a ser músico, aos 17 anos pega a estrada com um amigo rumo a Manchester. De carona em carona, dormindo na estrada e contando com a ajuda de “mulheres hospitaleiras”, nas palavras dele.

Era 1962, já em Manchester, vivia o boom do rock n´roll: ELVIS, LITTLE RICHARD, JERRY LEE LEWIS, CHUCK BERRY, etc. Ele já tinha o rock e as garotas, aí surgem as drogas - estava formada uma trinca que o seguiria até o fim da vida. No começo era a maconha e depois seu eterno vício: speed (ou anfetamina, o hábito rendeu a música “White Line Fever”). Nessa época, Lemmy conheceu Cathy, mãe de seu primeiro filho - detalhe: ela tinha apenas 15 anos. A criança, Sean, foi dada para adoção e Lemmy nunca mais viu os dois. Iniciava-se ali um comportamento característico seu: apaixonar, envolver, se sentir sufocado e então partir.

Uma segunda onda musical atinge Lemmy: BEATLES. “Eles mudaram tudo. Não só o rock, mas a vida, o universo e tudo. Depois deles, ninguém mais foi o mesmo, jovens e velhos, cantores e políticos, atletas e atores. Todo mundo”.

Acabou montando bandas, uma atrás da outra: THE DEEJAYS, SAPPHIRES, THE RAINMAKERS, THE MOTOWN SECT - sempre como guitarrista e tocando por trocados, tendo que apelar para ajuda da mãe para se manter (sem que os outros caras da banda soubessem, claro).

As coisas melhoraram quando se juntou ao ROCKIN´VICARS, uma banda com apetrechos de palco, como a gole de padre que Lemmy usava. A banda tocava apenas covers e era muito carismática. Nessa época, Lemmy mais uma vez se tornaria pai, porém dessa vez a criança, Paul, foi criada pela mãe Tracey - sozinha.

Mas tudo foi para o espaço mesmo quando ele viu nada mais, nada menos, que JIMI HENDRIX. “Eu não conseguia acreditar nele, sabe? Hendrix costumava fazer uma porra de cambalhota dupla e tocar guitarra no pescoço, mordia, era cada coisa do cacete!”.

Percebendo que o ROCKIN´VICARS tinha se exaurido, ele pula fora da banda e se torna Dj. De ska. Isso mesmo, o símbolo do rock, já assumiu pick-ups para tocar ska.

Por indicação de John Lord (na época no THE ARTWOODS) ele bateu na porta da mãe de Ronnie Wood (na época no THE BIRDS) às 3 horas da manhã. A gentil mãe do guitarrista o acolheu, ele pegou amizade com o pessoal do THE BIRDS que o indicaram para ser roadie de...JIMI HENDRIX. Sim, a “lenda” de que ele foi roadie do grande Jimi é verdadeira e segundo ele, foi uma honra. Nas suas palavras, ele era um cara extremamente gentil e educado, do tipo que se levantava quando uma mulher chegasse e ainda puxava uma cadeira para ela se sentar. E também um atleta sexual: ”se você quisesse ver uma foda atlética, Jimi era o cara certo. Nunca vi nada parecido”. Além de roadie, Lemmy era o responsável por comprar maconha e ácido para ele: a cada dez comprados, três ficavam com ele.

Após esse trabalho se junta ao percussionista malásio Sam Gopal com quem gravou o psicodélico “Escalator” (1969). Segundo ele, algo para ser esquecido.

Os anos passam e até 1971 a vida dele ia nessa toada, traficando para viver (foi preso quando a polícia encontrou um quilo de maconha libanesa de molho na pia da cozinha), indo a clubes, alguns bicos, etc. Nessas, acabou conhecendo um cara chamado Dik Mik Davies que acabou levando Lemmy ao seu primeiro acerto: o HAWKWIND.

Não que o HAWKWIND (antes HAWKWIND ZOO) fosse paz, amor e ali tudo corresse às mil maravilhas. Lemmy e o vocalista Dave Brock se odiavam. Sem falar no uso pesado de speed e ácido, as constantes trocas de membros, o fato de serem ignorados pela imprensa musical por um tempo, etc. Foi ali que Lemmy começou a tocar baixo: “...eu peguei aquilo e comecei a tocar como guitarra base. E é assim que venho tocando baixo desde então”.

