Frank Zappa: A inteligência, perspicácia, e humor do então jovem músico

Compartilhar no FacebookCompartilhar no TwitterCompartilhar no WhatsAppSeguir Whiplash.Net

Por Márcio Ribeiro
Enviar correções  |  Ver Acessos

Existe uma máxima que diz que Frank Zappa é mais conhecido de nome do que pelas suas composições. Embora não tenha aqui como te mostrar uma musica do mestre Zappa, pensei que uma forma de apresentá-lo para você, seria primeiro através de uma biografia. Tendo disponível já uma consideravelmente completa, e querendo apresentar-lhes algo na data do seu aniversário (se vivo fosse, hoje, 21 de dezembro), encontrei entre meus pertences uma interessante entrevista, datada de 1968, ano extremamente político; achei que as perguntas e respostas trariam à tona, melhor do que qualquer outro texto, a inteligência, perspicácia, e humor do então jovem músico da geração hippie. Para vocês então...

Ultimate Classic Rock: as 25 músicas mais tristes da históriaA História da Tatuagem: Forma de expressão artística há mais de 3.500 anos

Anunciar bandas e shows de Rock e Heavy Metal

Kofsky: Quando li sobre o que você está tentando fazer com sua música, não se trata de apenas tocá-la mas agitar e educar...

FZ: e sintetizar...

Kofsky: Me faz lembrar uma versão musical de Berthold Brecht. Seria esta uma dedução correta?

FZ: Não sou fã de Brecht porque não conheço bem o que ele faz. Todavia, as pessoas ficam falando isto, portanto pode ser que seja verdade. Não li praticamente nada do seu material. Ouvi metade da Ópera do Mendigo certa vez, mas não consegui sentar para ouvir tudo.

Kofsky: Não quis sugerir que você o copia, mas que me parece que ele também tinha em mente usar a arte para galvanizar pessoas para algum tipo de ação.

FZ: Eu definitivamente acredito que podemos galvanizar pessoas para algum tipo de ação! Galvanizamos esta noite um sujeito que estava dormindo a cantar "Louie, Louie". (Enquanto se apresentava no Garrick Theatre em Nova York, um jovem que estava aparentemente "viajando" a ponto de quase apagar, foi convidado a subir no palco e cantar "Louie, Louie" com os Mothers of Invention tocando para ele). De zero para "Louie, Louie" em apenas dez segundos não é mau! Conseguimos gerar este tipo de onda e espero que uma vez tendo mais condições, possamos atingir mais pessoas, até mesmo através da mídia em massa. Algumas das cartas que recebemos de fãs, embora pouco em quantidade, falam coisas que nenhuma outra banda recebe. Recebemos cartas de fanáticos e anarquistas de dezenove anos dizendo "Me ajude na minha cidade" e coisas assim.

Kofsky: São essas pessoas que você quer atrair, ou é isto que você quer que as pessoas façam, destruir o sistema?

FZ: Não destrui-lo. Eu quero modificá-lo ao ponto onde passe a trabalhar corretamente. Muitas pessoas acreditam que um novo sistema ideal de política seria destruir tudo e começar tudo de novo, em tribos, com penas na cabeça e todo mundo amando todo mundo. Isto é uma mentira. Aquela garotada não se amam uns aos outros. Estão nesta porquê é outro tipo de clube, como o equivalente atual para a gangue de rua - um pouco mais cabeludos talvez. Mas não estão com a razão; primeiramente, a idéia de destruir tudo para reconstruir é estúpida. A melhor maneira, que é o que eu gostaria de ver acontecer, seria usar o sistema contra ela mesma. Acredito que política é uma concepção valida, porém o que temos hoje em dia não é política autêntica, mas sim o equivalente de uma eleição escolar para o representante de turma. É um concurso de popularidade. Nada têm a ver com política, é apenas merchandising para as massas.

Kofsky: Então seu tipo de política procura levantar reais alternativas: digamos, uma completa reestruturação da política externa, afastando-se do Império Americano; discutindo realmente os assuntos existentes e não simplesmente correndo com dois candidatos na televisão.

FZ: Exato.

Kofsky: Como você vê a conecção entre o que está fazendo agora e a de gerar este tipo de movimento?

FZ: Inicialmente gostaria de criar uma coisa que chamarei de Partido Interessado. Estou dando passos em direção a este terceiro partido que viverá segundo seu nome.

Kofsky: Seria na prática um segundo partido em realidade.

FZ: Na verdade sim. (...) Acredito que o que fazemos é realmente construtivo, embora muitas pessoas são repelidas superficialmente pelo nosso som, nossa aparência e algumas das nossas atitudes grotescas no palco. Tudo porém não passa de ondas de choque terapêuticas.

