Ramones: Coração Envenenado - Uma bomba-relógio
Por Cristiano Marlon Viteck
Postado em 16 de agosto de 2004
Considerada (e com razão!) uma das maiores bandas de rock da história, os Ramones encerraram sua carreira em 1996. Depois de mais de 2.200 shows, no dia 6 de agosto de 1996 o grupo que inventou o punk rock pisou pela última vez no palco, de onde saiu para entrar definitivamente para a galeria dos grandes do rock. Deixou também para trás uma história de brigas, drogas e desavenças de anos entre seus integrantes, contrastando com a imagem de uma família feliz que os Ramones vendiam para os fãs.
É até irônico pensar que uma banda como os Ramones, que quando foi formada em 1974 sem que nenhum membro entendesse muito além de nada sobre notas e acordes, conseguiu chegar lá no topo, criar um estilo revolucionário e atual até hoje como o punk e reunir uma legião de fãs ao redor do mundo a ponto de serem maiores do que os Beatles em países como a Argentina e, porque não arriscar, também no Brasil. Se bem que talvez eles nem se importassem com isso ou simplesmente não davam a mínima, depois de tudo o que passaram durante os seus 22 anos na estrada.
Para os Ramones valia a máxima de que "o simples é que é difícil". Sem muito jeito para firulas, solos ou técnicas instrumentais, o negócio dos caras era tocar o maior número possível de músicas no menor tempo possível, de preferência uma emendada na outra, separadas apenas pelo "one - two - three - four" gritado pelo baixista Dee Dee Ramone (e depois por CJ Ramone) para marcar o início da próxima música enquanto os acordes finais da última canção ainda podiam ser ouvidos pelo público, nessa hora provavelmente hipnotizados pelo ataque sonoro da banda, que conseguia apresentar cerca de 30 músicas em menos de uma hora.
Em agosto de 1974 os Ramones - na época Joey, Tommy, Dee Dee e Johnny - pisaram pela primeira vez no C.B.G.B., clube onde o grupo se apresentou mais de 200 vezes e fez a fama da casa, que existe até hoje. Marcando estes 30 anos, a estreante Editora Barracuda acaba de lançar no Brasil o livro "Coração Envenenado: minha vida com os Ramones". Trata-se da autobiografia do baixista Dee Dee Ramone, escrita em parceria com Verônica Kofman, cuja edição nacional conta com o prefácio assinado por André Barcinski, o maior entendedor no Brasil quando o assunto é "Ramones".
Partindo da infância difícil na Alemanha, para onde o seu pai (um oficial do exército americano) e sua família mudaram após a 2ª Guerra Mundial, o livro de Dee Dee Ramone resgata a sua vida marginal na adolescência já em Nova York, o início da formação dos Ramones, as incansáveis turnês, as brigas, a sua saída da banda em 1989 e vai até aquele que deveria ter sido o último show dos Ramones em Buenos Aires, em 16 de março de 1996.
Sobre o fim da banda, ele escreveu: "simplesmente me alegro que tenha acabado, embora tenha sido divertido, em parte". Na época do lançamento do livro na Inglaterra, em 1997, Dee Dee Ramone ainda trazia muitas mágoas em relação aos Ramones. Porém, nos últimos anos de sua vida algumas feridas começaram a ser curadas o que possibilitou inclusive participações como a de Marky, CJ e Joey em seus projetos solo.
Quando o baixista fundador dos Ramones morreu por overdose, em 6 de junho de 2002, ele estava com 50 anos e na ativa. Inclusive, estava de viagem marcada para o Rio Grande do Sul onde iria se apresentar ao lado do baterista Marky Ramone e do baixista CJ Ramone numa turnê com os gaúchos do Tequila Baby. A morte de Dee Dee Ramone pegou a todos de surpresa, inclusive seus amigos. Afinal, como ele deixou claro em "Coração Envenenado", na metade dos anos 90 ele estava longe das drogas pesadas. Mas Dee Dee não resistiu e foi vencido pela heroína, da qual fazia uso desde a adolescência. Como Dee Dee afirmou no livro, uma história sobre os Ramones não poderia jamais ter um final feliz. Então, por que o final de sua vida seria?