A banda só foi ter dias melhores quando o single “Silver Machine” estourou em 1972 - justamente quando colocaram Lemmy para cantar o verso da música substituindo os vocais originalmente gravados, o que causou um baita mal-estar interno (leia-se ciúmes). A banda cresceu, ganhou mais aparelhagens e tudo quanto é acessório para suas apresentações teatrais com verdadeiras catarses coletivas.

Uma parada triste: em 1973 morre por overdose de heroína Susan Bennett, uma das poucas que conquistaram o coração de Lemmy. Sua biografia “White Line Fever” foi dedicada a ela: “Susan Bennet, que pode ter sido a única”.

Mais algumas alterações na formação, pirações alucinógenas de alguns membros e dois discos lançados “Hall Of The Mountain Grill” (1974) e “Warrior On The Edge Of Time” (1975), menos experimentais e mais rock que os anteriores. Acaba que parte da banda se volta contra Lemmy, chegando a boicotar suas letras, mas uma em especial chegou a ser gravada: “Motorhead” (gíria da época nos EUA que descrevia viciados como ele em speed). Brock proibiu a faixa de ser tocada ao vivo, ser incluída no disco e ela só foi lançada anos depois em um compacto - já sem Lemmy.

Verdade é que Lemmy já estava cansando a banda com seus sumiços atrás de drogas e garotas, e quando ele foi pego na fronteira do Canadá portando sulfato de anfetamina (ao contrário do que dizem de que seria cocaína), foi a gota d’água e o álibi para demitirem ele ainda dentro do ônibus da banda. Amargurado, ele se vingou do jeito Lemmy: transou com cada uma das garotas de cada membro da banda. “Foi mais uma experiência educativa, pode-se dizer. Engulam essa, filhos da puta!”.

Era o começo do MOTORHEAD (ainda sem trema), cujo nome não foi escolhido por Lemmy (ele queria Bastard). Da mesma forma que o baixo, os vocais também foram assumidos ao acaso, afinal, não conseguia arrumar um bom vocalista. “Eu queria ser o MC5, só isso...eu queria estar em uma banda de cinco integrantes, acelerada e feroz, como eles”.

O começo não foi muito animador. Juntou uns músicos às pressas, apresentações com covers, algumas coisas do HAWKWIND e só.

A primeira baixa foi o baterista Lucas Fox que não segurou o rojão das drogas. Para o seu lugar, um garoto de 20 e poucos anos, ex-skinhead e hooligan do Leeds United, Phil Taylor (mais tarde Philthy Animal) que regravou as partes de bateria sem problemas. “Ele é um babaca horrível. Ele é perfeito”.

“On Parole” foi gravado por Lemmy, Larry Wallis e Phil Taylor em 1975, porém seu som era muito diferente do que vinha sendo feito: era mais metal do que QUEEN e LED ZEPPELIN e era punk antes do punk. A solução da gravadora? Colocar o disco na geladeira. Indefinidamente.

Enquanto isso, a banda seguia tocando e fazendo nome junto ao público. Phil encontra o segundo guitarrista, Eddie Clarke, que foi fazer um teste na banda e acabou ficando com a vaga de titular, já que Larry Wallis simplesmente desistiu.

Tudo pronto, certo? Na verdade, não. O primeiro ano foi de shows, contratos e críticas ruins. Por pouco, muito pouco, a banda acaba. Chegaram a marcar o que seria o último show no Marquee - sem grana nenhuma para aluguel dos equipamentos, tiveram de correr atrás de apoio. É claro que esse show não foi o último, pelo contrário, foi definitivo para que todos, incluindo a própria banda, acreditassem no seu potencial devido a receptividade do público.

Um novo contrato fez com que a banda gravasse “Motorhead” (1977), basicamente um “On Parole” regravado, sem as faixas do ex-Larry Wallis e o cover de “Leavig Here”. O disco atingiu a posição 43 na Top 75 do Reino Unido, um importante termômetro da época. A crítica gostou e as coisas começaram a dar certo, enfim.

Curiosidade: foi nessa época que Joe Petagno criou o famoso mascote Snaggletooth (javali de ferro, o bastardo ou o pequeno bastardo). Petagno tinha feito ilustrações para revistas de ficção científica e inclusive chegou a ser cogitado para fazer uma capa do HAWKWIND. Acabou que essa imagem se tornou um ícone, até mesmo no futebol ela é usada, no caso, pela torcida Galo Metal do Atlético-MG.

