Som Nosso de Cada Dia: Entrevista exclusiva com Pedro Baldanza

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Por: Marcos A.M.Cruz
Agradecimento especial a Rodrigo Werneck

"Essa obsessão de chegar
O terror de não vir a ser o que se pensa(...)"

Com certeza reside na mente de todos roqueiros brasileiros que viveram os anos setenta (e muitos que vieram depois) os versos acima, que abrem "Sinal da Paranóia", faixa do "Snegs", primeiro e lendário álbum do SOM NOSSO DE CADA DIA, lançado em 1974, mesma época em que a banda fez a abertura para os shows da turnê de ALICE COOPER pelo nosso país (uma matéria completa sobre o evento está disponível na atual edição do Poeira Zine - acesse www.poeirazine.com para mais detalhes).

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Após três anos, inúmeros shows e algumas mudanças de formação, é lançado "Som Nosso", disco que continha um lado "Progressivo" e outro "Funk", antenado com o que fazia a cabeça do pessoal na época. Seus integrantes seguem então por caminhos distintos, passando o baixista/vocalista Pedro Baldanza a tocar com ELIS REGINA, NEY MATOGROSSO e SÁ & GUARABIRA, entre outros, até que em junho de 1993 o trio original, que contava ainda com Manito nos teclados e Pedrinho na bateria e vocal, se reúne para gravar uma faixa inédita ("O Guarani"), editada como bônus no relançamento em CD do "Snegs".

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Esta reunião rende ainda duas apresentações nos dois primeiros dias de outubro de 1994, ocasião em que o trio, acompanhado de Jean Trad na guitarra e Homero Lotito nos teclados, registra um CD ao vivo, "Live '94", que infelizmente marca a despedida de Pedrinho, falecido pouco tempo depois.

Dez anos se passariam até que, em parte ocasionado pelo surgimento de um bootleg trazendo a gravação de um show realizado em setembro de 1976, decide-se que é chegada a hora de editar um disco ao vivo oficial: o resultado é o "A Procura da Essência - (Ao Vivo 1975-1976)", lançado pela Editio Princeps (www.editioprinceps.com), CD duplo que compila apresentações realizadas neste período, cuidadosamente selecionadas pelos próprios músicos dentre as fitas de melhor qualidade sonora existentes, e que além de diversas improvisações e versões expandidas de antigos clássicos, conta ainda com versões inéditas de faixas da suíte "Amazônia", pertencente ao que teria sido o segundo álbum da banda, gravado em 1975 mas até hoje inédito.

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Aproveitando as três décadas de lançamento do "Snegs" e o CD duplo ao vivo, Baldanza montou uma banda-tributo com músicos convidados, e registrou em estúdio várias canções inéditas, que vão ser lançadas ainda este ano, e serão acompanhadas de uma série de shows, ao mesmo tempo em que atua no MAHABANDA, ao lado do guitarrista Rodrigo Roviralta, e promove diversos Workshops apresentando os baixos D'Alegria (www.dalegria.com), que conta com Trevor Bolder (URIAH HEEP) e Felipe Andreoli (ANGRA) como endorsers.

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Apesar de todas estas atividades, Pedro arrumou um tempo para nos honrar com um pequeno bate-papo, onde com muito bom humor e simpatia desmentiu algumas lendas e contou histórias interessantíssimas:


WHIPLASH - Pedrão, por favor nos fale um pouco sobre sua trajetória antes do Som Nosso: sabe-se que, dentre outras coisas, você andou tocando com Walter Franco e integrou por algum tempo o Novos Baianos, é isso mesmo?

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PB / Sim é verdade. Eu iniciei na música muito cedo e após histórias que eu já contei várias vezes, eu fiz bailes no ABC no final dos anos sessenta - 68, 69, por aí. A banda chamava-se Enigmas e a princípio era um trio: eu, Jean e Odair Cabeça de Poeta. Depois entrou Pepeu e juntos acompanhamos os Novos Baianos na primeira vinda deles para São Paulo e isso durou mais ou menos dois anos que, juro prá você, me parecem hoje em dia uma grande e incrível viagem muito proveitosa tanto musicalmente quanto como experiência de vida. Por várias razões eu não segui a rapaziada para o Rio onde eles decolaram para o sucesso. Eu fiquei e logo no meu caminho aconteceu Walter Franco, também uma experiência muito interessante bem dentro do experimentalismo que eu começava a perseguir.