Kofsky: As vezes, quando você insulta o publico, como em "You're Probably Wondering Why I'm Here," ou no texto encontrado no seu primeiro album, tudo não passa de uma maneira de beliscar o publico para que acordam e entrem em ação, não é ? Você está tentando agita-los deixando-os zangados no lugar de apáticos.

FZ: Sim. Acredito que é mais fácil deixar alguém zangado do que fazê-lo amar alguém. Como ódio é o extremo oposto de amor, se você conseguir evocar ódio, então é só polarizar depois e terás amor.

Kofsky: Você não acha que este ênfases no amor que vemos entre os hippies reflete na verdade não a habilidade de amor naquele momento mas o desejo de se criar um tipo de sociedade onde será possível amar?


FZ: Não. Acredito que o que fazem é uma indicação definitiva de sua inabilidade de amar. Porque toda a cena hippie é calcado em concretizar seus desejos via pensamento. Portanto eles desejam poder amar; porém são cheios de merda e estão se enganando dizendo "Eu te amo! Eu te amo!" E quanto mais eles repetem a frase, mais eles pensam que estão amando. Mas não funciona assim, e a maioria não tem a coragem de admitir para si mesmos que é tudo uma mentira.

Kofsky: Seria por estarmos em uma fase inicial da coisa?

FZ: Sim, claro. Vejo a coisa crescendo para algo que possa realmente funcionar. Estou satisfeito que a garotada esteja fingindo deixar os estudos porquê assim que percebam que esta não é a resposta, estarão prontos para algum tipo de ação.

Kofsky: Ação revolucionária?

FZ: Claro! Acredito em uma revolução, não a bagunçada, mas uma que realmente funcione. Tá na hora de acontecer algo assim.

Kofsky: Como você faz a distinção entre a mal feita e ...?

FZ: A bagunçada têm sangue nas ruas e toda aquela merda. Hoje em dia, uma revolução pode ser conseguida através da mídia em massa, um avanço tecnológico que Madison Avenue usa para vender máquinas de lavar roupa e pão de sanduíche e tudo mais, A mesma técnica pode ser usada para mudar o país todo sem dor.

Kofsky: Como?

FZ: Porque todas estas facilidades estão disponíveis. Existem técnicas acima e além do que esta gente concebe que eu acho que funcionariam. Este pessoal não acredita em possibilidades maiores porquê eles têm a tendência de cair em fórmulas, com seus departamentos de pesquisa adivinhando do que se trata o movimento jovem. Eles não saberiam diferenciar "jovem" de "merda". E isto é o mercado. Eles continuam vendendo produtos para jovens em um nível glandular. Existem maneiras de movê-los através de seus miolos e não suas glândulas. Você tem que começar a coisa pelo nível glandular apenas para pegar suas atenções.

Kofsky: Como você anda fazendo.

FZ: Nem estamos tão glandulares quanto a maioria das bandas de Rock'N'Roll, até mesmo porque não temos apelo teen.

Kofsky: Bem, você insulta excessivamente as pessoas para poder ser glandular. Você os desafiam.

FZ: Se tentássemos apenas subir no palco e cantar nossas canções não conseguiríamos nada porque somos velhos demais segundo o standard atual de Rock'N'Roll. Não há nenhum apelo sexual em um homem velho cantando uma canção normal. Portanto se fizermos algo que nos torna bizarros, temos uma atração.

Kofsky: O problema que surge a este ponto, é que sabemos como os poderes neste país são contra pessoas revolucionando a sociedade. Veja a maneira que (Presidente Lyndon) Johnson trata Vietnam quando os Vietnamitas tentam isto. Você acredita que estes mesmos poderes seriam mais toleráveis com você caso acreditem que você estaria tentando tirar o poder deles?

FZ: Pra começar eles jamais iriam achar que eu estaria tentando tirar tudo deles porque eu não estou tirando tudo deles. Eu não tenho nenhuma intenção de tirar tudo deles.

Kofsky: Bem, tirar seu poder. Não me referia em tirar seus pertences pessoais. Mas seu poder atual que reside na habilidade de controlar o que o homem comum pensa através da mídia em massa.

