Alcest: "Não espero que vocês realmente entendam o significado das letras"

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Por Leonardo Daniel Tavares da Silva, Fonte: Daniel Tavares c/ AlcestBrasil
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Pouco antes do Overload Festival, que aconteceu em São Paulo no início de setembro, tivemos a oportunidade de bater um longo papo com Stéphane Paut, mais conhecido como Neige, a alma da banda francesa de blackgaze ALCEST. Naquela tarde, conversamos principalmente sobre o festival, mas não publicamos a conversa na íntegra. A partir de agora você acompanha a segunda parte da entrevista com Neige, abordando principalmente o novo disco (a ser lançado em 30 de setembro) e vários outros assuntos (com perguntas que o Alcest Brasil gentilmente me enviou).

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Daniel Tavares: Em primeiro lugar, deixe-me te dizer que "Oiseaux de Proie" é espetacular. Esta é a única canção que eu ouvi do seu novo álbum. Eu acredito que é a única canção que vocês lançaram até agora.

Neige: Obrigado. A gente acabou de lançar uma nova canção e esse é o motivo pelo qual eu me atrasei para a entrevista. Eu acabei de postá-la, então você terá uma outra para ouvir também.

Daniel Tavares: Vocês sempre escrevem em francês, sua língua nativa, que eu saiba. Você acha que isso dificulta ter mais fãs de países que falam inglês, como a Inglaterra e os Estados Unidos.

Neige: Você quer dizer quanto a eles entenderem a música do ALCEST?

Daniel Tavares: Por exemplo, o nome da canção "Oiseaux de Proie", eu acho que significa Aves de Rapina. Muitas bandas, como por exemplo os SCORPIONS, são alemães, mas escrevem em inglês. Mas você cantar em francês na maior parte do tempo faz com que seja mais difícil ter fãs que falem inglês, como as pessoas da Inglaterra, dos Estados Unidos e de parte do Canadá?

Neige: Sim. O negócio é que eu uso o francês porque é minha língua natal e eu me sinto mais confortável com o francês, mas, na verdade, mesmo os franceses não entendem as letras porque os vocais ficam muito baixos na mixagem. Na verdade, os vocais são um pouco como outro instrumento, sabe? É apenas como se fosse uma guitarra, etc. Então, não espero que vocês realmente entendam o significado das letras de qualquer forma. Assim, não acho que seja um problema para pessoas estrangeiras apreciar o ALCEST mesmo que eles não falem francês, porque eu acho que é meio que...eu quero dizer... por exemplo, a França é o país em que menos tocamos e temos o menor reconhecimento. A maior parte do reconhecimento que temos é do resto do mundo. Eu diria que esta é meio que uma banda internacional.

Daniel Tavares: Não é um problema pra mim, porque gosto da música. É muito boa. "Kodama", o nome é em japonês. O que significa? Você tem se interessado pela cultura japonesa ultimamente. Por que você decidiu gravar um álbum baseado na cultura japonesa? O que você mais admira nos pontos de vista japoneses sobre a vida?

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Neige: Sim. É uma longa estória de amor com o Japão. Quando eu estava crescendo, muitos garotos da minha idade cresciam com desenhos animados japoneses na TV porque, eu não sei, a TV da França tinha algum tipo de conexão com o Japão, algo assim, e importava esses desenhos. Nós éramos muito jovens e olhávamos esses programas e realmente não os entendíamos porque eles eram tão diferentes da cultura francesa. Tudo era tão diferente nessas animações. E eu acho que muitos garotos como eu eram muito fascinados por eles. Era como se viessem de outro mundo. Era tão especial. E desde então eu fiquei muito interessado pela cultura japonesa. E o fato de que fomos com a banda para o Japão duas vezes foi realmente ótimo. Tudo o que eu sentia sobre o Japão era realmente verdadeiro. É tão diferente o relacionamento entre as pessoas, o conceito de sociedade, natureza, vida...a comida é diferente. É um mundo diferente. É muito inspirador para um músico visitar um lugar assim. E quando voltamos do Japão decidimos fazer algo com esta influência. O "Kodama" não é sobre o Japão ou um álbum conceitual sobre o Japão. Existe apenas um pouco disso na França, porque eu não queria fingir que éramos uma banda japonesa ou que fazemos música japonesa. Nós não somos japoneses. Eu só queria fazer uma pequena conexão entre a arte e estética japonesa com o estilo do ALCEST.