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WHIPLASH - Algumas fontes dizem que o embrião do SNCD, a banda Kabala, teria surgido em 1970, já na época contando com o trio Pedrão, Pedrinho e Manito, além de vários outros músicos, e que antes do Secos & Molhados já apareciam com os rostos pintados nos cartazes promocionais; porém outras afirmam que a tal banda só seria formada em 1973, portanto parece que está havendo um pequeno equívoco nas datas...

PB / Não, não... esta história é a seguinte: Manito, quando saiu dos Incríveis naquela época, acho eu que foi em 71, queria montar uma grande banda de baile, que tivesse metais, percussão, bailarinos etc. Quando eu fui lá na casa que ele tinha alugado e onde morava o Pedrinho batera, só tinha desta história uma pequena vontade e apenas um embrião que era Pedrinho, Manito e Zapata. Isto não durou muito tempo e logo estávamos ensaiando as canções que formariam o primeiro repertório do Som Nosso.

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Esta história de cara pintada é lenda. Haviam algumas fotos do Manito e do Zapata, ainda da formação dos Incríveis, onde eles apareciam com o rosto bastante maquiado, mas como alusão ao circo. Verdade seja dita: esta história de pintura nos rostos é uma invenção dos Secos & Molhados. O Bloco Cabala, como seria chamado, não durou mais do que alguns meses e nem sequer chegou a tocar em lugar nenhum a não ser em alguns ensaios no mocó.

WHIPLASH - Diz-se que a idéia era que o pessoal do Mutantes faria a abertura para os shows que Alice Cooper realizaria no Brasil em 1974, mas eles teriam pedido um cachê meio alto, ao passo que o SNCD não recebeu absolutamente nada... é verdade? Como surgiu o convite?

PB / Isto é outra lenda! A história certa é a seguinte: quando da vinda de Alice, como era de praxe, eles pediram para conhecer algumas bandas brasileiras para que esta abrisse o show para eles. Foi enviado por parte dos empresários material de bandas nacionais para que eles avaliassem, e para nossa sorte o Som Nosso foi escolhido. Tudo muito simples, sem mistério nenhum, e veja bem: nós recebemos um cachê que era bem pequeno, apenas para despesas, mas para a gente valia a pena fazer o show e, que eu saiba, nunca existiu esta história de cachê alto pedido pelos Mutantes, porque nem foram cogitados nos papos que o Marcos Lázaro teve com a gente.

WHIPLASH - O "Snegs" foi gravado em menos de uma semana, portanto as composições já estavam prontas há algum tempo ou houve alguma música preparada a toque de caixa para o álbum? Até que ponto os shows com Alice Cooper impulsionaram o lançamento do disco, ocorrido três meses depois (N.DO ED.: julho de 1974)?

PB / O "Snegs" já estava gravado desde o final de 73 e realmente foi gravado em uma semana num estúdio que inclusive tinha um problema na mesa que impedia a gente de utilizar o recurso de Pam, aquela coisa do estéreo passar de um canal para outro, e tudo estava pronto mas os caras só realmente acreditaram quando viram o resultado de nossas apresentações na dita abertura, aí é que eles perceberam que tinham na mão algo diferente.

WHIPLASH - Paulinho Machado, aka Capitão Fuguete, sempre esteve bastante próximo, tendo sido um dos "mentores intelectuais" da banda. Entretanto, é verdade que ele adotou este pseudônimo para não ter seu nome associado a um grupo de Rock, sob pressão da empresa em que trabalhava (N.DO ED: Editora Abril)?

PB / Não, em hipótese nenhuma! Isso é lenda, Capitão sempre usou o pseudônimo muito antes inclusive do Fuguete, de uma banda do Sul (N.DO ED.: ele está se referindo a Fuguett Luz, integrante do Bixo da Seda).


