Uriah Heep: Entrevista exclusiva com o guitarrista Mick Box
Postado em 09 de outubro de 2002
Por Rodolfo Laterza
Tradução: Márcio Ribeiro
Em seus 30 anos de carreira, o Uriah Heep sempre identificou-se pela abordagem fortemente eclética de seus temas musicais. O novo trabalho segue essa mesma tendência?
Mick / Não posso responder com certeza até estarmos completamente absortos no processo de composição, mas creio que haverá muita inovação neste trabalho.
Rodolfo - Buscar novos sentidos e influências a cada novo trabalho é uma ousadia restrita às bandas oriundas dos anos 70?
Mick / Não. Sinto que se você segue o seu coração, ficando entusiasmado com uma idéia ou canção, você não almejará coisa melhor. Somos, até certo ponto, restritos a escrever dentro dos moldes do Uriah Heep.
Rodolfo - Atualmente, você acha que exista uma certa dificuldade das grandes legendas do Rock de fugirem de referências nostálgicas, justamente pelo tempo de carreira que possuem?
Mick / Eu considero a nostalgia algo bom, que afeta a todos, inclusive nós. Contudo, precisamos caminhar para frente e não nos enclausurar em um período de tempo.
Rodolfo - Existe uma harmonia perfeita em conciliar uma imagem personificada com o passado com as tendências vigentes dos tempos atuais, em que há um panorama muito diferente daquele outrora vivido na década de 70?
Mick / Não sei se podemos dizer "perfeito", mas pode haver um certo nível de harmonia, sim. Por exemplo, canções do SOL & SO ficam muito bem ao lado de certos clássicos dos anos 70 do Uriah Heep, quando apresentados ao vivo, é claro!
Rodolfo - A forte presença de teclados sempre marcou a musicalidade do Uriah Heep, com uma sonoridade inconfundível de Ken Hesley. Sua saída, em 1979, criou alguma crise de legitimidade na banda no início, visto que era um dos membros fundadores e responsável por grandes clássicos da banda?
Mick / Não necessariamente, já que na minha visão, o orgão "Hammond" era apenas uma parte do som do Uriah Heep. Nossa grande influência, na verdade, foi uma banda americana chamada Vanilla Fudge, e foi deles que retiramos a base que o Uriah Heep usou para moldar o seu som. Quando Ken saiu, apenas passamos a deixar outros tecladistas vir tocar com a gente, todos amando tocar um Hammond. Os que gostaram e se ajustaram ao espírito do Heep, acabaram ficando, e não alguém que quisesse mudar as coisas.
Rodolfo - Você acha que cria-se uma responsabilidade difícil de compor a cada álbum hits "universais" como Easy Livi'n, tanto para gravadoras quanto para fãs, ante as cobranças que naturalmente surgem quando se atinge o apogeu?
Mick / Não há como duplicar aquilo. Existem sim, boas canções - que foram perfeitas para sua época e por isto se tornam eternas. O melhor é manter distância deste ideal e procurar algo novo, aplicando-lhe um tratamento "Heep".
Rodolfo - O que significou para a banda ser uma das precursoras em focalizar países de cultura política fechada e com identidades culturais resistentes ao modelo de vida ocidental, como Índia e ex-URSS?
Mick / Sempre tivemos esse ideal de pioneirismo dentro do Rock. Desde cedo, nossa política era que, se as pessoas não pudessem ir até a música então, levaríamos a música até elas. Inclusive, foi muito importante sermos precursores disso, para que outros pudessem seguir nosso exemplo.
Rodolfo - Alguns críticos entendem que a presença das harmonias de guitarra no Uriah Heep sempre foi complementar ou simplificada frente aos arranjos de teclado na era clássica da banda, quando Ken Hesley era visto como uma espécie de líder. Você concorda?
Mick / Não concordo. Aquela época foi marcada por outras dimensões de nossa música, não devemos confundí-la com o som geral da banda.
Rodolfo - Uriah Heep sempre foi citado pelas bandas da NWOBHM como uma influência notória. Sendo um dos nomes mais influentes dos anos 70, como vocês visualizam seguidores declarados como o Iron Maiden, por exemplo?
Mick / O Iron Maiden é uma banda de grande sucesso e é um grande elogio sermos lembrados como influência, principalmente por eles que oferecem muita energia positiva em suas músicas.
Rodolfo - As passagens acústicas nortearam vários hinos da banda, como Blind Eye, do álbum Magician's Birthday (1972). Existem planos para revisitar trabalhos em formato acústico?
Mick / No momento não. Estamos focalizando nossas energias em um novo álbum agora, portanto, não iremos trabalhar com acústicos por um bom tempo.
Rodolfo - E existe algum projeto para se retomar orquestrações, como foi feito recentemente, ou compor alguma música no nivel de Salisbury?
Mick / Se as composições nos levarem nesta direção, sim. Teremos que esperar para ver.
Rodolfo - Junto com o Deep Purple (em seu álbum Concert for Group and Orchestra, de 1969), vocês foram os pioneiros em explorar arranjos com instrumentos de música clássica mesclados com instrumentos eletrificados. Vocês acreditam que apesar da pouco repercussão (na epoca) do álbum Salisbury, fincaram uma originalidade marcante na história do Rock?
Mick / Com certeza absoluta e somos muito orgulhosos por isso!!!
Rodolfo - Você entende que bandas com um sucesso já reconhecido, com uma experiência latente, como o Uriah Heep, possuem maiores graus de liberdade artística e independência criativa sobrepostas às exigências comerciais de gravadoras? Um passado glorioso cria esse tipo de privilégio?
Mick / Nós jamais assinaríamos com uma gravadora que quisesse apenas um "hit". Veja a lista das "10 mais" e me diga onde poderíamos ser encaixados? Jamais fomos uma banda que procurasse o sucesso instantâneo. Preferimos fazer uma boa música, com substância, e poder durar colhendo os frutos de um ótimo trabalho.
Rodolfo - Existem planos para tocar no Brasil brevemente?
Mick / Adoraríamos tocar no Brasil novamente. Digam aos empresários para nos fazer uma oferta e faremos as malas.
Rodolfo - Para finalizar, obrigada pela entrevista e parabéns pelos sucesso!
Mick / O Uriah Heep agradece e espera vê-los em breve.
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