A banda muda de empresário e gravadora, mas as coisas deram uma nova esfriada. Chegaram a fazer apenas 8 shows no primeiro semestre de 1978. Voltam com o antigo empresário e assinam com a Bronze Records que acaba lançando o cover de “Louie, Louie” que impulsionou novamente a banda, conseguindo até uma aparição com playback no “Top Of The Pops”, famoso programa inglês da época.

A banda aproveitou a boa maré do trio “três amigos” por alguns anos. As composições eram sempre de Lemmy e Eddie, mas Phil levava créditos como parceiro. E foi dele a ideia de usar dois bumbos, algo incomum ainda mais naquela velocidade. O resultado? “Overkill”, um dos maiores sucessos da banda de todos os tempos, que plantou a semente do que viria a ser o thrash metal e inspirou muita gente, entre eles o ex-presidente do fã-clube norte americano do MOTORHEAD, um tal de Lars Ulrich: “Na primeira vez que ouvi “Overkill”, explodiu a porra da minha cabeça. Eu nem acreditava no que estava escutando. É claro que depois eu quis tocar assim também”.

“Overkill” (1979) foi um sucesso: garantiu um generoso adiantamento, alcançou a posição 24 no Top 30, conseguiram seu primeiro show internacional e foram de “pior banda do mundo” para capa da Sounds e resenha bajuladora na New Music Express.

Nessa época a banda também circulava com o público punk. “Sempre achei que tínhamos mais a ver com THE DAMNED do que com JUDAS PRIEST. Mais parecíamos uma banda punk do que de heavy metal”.

“Bomber” (1979) saiu poucos meses depois do antecessor. O disco subiu mais alto, atingindo a 12ª posição no Top 30. Outro ponto marcante foi o cenário do palco, simulando um bombardeiro Lancaster com assas bem largas onde o jogo de luzes se apoiava.

O leitor mais atento deve estar se perguntado “ele esqueceu de falar do On Parole”. Não meus caros, esse disco só foi lançado (também) em 1979! Deve ter sido um dos discos que mais tempo ficaram na geladeira. A ex-gravadora da banda, United Artists, “lembrou” de que tinha uma versão desse disco e o lançou. Esse sim um fracasso de vendas, porém acabou se tornando um item raríssimo.

Então, saiu “Ace Of Spades” (1980) fechando uma das maiores trincas de todos os tempos. Um sucesso: nova aparição no “Top Of The Pops”, críticas rasgadas e direto para a 4ª posição. Over The Tops!

Era a vez dos egos inflados. Os “três amigos” já implicavam entre si por coisas pequenas - coisa que toda banda passa quando a $orte muda, sabe? Uma turnê malsucedida pelos EUA também não ajudou em nada.

Se nos EUA as coisas iam de mal a pior, na Grã-Bretanha graças ao ótimo EP com o GIRLSCHOOL “St. Valentine´s Day Massacre”, eles vendiam 200 mil cópias, um recorde nunca mais batido.

Aproveitando o sucesso, o ao vivo “No Sleep 'til Hammersmith” (1981) foi direto para a posição número 1. Um disco sujo, barulhento e rock n´ roll recheado de clássicos. O título (Ninguém Dorme até Hammersmith) era uma piada interna sobre as 52 datas de shows com apenas 2 dias de folga. “Mas a gente não ligava, tinha muito speed. Todo mundo tomava, sabe? Os coitados do SAXON tentando acompanhar a gente. Eram viciados em chá”.

Depois de atingir o topo viria o mediano “Iron Fist” (1982). “Iron Fist foi o mais difícil porque estávamos ficando fracos das ideias e as coisas estavam bem tensas”. O resultado de saída foi bom: o disco chegou ao sexto lugar, mas depois desceu ladeira abaixo. Anos depois, Lemmy sentenciava: “É ruim, inferior a qualquer outra coisa que fizemos. Tinha pelo menos três músicas ali que eram inacabadas. Éramos arrogantes”.

A banda começa a ficar irritada com seu agente e rompe a parceria, afinal, eram o número 1 da parada, mas achavam que não ganhavam nem perto do que mereciam. Eddie capitaneava a insatisfação do trio, ameaçando pular fora diversas vezes.

Um racha foi feito de verdade quando Lemmy insistiu que a banda deveria fazer algo com Wendy O. Wiiliams, da banda THE PLASMATICS. Lemmy, além de gostar da postura da rebelde Wendy também pensava no MOTORHEAD abraçando um público diferente. Eddie foi contra desde o início e no estúdio não quis participar da gravação.