FZ: Aí está onde eu tenho do meu lado uma força humana que não consegue ser derrotado: ganância. Entenda, eles são tão gananciosos. Poderes que não são necessariamente do governo. Estou falando de grandes indústrias e militares, que são motivados por ganância. A indústria quer fazer dinheiro e eu estou entrando em uma fase onde estou sendo usado por ela para mover produtos. Várias já se depararam com o fato que estão em um círculo vicioso: para poderem vender seus produtos para os jovens, que são o principal mercado na maioria das indústrias americanas, como também o mesmo mercado que compra discos, as companhias acabam disseminando as informações que irão acordar as crianças, fazendo elas se mexerem e eventualmente destruírem o que a indústria representa. E nada podem fazer para prevenir-se disto.

Kofsky: Ralph Gleason me conta que isto está acontecendo com a garotada de Haight-Ashbury, que estão dando as costas para a sociedade corporativa e criando uma sociedade paralela.

FZ: Isto não vai funcionar. Não conseguirá sobreviver. É como dizer "Vamos deixar o sindicato, teremos a nossa cidade a parte do sindicato". É idiota.

Kofsky: Até certo ponto concordo com você, porém, me parece que existe um elemento de pensamento desejoso da sua parte também. Pelo que entendo de Marxismo, não me parece que o poder da elite (ou classe governante), quando você chegar a um ponto que parece que você irá emancipar a população, a ponto deles não aceitarem mais receber ordens da elite, bem, eles não vão deixá-lo levar assim facilmente. Farão o mesmo que fizeram com Fidel Castro ou Ho Chi Minh...

FZ: É um questão de como você percebe o que estou tentando fazer. Não quero tomar o poder.

Kofsky: Não estou dizendo que você está tentando tomar o poder, porém você está tentando...

FZ: Você inicialmente levantou a questão de poder. Agora poder é algo relevante para esta questão, mas o assunto é a modificação do sistema para que ele funcione. Os princípios atuais de democracia que foram originariamente estruturados quando inventaram o conceito não estão sendo aplicados hoje, e acredito que com um povo educado, a democracia funciona. Então o que precisamos são coisas que podem modificar a forma da educação.

Kofsky: Não quis insinuar que você quisesse tomar o poder, porém creio que você gostaria de diminuir o poder das pessoas que hoje detém o controle sobre o pensamento do povo.

FZ: O negócio é o seguinte, uma pessoa gosta de se sentir útil na sociedade. Pessoas tem habilidades diferentes. Eu tenho o dom de fazer estas coisas que eu faço e se eu posso aplicá-lo de forma construtiva, eu tenho satisfação em apenas saber que sou útil. (...) Gosto do que eu faço e me sinto bem. Se isto puder ajudar ao mesmo tempo, então legal. Se funciona, ótimo. Se não funciona, pelo menos eu me mantive ocupado por algum tempo.

Kofsky: Em outras palavras, não ser trata de uma prescrição rígida que você quer obrigar o povo a tomar?

FZ: Não!

Kofsky: Imagino que seja também muito uma questão de o que o seu público lhe devolve como resposta.

FZ: Sim e não. Ficamos acompanhando o que está acontecendo mas o que eles fazem ou dizem não altera muito o que iremos fazer. Exceto que eu tento adiantar alguns eventos políticos sociais. Temos material para o nosso próximo álbum sobre os campos de concentração na Califórnia. Você está vendo isto de primeira mão pois terminei isto recentemente. Irão para o álbum "The Mothers and Lenny Bruce", que deve sair em setembro.

Kofsky: Como assim? Será com o verdadeiro Lenny Bruce?

FZ: Exatamente. Estou editando fitas de Lenny e interligando com canções específicas para termos um oratório. O nome do álbum será "Our Man in Nirvana".

Kofsky: Suspeitava que você e eu teríamos muitas coisas em comum e pelo visto Lenny Bruce é uma delas.

FZ: Yeah.

Kofsky: Quanto tempo você leva carregando esta material na cabeça.

FZ: Bem, "Call Any Vegetable", por exemplo, foi escrito no Havaí duas semanas depois de Freak Out! Levou um ano para todo mundo aprender a tocá-lo. "Son of Suzy Creameheese" levou outro ano para aprender a tocar. Entende o por que? Seu tempo é fantástico. São quatro barras de 4/4, uma barra de 8/8 e uma de 9/8, OK? Aí então segue para 8/8, 9/8, 8/8, 9/8, 8/8, 9/8, depois 8/8, 4/8, 5/8, 6/8, e volta para o 4/4 novamente.

Kofsky: Existem muito edição no "Absolutely Free"? Eu percebi em certos momentos havia mudanças abruptas, sem nenhuma pausa para mudar o tempo. Parecia mais que você tivesse editado uma parte na outra. Estou certo?

FZ: Sim. Existe muita edição. De lá pra cá, ajustamos nossa forma de tocar para soar ao vivo como edição. Gosto deste efeito.