WHIPLASH - Porquê tocar Rock Progressivo? Não teria sido mais natural enveredar pelo lado da MPB ou mesmo do Rock'n'Roll? A impressão que se têm é que a maioria dos músicos brasileiros da época eram mais afeitos a Yes e Genesis do que ao Led Zeppelin e Deep Purple, por exemplo...

PB / Na verdade a rapaziada que se ligou no Progressivo não tinha muito definida a fronteira entre os grupos estilos, etc, então gostava do mix de tudo isto e é claro cada um colocando sua pitada de criatividade. Quer dizer, bebia-se desde rock, Led a James Brown passando por Debussi e Carlos Gomes, entre outros.

WHIPLASH - Uma curiosidade que tenho há anos: aquela "paradinha" no meio de "Sinal da Paranóia" foi inspirada em "21 St. Century Man", do King Crimson?

PB / Meu bom cumpadre... não, eu nem conhecia este tema do Crimson e te juro que quero ouvi-lo para sacar isto, que eu realmente não sei! (risos)

WHIPLASH - Não esquente, deve ser "viagem" minha (risos)... Pedrão, fale um pouco sobre a ópera Amazônia: pelo que entendi, o "álbum perdido", gravado em 1975 e nunca lançado, teria uma suíte com "Amazônia" de um lado do disco e as composições "progressivas" que apareceriam no álbum de 1977 do outro lado, seria esta a idéia?

PB / Não era bem assim, o disco foi bancado pela gente no estúdio do Rogério Duprat através do nosso produtor na época, o Butika, que foi quem batalhou para que a gente fizesse o trabalho "Amazônia" como a gente queria, pois a gravadora Continental, com a qual a gente tinha contrato na época, não quis bancar o nosso trabalho por achá-lo nada comercial, mas éramos abusados e fizemos o trabalho mesmo assim!

Daí prá variar nos ferramos, porque precisávamos pagar o estúdio e não conseguimos ninguém que nos ajudasse, a não ser a CBS por meio de um amigo nosso, o Toni Bizarro, que prá pagar o estúdio impôs para nós a condição de que teríamos que gravar os nossos Funks que ele gostava muito e que era uma onda que eu e o Pedrinho curtíamos porque tanto eu quanto ele tínhamos tocado nas bocas e o gênero já era muito curtido pela rapaziada da noite por ser uma música quente, vibrante e muito sensual, e nós compusemos muitos Funks de brincadeira que a gente gostava de curtir, inclusive ainda existem alguns que são inéditos e bastante apropriados para a época atual.

Mas o que aconteceu é que com isso desvirtuou-se nossa vertente Progressiva, e apenas uma parte, aquela considerada por eles como a mais comercial, saiu no Lado B. Mas esse disco ainda existe, o Butika tem este trabalho já salvo e masterizado, quem sabe de repente não rola uma surpresa para os fãs?

WHIPLASH - Tomara! (risos). Olha só... os detratores adoram dizer que o Progressivo estava moribundo no final dos anos setenta, e já ouvi alguém dizendo que a migração das principais bandas para outros gêneros é uma comprovação efetiva deste fato... no caso do SNCD, a questão era meramente financeira ou vocês, como banda, estavam mesmo antenados com o movimento Black Rio? Os shows nesta época só contavam com canções Funk-Soul ou era tudo mesclado?

PB / Eu na verdade nunca fui muito chegado nessa coisa de enquadrar estilos, essa visão que temos de enquadrar de um jeito prá entender não é comigo. A música bate na alma da gente e independe dessas visões que apenas diminuem o verdadeiro sentido da expressão. Veja bem: eu sempre gostei de mesclar estilos musicais, prá mim isto é progressão, a Música Progressiva no meu entender é bem mais ampla do que essa coisa de Rock Sinfônico. Ela pode comportar no seu seio desde musica erudita até Funk do subúrbio carioca passando assim por todas as ondas musicais que existem - em resumo, não tem fronteira. O SNCD sempre trilhou por este caminho, por isso fazer Funk prá gente era parte do momento que estávamos passando, em geral todo mundo que ouvia gostava e - veja bem - a banda Black-Rio (N.DO ED.: famosa banda Funk do final da década de setenta do Rio de Janeiro) foi batizada com o nome de uma canção do SNCD, o que aliás muito nos honrou. Eu sempre considerei o Oberdan Magalhães (N.DO ED.: um dos mentores da banda Black Rio) um grande músico e bandleader genial, além de uma grande figura humana. Por essas razões é que a gente sempre acreditou na fusão dos estilos e sons.