Aí a coisa degringolou de vez. Provocações de Lemmy para cima do esquentado Eddie e seu isolamento. A coisa chegou a ponto de Lemmy e Phil passarem o som e ficarem em camarins separados. Ao final de um show em Nova Iorque, Eddie vai ao camarim dos dois e recebe um sonoro “vai se foder” de Lemmy. Era o fim de Fast Eddie Clark no MOTORHEAD. ”Lemmy é Lemmy! Ele é um homem maravilhoso, com quem se sentar e se divertir. É um cara bom! Mas nunca superei se expulso da banda por ele. Nunca”.

Para seu lugar veio Brian Robertson, o Robbo do THIN LIZZY, por insistência de Phil. Robbo foi uma das trocas mais estranhas no rock: briguento, também usuário de drogas (mais que Eddie) e com um ego do tamanho do mundo. Tão brigão que ele não aceitava sequer usar o “uniforme” jaqueta de couro, camisa e calça preta. “Não gosto que me digam o que fazer. Ninguém, entendeu? ” Ok, ok...

O novo trio grava um dos mais renegados (e na minha opinião, subestimados) discos do MOTORHEAD: “Another Perfect Day” (1983). “Eu sempre achei que era um de nossos melhores discos, até então. Mas o que se pode fazer? Os garotos detestaram”, disse Lemmy anos depois que a poeira baixou. O disco foi uns dos menos vendidos da história da banda, talvez o segundo, após o debut. A pressão dos fãs que se sentiram traídos com aquela nova sonoridade e a não compreensão da imprensa com ele ajudaram muito nos maus resultados.

A turnê de divulgação foi um fracasso, chegando a ter parte cancelada pelas baixíssimas vendagens de ingressos. Robbo quase teve uma crise nervosa por conta dos abusos de álcool e chegou a ser enviado para casa para descansar. Acabou demitido por Lemmy e Phil. “Lemmy, eu adorava o cara e fico muito triste por ele ter morrido. Mesmo ele tendo sido um merda desprezível, ainda tenho muito amor pelo cara”.

Era hora de procurar outro guitarrista. Porém, no meio do processo, eis que Phil pula fora da banda para se juntar a...Robbo! “Estou fodido. A banda acabou...” disse Lemmy ao seu empresário Doug.

Uma nova formação - fato constante dali em diante - agora com quatro membros: Lemmy, Würzel, Phil Campbell e Pete Gill. O resultado é “Orgasmatron” (1986) o qual Lemmy dispara: “Sei que muitos fãs ainda gostam dele. Mas odiei totalmente”. A reação do público foi morna, o disco ficou no mesmo patamar de vendas do anterior.

Conseguem uma extensa tour pelos EUA tendo como abertura o MEGADETH. Só que as coisas não terminariam bem. O gerente de turnê do MOTORHEAD em uma discussão com o agente do MEGADETH bateu nesse com uma tábua e o deixou hospitalizado. Resultado: o MEGADETH, que estava muito bem nas vendagens, pulou fora da turnê imediatamente e o mico de lugares vazios nos EUA mais uma vez caiu no colo do MOTORHEAD.

Pete Gill foi a primeira baixa dessa fase, sem suportar o ego mega inflado de Lemmy. Para seu lugar...Phil Taylor, sim, o mesmo que havia desistido de tudo para formar uma nova banda com Robbo acabou voltando com o pires na mão.

Hora de gravar outro disco, era preciso buscar manter o nome vivo, mesmo sabendo que aquela trinca fantástica provavelmente nunca mais se repetiria. “Rock N´Roll” (1987) sequer chega ao Top 30 e os shows rarearam de vez para a banda. A culpa vai para o empresário, dono da gravadora e merchandising Doug Smith. A relação foi encerrada e nunca mais os dois se falaram.

O novo empresário, Phil Carson, que já havia cuidado da carreira de pesos pesados como AC/DC, LED ZEPPELIN e YES assume a missão de desfazer os resultados ruins.

Lemmy se muda da chuvosa e fria Inglaterra para Los Angeles com uma exigência: que o local não fosse longe do Rainbow Bar, lugar que ele adotou como sua segunda casa.