Kofsky: Escuto grupos de jazz mudando de tempo, porem eles normalmente pausam deixando aparente que uma mudança está sendo feita.

FZ: Acho bobagem, porque você perde o impacto.

Kofsky: Concordo. Porque o album "Absolutely Free" não veio com as letras. Houve censura?

FZ: Sim, tivemos este tipo de problema.

Kofsky: Porque não deixaram você imprimir as letras?

FZ: Existe uma diferenca legal entre o que está em um disco e o que está no papel. Você pode cantar uma coisa e isto é uma obra de arte, porém as letras por escrito não. Eu não conseguiria defende-las mediante o tribunal como sendo uma obra artística.

Kofsky: Quem foi o gênio que decidiu isto?

FZ: O departamento legal da MGM. E isto é que vai te fazer rir, está vendo a cópia do livreto do disco? Olha o que eles censuraram na frase "She's only thirteen and she knows how nasty" ("Ela tem apenas treze e já sabe ser malvada", da canção "Brown Shoes Don't Make It"). Sabe o que tiraram? A palavra thirteen (treze) e não nasty (malvada). (...)

Kofsky: Oh! Wow! Vejo aqui que a palavra napalm esta perfeitamente legal.

FZ: Veja só a mentalidade desta gente.

Kofsky: Me parece uma grande coincidência que os Beatles venham lançar seu novo disco Sgt. Pepper's, perto da mesma época que saiu "Absolutely Free". Os Beatles aparentam estar rejeitando a idéia que você deva se escravizar por comodidades e quando você estiver com 64 anos de idade, tudo que terás será duas semanas de verão em Isle of Wight.

FZ: Acho que a mensagem é um pouco mais subjetiva do que isto. Me parece que eles estão dizendo" "o que irá acontecer quanto tivermos 64 anos? Vocês ainda estarão comprando esta merda?" É um tratamento mais humorístico sobre o que acontece quando um roqueiro envelhece.

Kofsky: Minha impressão foi outra. Faço uma justaposição daquela faixa do George Harrison ("Within You Without You"), que diz "With our love, we could change the world" (Com nosso amor, podemos mudar o mundo)". Me parece que estão dizendo: "Por um lado você pode se tornar livre se quiser, pelo outro lado, você pode se escravizar em comprar, comprar, comprar e comprar"

FZ: Eu acredito no que George Harrison diz, que podemos mudar o mundo com nosso amor. Apenas se realmente temos este amor. Se você realmente se preocupa, você consegue.

Kofsky: Pode-se amar em uma sociedade que apenas ensina ódio?

FZ: Porque não? Se por nada, apenas para ser do contra. É possível sim. Se você quiser ser um verdadeiro rebelde, então ame algo. E se quiser ser totalmente grotesco quanto à coisa, tente amar a sociedade. Tente amá-la a ponto de fazer algo por ela. Se você consegue um número suficiente de zelotes que acreditam neste tipo de coisa, você não tem como pará-los. Não importa onde eles moram ou como são, pois são eles que movem montanhas. Eles não aceitam não como resposta.

Entrevista realizada originalmente por Frank Kofsky, e extraída do livro "The Age of Rock, Sounds of the American Cultural Revolution", editado por Jonathan Eisen.




GosteiNão gostei

Compartilhar no FacebookCompartilhar no TwitterCompartilhar no WhatsAppSeguir Whiplash.Net


Todas as matérias da seção EntrevistasTodas as matérias sobre "Frank Zappa"


1966 no Rock: do Monochrome ao Technicolor1966 no Rock
Do Monochrome ao Technicolor

Oops!: 10 erros eternizados em gravações de clássicosOops!
10 erros eternizados em gravações de clássicos


Ultimate Classic Rock: as 25 músicas mais tristes da históriaUltimate Classic Rock
As 25 músicas mais tristes da história

A História da Tatuagem: Forma de expressão artística há mais de 3.500 anosA História da Tatuagem
Forma de expressão artística há mais de 3.500 anos


Sobre Márcio Ribeiro

Nascido no ano do rato. Era o inicio dos anos sessenta e quem tirou jovens como ele do eixo samba e bossa nova foi Roberto Carlos. O nosso Elvis levou o rock nacional à televisão abrindo as portas para um estilo musical estrangeiro em um país ufanista, prepotente e que acabaria tomado por um golpe militar. Com oito anos, já era maluco por Monkees, Beatles, Archies e temas de desenhos animados em geral. Hoje evita açúcar no seu rock embora clássicos sempre sejam clássicos.

Mais matérias de Márcio Ribeiro no Whiplash.Net.

adGoo336