WHIPLASH - Havia algum projeto de prosseguir na estrada após os dois shows que renderam o CD "Live '94"? Como foi a sensação de se reunir com Manito e Pedrinho após tanto tempo separados?

PB / Havia sim. Recebemos um convite para participar de um festival progressivo no Japão mas infelizmente nada foi como imaginávamos, não gosto nem de falar porque todos os amigos sabem o que aconteceu com Pedrinho batera (N.DO ED.: foi vítima de uma isquemia e veio a falecer pouco tempo depois). A sensação de tocar com músicos do calibre de Pedrinho Batera e Manito, além de Jean e Homero, foi algo de maravilhoso!

WHIPLASH - Como estão os preparativos para os shows em comemoração aos trinta anos do lançamento do primeiro disco? Além dos músicos que registraram o novo álbum de estúdio (N.DO ED.: Pedrão no baixo e vocal, Carla Vianna no vocal, Fernando Macabro nos teclados, Edson Guiilardi na bateria e Marcello Schevano do Patrulha do Espaço na guitarra), há possibilidades de algum ex-integrante fazer uma participação especial?

PB / Manito é sempre uma figura importante na trajetória do SNCD e espero que ele esteja presente nesta fase de homenagens que pretendo fazer, com esta banda maravilhosa, todos jovens e competentes, além da ajuda de meu amigo Egídio Conde e de Lino Simão, um grande músico e amigo que assina com muita sensibilidade a autoria dos sopros.

WHIPLASH - E o Mahabanda, como surgiu a idéia? Qual a proposta do grupo?

PB / A Mahabanda é um projeto que eu desenvolvi, ou melhor, estou ajudando no processo de criação, de meu amigo e parceiro Rodrigo Roviralta, um autêntico lutador pelo Rock e pela identidade cultural que isso representa na nossa sociedade. O nosso primeiro passo foi criar este trabalho calcado em poesias com um forte apelo social e psicológico, ou seja, tentamos falar de coisas um pouco mais sérias.

Para mim é um imenso prazer trabalhar com Rodrigo, além de um ser humano bom ele é também muito criativo e sempre tem uma novidade para associar à Mahabanda. A última foi no dia do Rock, em que ele alugou um trio elétrico e lá fomos nós tocarmos na Paulista ao pleno meio dia. Saímos da praça Oswaldo Cruz, reduto da 89 FM, e fomos até o final da Avenida Paulista, e quer saber? Fomos muito bem aceitos pelos transeuntes!

Nosso clipe está pronto, bem como nosso CD, aguarde que muitas surpresas da Mahabanda virão por aí!

WHIPLASH - Com certeza! Pedrão, ser músico no início dos anos setenta no Brasil era diferente de hoje em dia? Havia menos espaço para as bandas? A repressão política chegou a incomodar vocês em algum momento?

PB / Eu sinto que cada tempo traz em si seus prós e contras, mas sempre é difícil se fazer ouvir, tivemos talvez naquela época a nosso favor o fato de estarmos realmente fazendo o registro de uma nova época na história moderna.

O fato é que esta pergunta na verdade mereceria um livro! Pois são tantos os acontecimentos que simplesmente é impossível relatá-los aqui e agora, talvez num outro momento eu resolva abrir o baú e aí com o maior prazer eu responderei esta pergunta à altura que ela merece.

WHIPLASH - Pois tenha certeza que o Whiplash sempre estará de portas abertas! E, para finalizar, o que você diria para um jovem músico que estivesse começando hoje?


PB / Estude, estude muito, faça da sua música o seu sacerdócio, entregue seu corpo e sua alma a serviço dela. Somente assim você merecerá conhecer o caminho que vai levá-lo não sei prá onde, porque eu ainda estou seguindo o meu com muito entusiasmo e não parei prá me perguntar aonde isso tudo está me levando. Eu só sei que é muito bom!

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