O primeiro lançamento pela poderosa Sony Music foi “1916” (1991). Se os grandes dias de “Top alguma coisa” ficaram para trás, pelo menos esse disco deu uma revigorada na banda. Ele chegou a ser indicado para o Grammy de 1992, mas acabou topando com o black album do METALLICA - aí ficou difícil competir.

Pouco depois, sai “March Or Die” (1992). Phil foi demitido tamanho seu estado deplorável. “Não podíamos confiar nele nem para tocar “Overkill”. Quer dizer, “Overkill”, a música que ele praticamente inventou, porra”. Para seu lugar, o habilidoso Mikkey Dee, ex-DOKKEN e HELLOWEEN que mudou de banda aceitando ganhar menos. Falando em ganhar menos, a Sony também reduziu as verbas da banda, mas em compensação entrou em cena Todd Singerman (depois de Sharon Osbourne declinar o convite para ser agente deles) um cara que realmente gostava da banda, fazendo artimanhas do tipo colocar pessoas para ligar nas rádios pedindo para tocar o single “I Ain´t No Nice Guy” que a gravadora de início relegou, mas mesmo assim teve boa repercussão. Chegaram até a gravar um clip para a balada, com SLASH e OZZY, porém, sem suporte, o vídeo passou meio batido na MTv.

Falando em OZZY, nessa mesma época Lemmy ajudou na letra de “Mama, I´m Coming Home”, um dos grandes sucessos do disco “No More Tears” (1991). “Ganhei mais com essa música do que com o MOTORHEAD na época”.

Nova baixa: Würzel, que simplesmente pegou suas coisas e deu no pé, do nada. Era a chance de Phil Campbell assumir de vez as guitarras e a banda voltar a ser um trio - esse sim capaz de bater de frente com o clássico Lemmy-Eddie-Phil. Mas Campbell não era dos mais fáceis no início. Assim como Eddie, ele vivia ameaçando sair da banda por qualquer motivo (seria mal de guitarristas?) até que um dia Lemmy deu uma colada nele: “Olha, você vai ter que parar de largar a banda ou eu vou largar você”. Problema resolvido, nunca mais houve ameaças.
Entre uma gravação e outra, se tornou cada vez mais comum encontrar Lemmy no Rainbow tomando seu Jack Daniel´s com Coca-Cola (dois terços whisky, um terço refrigerante), fumando Marlboro Red, jogando caça-níqueis e vez ou outra tirando fotos com fãs. A vida parecia boa, enfim.

Sua outra paixão ganha força nessa época: artigos de guerra, incluindo material nazista. Ao longo dos anos, ele chegou a juntar centenas de itens como adagas, capacetes, bandeiras e afins. “Quando você coleciona alguma coisa, quer algo que não tem. E enquanto coleciona, precisa entender do assunto. Mas eu não coleciono pelo valor monetário. Coleciono porque gosto”. Isso lhe rendeu problemas, como alegações de que seria nazista. “(A suástica) É um símbolo de boa sorte...era um lance de regeneração, as quatro estações. O ciclo. É isso que significa”. E quanto a usar uma como fundo de palco? “Não. Eu subo com uma Cruz de Ferro pendurada no pescoço...não tem nada a ver com Hitler. Na América, eles apontam e dizem suástica! Suástica? É uma porra de Cruz de Ferro, imbecil!”.

Os anos 90 chegavam a sua metade e uma tal de internet começava a dar as caras. “A internet é a morte da civilização. Transformará as pessoas em reclusas assustadas, como se já não estivesse bem ruim agora”. Mal sabia ele que em parte estava certo e que até mesmo os cd´s anos depois estariam correndo risco de desaparecer por conta do compartilhamento de arquivos que começava a engatinhar nessa época.

A partir desse ponto o autor começa a focar mais em fatos do que nos discos do MOTORHEAD, sendo que alguns são meramente citados, como “Snake Bite Love” (1998), “We Are Motorhead” (2000) e “Hammered” (2002).

Lemmy junta-se ao HAWKWIND para a celebração “Howkestra” com antigos e novos membros, entre eles o velho desafeto Dave Brock. Sua opinião depois do show foi curta e grossa “Foi a pior coisa que me meti”. Nada que um péssimo show e falta de sintonia não enterre de uma vez por todas uma esperança.

Um fato curioso é que, segundo Eddie Clarke, chegou-se a pensar na possibilidade do trio Lemmy-Eddie-Phil fazerem um acústico! “Íamos colocar garotas nos violoncelos de meias e ligas, ia ser incrível!”. Não é dito no livro o quão afetado de drogas estaria Eddie ou o porquê da “ideia” não ter ido para frente.