"Coração Envenenado" está aí para ser devorado por fãs e amantes da boa música em geral. Escrito do mesmo modo que suas canções, de forma direta, simples, mas transbordando emoção e personalidade, o livro é a história de alguém que aos 12 anos de idade já se considerava um fracassado, mas que mesmo assim conseguiu viver a vida à sua maneira, protegido do mundo apenas pelas lentes do seu óculos escuros e por aquela cara de mau que só ele conseguia ter. Esse deixou saudades...
CORACAO ENVENENADO
Editora Barracuda
Lançado originalmente na Inglaterra em 1997, Poison Heart. Surviving The Ramones, este acerto de contas com a própria vida, chega ao Brasil após a morte de seu autor, Dee Dee Ramone (Douglas Colvin, 1952-2002), ex-baixista e fundador dos Ramones.
Escrito em primeira pessoa, com a colaboração da jornalista Veronica Kofman, Coração Envenenado impressiona pela mistura entre o tom ingênuo e coloquial da narrativa e a pungência dos fatos narrados. Os demônios que atravessam o livro, aqueles que infernizaram a existência de seu autor e dos quais ele tenta se livrar ao escrever, nos falam também sobre a cena punk nova-iorquina, sobretudo nos anos 70, e a conquista da Inglaterra, o berço do movimento; e o fazem como se fôssemos, nós leitores, seus camaradas. Não há, portanto, um grande tratado sobre a história da música, do rock ou do punk neste livro. Não cabe aqui tal distanciamento.
O que há é alguém, uma personagem de fato histórica, falando sobre sua infância na Alemanha pós Segunda Guerra, sua família desestruturada, a iniciação tão prematura nas drogas, a adolescência no Queens, a formação da banda, seus amigos, namoradas e desafetos, seus vícios e as tentativas de se livrar deles, seus problemas de adaptação ao mundo.
Terminada a leitura deste relato tão honesto quanto subjetivo, temos um quadro completo na mente, como se tivéssemos, a partir de então, acesso a meandros históricos que não nos poderiam ter sido revelados de outra forma.
Receba novidades do Whiplash.NetWhatsAppTelegramFacebookInstagramTwitterYouTubeGoogle NewsE-MailApps



Após cancelamento de turnê do Deep Purple, Ian Gillan passa por procedimento
Tarja descobre fenômeno de "Então é Natal" no Brasil e reage: "Você me deu um desafio"
O álbum clássico do Metallica que não trazia as melhores músicas da banda e sim as únicas
Baterista John Tempesta anuncia sua saída do The Cult
Namorada de Vince Neil é presa sob acusação de agressão ao vocalista do Mötley Crüe
Resurrection Fest anuncia primeiras 72 atrações para edição 2027
Os três melhores discos do Black Sabbath, de acordo com a Classic Rock
O único ex-colega do Deep Purple que David Coverdale considera um irmão
De Black Sabbath a Gojira, 10 músicas que começam com riffs de guitarra inesquecíveis
Músicos falam sobre emoção de retornar aos palcos com o Nevermore
O álbum de 1968 que Regis Tadeu mudou de opinião e passou a gostar: "Entendo o contexto"
Angra, Raimundos e RATM - três discos que marcaram o rock e chegaram no mesmo dia
O hábito que custou o lugar de Clive Burr no Iron Maiden, segundo Regis Tadeu
Richard Lloyd, icônico guitarrista do Television, morre aos 75 anos
O guitarrista que Peter Frampton se recusou a imitar no começo da carreira


Livro detalha a importância do ano de 1977 para o punk rock
O clássico dos Ramones inspirado por música de Alice Cooper
O que Johnny Ramone nunca conseguiu entender sobre o grunge
Cinco nomes importantes do punk que John Lydon não suporta, incluindo o Green Day
10 músicas para você ouvir enquanto se recupera de uma doença
A melhor música dos Ramones, em lista da Paste Magazine
A música dos Ramones que provavelmente seria "cancelada" nos dias atuais
As 25 melhores músicas dos Ramones, em lista da Paste Magazine
Perfil oficial indica músicas do Ramones para quem nunca ouviu a banda
Dark Side of the Moon: os Bastidores da obra-prima


