Patti Smith: precursora do punk em autobiografia

Compartilhar no FacebookCompartilhar no TwitterCompartilhar no G+

Por Genilson Alves
Enviar correções  |  Comentários  | 


5000 acessosDream Theater: semelhanças na capa de álbum?5000 acessosMetallica: a banda mais influente dos últimos 30 anos

A arte pode transcender a morte, ainda que incapaz de impedir a separação física entre o criador e seu objeto de inspiração. Durante anos, o fotógrafo Robert Mapplethorpe e a cantora Patti Smith mantiveram essa relação de artista e musa, seja como amantes ou apenas parceiros de trabalho; uma comunhão que duraria até 1989, quando Mapplethorpe perdeu sua luta contra a Aids, dois anos e meio após ter sido diagnosticado com a doença. Pouco antes de morrer, ouviu de Patti a promessa de que um dia ela escreveria a história dos dois; lembranças que foram registradas no livro “Só Garotos” (Companhia das Letras).

A partir das anotações de seu diário, Patti recorda o período vivido em Chicago, onde nasceu e de onde partiu, aos 20 anos, rumo a Nova York, deixando para trás família, estudos e um filho, fruto de uma gravidez indesejada. Inspirada por Joana d’Arc, Bob Dylan, Rimbaud e Baudelaire, a aspirante a escritora chegou à Grande Maçã em 1967, onde arranjou emprego numa livraria. Lá, conheceria Robert, um artista plástico em início de carreira. Encontraram-se pela segunda vez quase por acaso, quando Robert salvou Patti de um apuro no meio da rua. Logo se apaixonariam e viveriam sob o mesmo teto, compartilhando discos, livros e influenciando mutuamente suas criações.

Porém, nem tudo seria tranquilo nessa convivência. Sem conseguir vislumbrar um futuro nas artes e sem emprego fixo, a frustração de Robert só aumentava. Patti também teria de lidar com o processo de descoberta da homossexualidade de seu companheiro, que para ajudar a pagar as contas passou a exercer a atividade de michê. Após um breve período separado, o casal, em busca de inspiração e ascensão, se mudaria para o Chelsea Hotel, um lugar, segundo Patti, frequentado por “poetas viciados, dramaturgos, cineastas falidos e atores franceses”.

Em 1968, Patti ouviria seu primeiro chamado à música, durante um show do The Doors. No Chelsea, ainda teria contato com Jimi Hendrix, Jefferson Airplane, Johnny Winter e Bobby Neuwirth – um dos primeiros a incentivá-la a transformar seus poemas em versos musicais e que a apresentou, em junho de 1970, a Janis Joplin (pra quem escreveu uma canção, nunca gravada, já que a intérprete de “Piece Of My Heart” morreria alguns meses depois).

A jovem artista também conheceria nomes influentes da literatura, como os ícones beat William Burroughs e Allen Ginsberg (que a confundiu com um “menino bonito”), e das artes plásticas e dramáticas, em especial os habitués do restaurante Max´s Kansas City, um dos pontos descolados de Nova York na época, onde Robert acreditava que poderiam se inserir mais facilmente no círculo de Andy Warhol, expoente da pop art e um dos frequentadores vip do local.

Após algumas leituras públicas com o suporte do guitarrista Lenny Kaye – em que fundiam poesia e rock and roll – e elogiadas atuações no teatro, Patti se sentiria mais à vontade para cantar suas composições, e logo formaria uma banda com o próprio Lenny mais o pianista Richard Sohl. Com esse line-up, e contando com a ajuda de Tom Verlaine (Television) na segunda guitarra, gravariam o primeiro compacto no lendário Electric Lady Studios, de Jimi Hendrix.

“Temíamos que [o rock] perdesse seu propósito, que caísse em mãos aburguesadas, que patinasse no lodo do espetáculo, das finanças e da complexidade técnica insossa. (...) Nós pegaríamos em armas, as armas da nossa geração, a guitarra elétrica e o microfone”, idealizava Patti, antecipando a estética punk com o álbum “Horses”, de 1975.

Nessa época, Patti e Robert já não eram mais um casal, porém a admiração e a colaboração artística entre ambos permaneceram. Subsidiado pelo namorado – o mecenas e colecionador de arte Sam Wagstaff –, Robert pôde se aprofundar em seu trabalho com a fotografia, vindo a produzir algumas das fotos dos primeiros discos da cantora e ganhando notoriedade ao retratar desde famosos até o universo sadomasoquista/gay. Patti, por sua vez, após relacionamentos com o dramaturgo Sam Shepard e com o tecladista Allen Lanier, do Blue Öyster Cult, se casaria com Fred “Sonic” Smith, ex-guitarrista do MC-5.

A despeito de toda a agitação do período em que os dois protagonistas viveram juntos, “Só Garotos” não é um livro alegre, e dificilmente seria de outra forma, dadas as circunstâncias que levaram Patti a escrevê-lo. “Eu, destinada a viver, ouvindo atentamente um silêncio que demoraria uma vida para expressar”, desabafa. Robert, em seus últimos meses de vida, criaria a fundação que leva seu nome, com o intuito de promover a fotografia como arte e apoiar pesquisas de combate à Aids.

GosteiNão gostei

Compartilhar no FacebookCompartilhar no TwitterCompartilhar no G+

Os comentários são postados usando scripts e logins do FACEBOOK, não estão hospedados no Whiplash.Net, não refletem a opinião dos editores do site, não são previamente moderados, e são de autoria e responsabilidade dos usuários que os assinam. Caso considere justo que qualquer comentário seja apagado, entre em contato.

Respeite usuários e colaboradores, não seja chato, não seja agressivo, não provoque e não responda provocações; Prefira enviar correções pelo link de envio de correções. Trolls e chatos que quebram estas regras podem ser banidos. Denuncie e ajude a manter este espaço limpo.

0 acessosTodas as matérias e notícias sobre "Patti Smith"

VaticanoVaticano
Católicos enfurecidos com cantora punk no Natal

0 acessosTodas as matérias da seção Resenhas de Livros0 acessosTodas as matérias sobre "Patti Smith"

Dream TheaterDream Theater
Estranhas semelhanças na capa de álbum

MetallicaMetallica
"Iron Maiden foi a base de tudo que quisemos fazer"

Fotos de InfânciaFotos de Infância
Yngwie Malmsteen muito antes da fama

5000 acessosMetal: adolescentes que ouvem o gênero fazem mais sexo?5000 acessosHeavy Metal: as trinta maiores bandas de países diferentes5000 acessosNinguém é perfeito: os filhos "bastardos" de pais famosos5000 acessosLed Zeppelin: "não espero que haja mais shows", diz Page5000 acessosLobão: Detonando Heavy Metal, Bethânia, Chico, Herbert, Bizz e deus e mundo no novo livro5000 acessosMax Cavalera: Korn, FNM e Black Sabbath nas gravações do "Roots"

Sobre Genilson Alves

Genilson Alves é jornalista e autor do blog Radio Sehnsucht.

Mais matérias de Genilson Alves no Whiplash.Net.

Whiplash.Net é um site colaborativo. Todo o conteúdo é de responsabilidade de colaboradores voluntários citados em cada matéria, e não representam a opinião dos editores ou responsáveis pela manutenção do site, mas apenas dos autores e colaboradores citados. Em caso de quebra de copyright ou por qualquer motivo que julgue conveniente denuncie material impróprio e este será removido. Conheça a nossa Política de Privacidade.

Em fevereiro: 1.218.643 visitantes, 2.740.135 visitas, 6.216.850 pageviews.

Usuários online