“Inferno” (2004), outro bom disco, marcaria o começo da parceria com o produtor Cameron Webb que duraria até o final da banda.

Em janeiro de 2005 finalmente o MOTORHEAD recebia o Grammy, mas não pelos ótimos discos do passado ou até mesmo pelo mais recente, mas sim por um cover do METALLICA! Ironia das ironias: o criador foi premiado porque venerou a criatura.

Seu fascínio com material da Segunda Guerra, especialmente os ligados ao nazismo, já o colocaram em situações embaraços: uma foi quando Al Jourgensen do MINISTRY entrou no ônibus da banda sem bater e deu de cara com Lemmy vestindo uma farda completa da Gestapo chicoteando uma garota nua. A outra, menos engraçada, foi quando ele tirou uma foto usando um quepe nazista justamente na véspera de uma apresentação da banda na Alemanha. O senso de humor (digamos assim) quase custou caro a ele, afinal é ilegal usar abertamente símbolos nazistas por lá segundo o Código Penal alemão.

“Kiss Of Death” (2006) continua a boa sequência de discos. “Somos uma das poucas bandas que não te decepcionam. Somos sempre verdadeiros. Nunca tivemos plano nenhum, só tocamos a música de que gostamos”.

Outra curiosidade revelada no livro: você sabia que Lemmy, que tanto falou e escreveu contra religiões, foi nomeado ministro? Acredite, ele era o reverendo Lemmy Kilmister - ok, ele foi ordenado pela internet, mas o que vale é o título.

“The World Is Yours” (2010) mostrava uma banda ainda com lenha para queimar. O disco foi muito bem recebido, chegando a ficar em 1º lugar nas paradas de metal e rock do Reino Unido e um respeitoso 4º lugar na para dos discos de hard rock da Billboard.

Nessa época Lemmy já tinha 65 anos e indagado sobre a faixa “I Know How To Die”, disse: “Aos 20 anos, você acha que é imortal. Aos 30, tem esperança de ser imortal. Aos 40 você só reza para que não doa demais e quando você chega na minha idade, passa a se convencer de que pode estar bem perto”.

Bom, é importante frisar que ele fumava diariamente em média 60 cigarros, era diabético, sedentário, bebia Jack Daniel´s com Coca-Cola quase todos os dias e ainda usava seu speed. “Tenho certeza de que todo mundo que passou a comer a merda do pão de nozes fica muito irritado com isso. Não faço nada para me manter me forma”. O velho jeito Lemmy de tratar as coisas sérias da vida.

Nos anos finais de sua vida, ele se aproxima muito do filho Paul Inder que só foi conhecer quando o garoto já tinha uns 6 anos. No ótimo documentário “Lemmy: 49% Motherfucker, 51% Son Of A Bitch” dá para ver algumas cenas bem legais dos dois juntos. Outra relação que ganha força é a com Cheryl Keuleman, que acabou sendo a mais duradoura. É possível achar na internet fotos deles em várias épocas, inclusive já no final da vida de Lemmy, bem magro e abatido com Cheryl ao seu lado.

No meio tempo, cria a banda de rockabilly THE HEAD CAT, mas acaba passando batida do público e crítica.

Em 2011, foi diagnostica uma perigosa arritmia cardíaca que poderia causar sua morte fulminante ou mesmo um derrame. Foi nessa época que ele fez a transição do Jack Daniel´s com Coca-Cola para vodka com suco de laranja - uma forma de manter a glicose sobre controle sem dar o braço a torcer para o vício - e diminuiu a quantidade de cigarros. Por conta de uma trombose e dos problemas citados antes, passa a tomar remédios controlados e tendo dificuldade de andar e ficar em pé por longos períodos.

A morte começava a chegar mais perto quando Würzel morreu aos 61 anos por doença cardíaca.

“Aftershock” (2013) é lançado, mas a turnê europeia teve algumas datas canceladas por problemas de saúde. Os comunicados da banda eram sempre amenos, como se fosse uma questão rotineira como uma laringite ou algo assim, mas as pessoas próximas já sabiam que as coisas tinham tomado um rumo perigoso. Cada cancelamento provocava nele sentimento de culpa e impotência “...ele sempre estava muito consciente de que as pessoas vinham economizando para seus shows, que tinham planejado a viagem e essas coisas”, revelou seu velho amigo Morat.