Daniel Tavares: Sobre o seu último álbum, o último que vocês realmente lançaram, apesar de ser um álbum brilhante (eu gostei bastante dele), o "Shelter" recebeu algumas críticas negativas, algo de "este não é um álbum do ALCEST", as pessoas diziam que era feliz demais. Apesar de que essas críticas possam ser injustas, você acha que o novo álbum vai responder, de alguma forma, a essas críticas?

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Neige: Eu acho que sim. Eu só recebi uns poucos feedbacks até agora e as pessoas parecem estar muito felizes de que nós tenhamos voltado para um som mais intenso, sabe? O "Shelter", eu quis fazer este álbum, eu quero dizer, eu queria ter alegria com este álbum. E eu queria usar minhas influências dreampop e shoegaze na música do ALCEST e talvez este álbum, "Shelter", seja um pouco menos pessoal. Então, talvez seja por isso que as pessoas não gostaram dele. Mas é engraçado que, de um lado nós tenhamos pessoas que não gostaram do "Shelter" e de outro lado, tenhamos pessoas para quem o "Shelter" seja o seu álbum favorito, que o amaram. É muito contrastante. O feedback para o "Shelter" foi bem estranho, bem misturado. E eu acho que com o "Kodama", alguns dos nossos fãs mais antigos vão ficar felizes porque o álbum traz novos elementos também. Eu não acho que é apenas a repetição do nosso som mais velho, eu acho que é bem novo, mas tem muitas coisas que usamos no passado, como os vocais gritados, alguns blast beats, etc. Eu acho que é bem moderno. É bem novo.

[Esta entrevista foi realizada antes do festival Overload, que contou com ALCEST, KATATONIA, LABIRINTO e Vicent Cavagnah, no início de setembro, na capital paulista. Eu havia perguntado também para Neige, se eles tocariam alguma canção do Kodama. Ele me respondeu que não. "Estas canções vão se juntar à turnê em outubro ou novembro. Vamos entrar em turnê com o MONO e, então, claro, vamos querer voltar pra América do Norte e América do Sul. Mas vai demorar um pouco", disse ele. Você confere a primeira parte desta entrevista no link abaixo]

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Confira também a resenha do festival, pelos meus amigos Diego Câmara e Fernando Yokota.

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Daniel Tavares: O termo Blackgaze vem de Shoegaze, que vem de "tocar olhando pros sabatos", que vem de timidez. Depois de tantos anos com o ALCEST, tendo tocado em tantos países diferentes, para tantas multidões, em tantos lugares diferentes, você ainda se considera tímido (se é que já se considerou tímido alguma vez)?

Neige: Eu não entendi a palavra?

Daniel Tavares: Tímido.

Neige: Tímido, você pode escrever a palavra? Ah, tímido, desculpe. Depende. Isso realmente do show. Eu acho que eu realmente fiquei melhor porque no começo eu era muito tímido, mas eu ainda tenho essa tensão quando subo ao palco. Eu sempre tenho este medo de não ser tão bom quanto eu gostaria de ser e tenho medo de que as pessoas não gostem, sabe? Eu sou muito crítico em relação a mim mesmo. Eu realmente quero dar o melhor sempre. Eu não acho que seja tímido, acho que seja mais é uma pessoa ansiosa.

Daniel Tavares: Eu tenho algumas questões de...você tem um grande fã-clube no Brasil, que é chamado Alcest Brasil. Eu tenho algumas questões que vem do fã-clube e eu gostaria de te perguntar. Victor Hugo Sampaio gostaria de saber sobre as suas inspirações que não são musicais: livros, autores, poesias experiências de vida e pessoas que, direta ou indiretamente, contribuem no processo de inspiração para composição das músicas.