Os cancelamentos se seguiam, agora com frequência. A saúde debilitada já era pública e imprensa e fãs ficavam se perguntando “até quando Lemmy vai conseguir”?

Ainda se seguiram algumas datas em festivais importantes como o Coachella Valley e o cruzeiro da banda, o Motorhead´s Motorboat”, mas cada show exigia mais de Lemmy.

“Quase todos os meus sonhos foram realizados, não sobrou muita coisa. A maioria das pessoas nunca tem um sonho realizado, então eu tenho muita sorte e fico feliz com isso. Mas você não devia procurar a perfeição. Se você consegue um muito bom, porra, devia cair de joelhos para agradecer a alguém”.

“Bad Magic” (2015) foi o derradeiro disco do MOTORHEAD, uma saída honrosa da cena. Algumas letras são bem intimistas, como “Till The End”, praticamente uma carta aberta de despedida. O disco, que chegou ao Top 10 depois de quase 30 anos e ainda aplacou primeiro lugar na França e Alemanha, marcaria os 40 anos de banda e uma grande excursão comemorativa foi marcada.

Entretanto, as coisas começaram a ficar piores: mais cancelamentos de shows (incluindo o Monsters Of Rock em São Paulo), erro de letras das músicas ao vivo, saídas de palco no meio do show...os sinais eram óbvios: Lemmy, o imortal, estava definhando perante seu público, dando lugar a um homem de quase 70 anos que precisava de cuidados - mesmo contra a sua vontade.

Como se não bastasse o seu inferno pessoal, ainda veio outra notícia ruim: Phil Animal Taylor morria de falência hepática. A morte estava nos seus calcanhares.

Seus 70 anos foram comemorados antecipadamente (talvez temendo que ele não durasse até lá). O local da festa foi um de seus points favoritos: o bar Whisky A Go Go. Entre os presentes Matt Sorum, Slash e Duff McKagan (GUNS N´ ROSES), Lars Ulrich e Robert Trujillo (METALLICA), Scott Ian e Charlie Benante (ANTHRAX), Zakk Wylde, Billy Idol, Steve Vai, Sebastian Bach (SKID ROW), além de declarações em vídeo de Gene Simmons (KISS) e Billy Gibbons (ZZ TOP).

Dois dias depois de completar 70 anos, em 26 de dezembro de 2015, foi diagnostica um câncer inoperável e espalhado pelo seu corpo. Foi dada uma estimativa de vida de dois a seis meses, porém, apenas dois dias depois, Lemmy morria em silêncio, dormindo.

Nos tempos de mídia instantânea que vivemos, sua morte logo foi comunica aos quatro cantos e a reação de todos - fãs, músicos, ex-companheiros de banda, amigos, etc. - mesmo sabendo que aquilo era questão de tempo, foi devastadora. Milhares de homenagens e testemunhos foram feitos de diversas formas.

O funeral ocorreu dia 9 de janeiro em Hollywood. Ao final, seu velho baixo Rickenbaker foi colocado contra um amplificador Marshall e próximo a urna em forma de chapéu com suas cinzas.

“Não tenho arrependimentos. Não tem sentido se arrepender. É tarde demais para isso...estou muito feliz como as coisas aconteceram. Prefiro pensar que levei muita alegria a muita gente do mundo todo”.

Uma vez perguntaram a Lemmy qual legado ele deixaria. A resposta é curta e precisa: “Quando o MOTORHEAD partir, haverá um buraco que não poderá ser preenchido. Significa que cheguei ao que eu quis - que era fazer uma banda inesquecível de rock”.

Sem dúvidas, Lemmy. Ainda existem muitas bandas boas e outras tantas surgindo, porém, o MOTORHEAD atingiu um nível que poucas alcançam, nem tanto pelo sucesso, mas pelo carisma de seu líder e seus ótimos discos.

Born To Lose, Live To Win!

Lemmy: A biografia definitiva
Editora Globo Livros - 280 páginas
Preço médio: R$ 35,00

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Post de 11 de julho de 2017


Sobre Mário Pescada

Mineiro, leitor compulsivo, ouvinte de todas as vertentes do rock - do blues ao grindcore. Valoriza mais a honestidade e entrega em cima do palco do que a técnica. Guarda os flyers dos shows que vai como se fossem relíquias.

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