Neige: Muitas coisas me inspiram. A coisa mais importante, a razão porque eu criei o ALCEST é para falar dessa experiência espiritual que eu tive quando era criança. Eu tive algo que realmente deixou uma grande impressão em mim e mudou a minha vida de uma forma que eu estava sentindo como se eu ainda lembrasse do lugar em que eu estava antes de estar aqui. Eu tenho essas memórias em mim. E foi muito, muito estranho, muito forte. E quando eu me tornei adolescente eu decidi criar o ALCEST para ser capaz de falar sobre isso. Então, esta é minha principal inspiração. Também a natureza, a conexão que eu tenho com a natureza, porque ela me permite entrar em contato com este lado mais espiritual que eu tenho e, fora disso, eu diria que muitas coisas, como filmes, como por exemplo, "Princesa Mononoke", o filme que, de certa forma, inspirou o "Kodama". Todos os filmes do Hayao Miyazaki... eu amo filmes como, não sei, "Beleza Americana" por exemplo. Eu realmente amava esse filme. Estou tentando lembrar... filmes como "Contato" ou... Eu tinha uma lista que fiz de filmes que realmente me inspiraram mas eu não tenho agora. [risos] E pinturas, eu sou apaixonado por ilustrações então artistas como Waterhouse, por exemplo... alguns artistas do século XIX... também ilustradores, como o Arthur Rackham... ele nos inspirou para a capa de "Écailles de Lune", naturalmente...Então eu sou muito apaixonado por arte...Julia Margaret Cameron, na fotografia, também. Nós usamos uma fotografia dela no primeiro EP, "Le Secret"... Em livros, quando eu era um estudante, eu realmente amava o Les Fleurs du mal [As Flores do Mal], do Baudelaire e eu cheguei a usar dois poemas para o ALCEST... Ou talvez apenas um. E outro poema em outro projeto, mas, de qualquer forma, a canção "Élévation" [do EP "Le Secret"] é deste livro... eu digo, a letra...e muitas coisas...as viagens também... nós viajamos muito e isso é muito inspirador, certamente. Sou inspirado por tantas coisas, sabe?

Daniel Tavares: Ok, esta vai para o VITOR hugo Sampaio. Agora, TALITA Rodrigues, queria saber qual foi a sensaçao do neige em estar presente no primeiro show com banda completa da namorada dele, como ele se sentiu em participar de um momento tao especial na vida dela?

Neige: Sylvaine, você quer dizer? Sim, foi muito forte e ótimo compartilhar este primeiro show juntos. Na verdade, foi um show acústico, então foi bem especial. [Perdemos o contato por alguns segundos, depois Neige continuou] Foi há algumas semanas atrás, na Romenia, e eu toquei bateria pra ela. Então, nós realmente estávamos no palco juntos.

Daniel Tavares: ok, GABRIEL Cardoso gostaria de saber se tem alguma chance do Amesoeurs voltar.

Neige: Não. Não. Eu não sei quantas vezes as pessoas me perguntam esta questão, mas a resposta ainda é não. [Ao ler esta entrevista, pode parecer que Neige foi bem seco na resposta. Não foi o que aconteceu. Perdemos o contato mais uma vez por alguns segundos].

Daniel Tavares: Estas foram as perguntas do fã-clube Alcest Brasil. Eu ainda tenho algumas respostas também. Você vai trazer a Sylvaine? Ela vai se tornar uma membro efetiva da banda?

Neige: No ALCEST, você quer dizer? Não. Eu sou o único compositor no ALCEST. Na verdade, ela fez uma participação especial na canção "Kodama", no próximo álbum, mas é mais como uma convidada, não participou na composição. E é isso.

[Neige estava sendo muito atencioso e percebi que poderia "abusar" do artista e incluir mais uma das perguntas enviadas pelo fã-clube]

Daniel Tavares: E a última questão do fã-clube, Well Cavalcante gostaria de saber como é relação da banda com a cena Black Metal parisiense e quais as bandas, se houverem, que formam parcerias com a Alcest.

Neige: Eu tenho alguns amigos que tocam em bandas de black metal em Paris, mas eu não sou muito fã do Black Metal de hoje em dia. Eu quero dizer, eu gosto de Black Metal, mas eu tendo a gostar mais das bandas que originaram a cena no início dos anos 90. Eu sou um pouco old-school para o Black Metal. E eu não escuto muito Black Metal na verdade. Então, eu não sei, provavelmente não muitas bandas de Paris, mas eu sei que nós temos muitas bandas boas na França, como BLUT AUS NORD, DEATHSPELL OMEGA, mas elas não são de Paris.

Daniel Tavares: Estamos chegando ao final de nossa entrevista, mas há ainda uma questão que eu gostaria de fazer. Esta é uma questão que faço para todos os meus entrevistados. Como sou brasileiro, gostaria de saber se há alguma banda brasileira ou músico brasileiro que tenha tido alguma influência na sua música, ou estilo de tocar, ou que você goste, escute na sua casa.

Neige: Quando eu era adolescente, eu realmente gostava de SEPULTURA, assim como todo mundo, eu acho [risos] Então, sim, e, não acho que eles sejam do Brasil, o KRISIUN. Eles são do Brasil.

Daniel Tavares: Sim.

Neige: Eu tinha esse álbum quando eu era adolescente também. Quais as maiores bandas no Brasil nestes dias [Agora a entrevista se inverte e o entrevistador vira entrevistado. Não estava preparado pra isso. Poderia ter falado um sem-número de bandas, ANGRA, KORZUS, SARCOFAGO, TORTURE SQUAD, VIOLATOR, as cearenses SOH, OBSKURE, DARK SYDE, mas fiquei só procurando alguma que parecesse com o próprio ALCEST. Só lembrei da LABIRINTO, que dividiria o palco com os franceses no Overload] É uma vergonha que a mídia metal não fale muito da cena brasileira.

Daniel Tavares: É também difícil pra mim indicar nomes, porque tantos nomes vem à minha mente que é difícil escolher um nome ou dois. Ok, agora eu gostaria que você enviasse uma mensagem aos seus fãs brasileiros e os convidasse para o Overload Festival para vê-los tocar. [Esta pergunta já saiu na outra parte da entrevista, mas vamos repetir aqui para concluirmos bem a matéria]

Neige: Então, para os fãs brasileiros do ALCEST e para o fã-clube brasileiro do ALCEST, nós amamos muito vocês. Muito obrigado por gostarem do ALCEST. Nós somos realmente gratos e não podemos esperar para vê-los no show do ALCEST no Brasil e, sim, nós esperamos que possamos nos divertir, conversar e tudo mais, ter alegria. Esperamos vê-los muito em breve.

Daniel Tavares: Ce fut un plaisir de parler avec vous.

Neige: Ah, merci, merci beaucoup.

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Sobre Leonardo Daniel Tavares da Silva

Daniel Tavares nasceu quando as melhores bandas estavam sobre a Terra (os anos 70), não sabe tocar nenhum instrumento (com exceção de batucar os dedos na mesa do computador ou os pés no chão) e nem sabe que a próxima nota depois do Dó é o Ré, mas é consumidor voraz de música desde quando o cão era menino. Quando adolescente, voltava a pé da escola, economizando o dinheiro para comprar fitas e gravar nelas os seus discos favoritos de metal. Aprendeu a falar inglês pra saber o que o Axl Rose dizia quando sua banda era boa. Gosta de falar dos discos que escuta e procura em seus textos apoiar a cena musical de Fortaleza, cidade onde mora. É apaixonado pela Sílvia Amora (com quem casou após levar fora dela por 13 anos) e pai do João Daniel, de 1 ano (que gosta de dormir ouvindo Iron Maiden).

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