As únicas três canções dos Beatles que Frank Zappa curtia; "apenas um bom grupo comercial"
Por Bruce William
Postado em 24 de junho de 2026
Frank Zappa nunca fez muita força para parecer simpático. Muito menos quando o assunto era a mitologia dos Beatles. Para muita gente, o quarteto de Liverpool representou a grande prova de que a música popular podia ficar mais ousada, experimental e ambiciosa sem perder o público. Para Zappa, essa leitura vinha com um asterisco enorme: ele enxergava ali também uma máquina comercial funcionando em velocidade máxima.
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A implicância não era pequena. Conforme relembra a Far Out, Zappa chegou a dizer que "todo mundo achava que eles eram Deus", mas que, na visão dele, isso não estava certo. Para ele, os Beatles eram "apenas um bom grupo comercial". Não é pouca coisa, especialmente vindo de alguém que desconfiava profundamente da mistura entre arte, mercado e imagem. Ao mesmo tempo, Zappa conhecia esse jogo melhor do que muitos. Antes de se tornar um dos nomes mais excêntricos do rock, ele havia trabalhado com publicidade e entendia que, nos anos 1960, música também passava por aparência, personagem e provocação.

Esse incômodo apareceu de forma explícita em "We're Only in It for the Money", disco de 1968 em que Frank Zappa e os Mothers of Invention parodiaram a capa e o clima de "Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band". A brincadeira vinha carregada de desprezo pela contracultura transformada em vitrine, mas também tinha algo de estratégia. Zappa sabia que, se queria ser ouvido por um público maior, precisava criar uma figura impossível de ignorar.
Pauline Butcher, que trabalhou como assistente dele, explicou essa lógica ao dizer que Zappa sabia que não era um "garoto bonito" como os Beatles ou os Rolling Stones. Segundo ela, como ele não fazia a mesma música e nem gostava daquele universo, precisava chamar atenção de outro jeito. As fotos bizarras, as roupas femininas, a imagem calculadamente estranha e o humor ácido faziam parte desse pacote.
Mesmo assim, por trás da provocação, havia espaço para alguma admiração. Não muita, claro. Zappa não era do tipo que distribuía elogios como panfleto de loja em inauguração. Mas ele admitiu gostar de três músicas dos Beatles: "I Am the Walrus", "Paperback Writer" e "Strawberry Fields Forever". O comentário foi feito ao autor John Corcelli: "As melhores músicas dos Beatles eram 'Paperback Writer', 'Strawberry Fields Forever' e 'I Am the Walrus'. Não gosto muito do resto."
A mais óbvia da lista talvez seja "I Am the Walrus", lançada em 1967 no projeto "Magical Mystery Tour". A faixa tinha a cara de uma alucinação pop organizada no estúdio, com colagens, imagens absurdas e um senso de humor que parecia conversar com o lado mais teatral de Zappa. Em 1980, durante o programa "Star Special", da BBC, ele tocou a música e fez um comentário carregado de ironia, mas com admiração real ali no meio.
"Não foi maravilhoso? Sentados aqui hoje, tão sofisticados como todos nós somos, nesta era moderna que chamamos de anos 80, e poder ouvir algo assim, com milhares de pessoas ao fundo naquele disco dizendo 'todo mundo fuma maconha'. Dá vontade de apertar a faixa na cabeça e enfiar uma flor na ponta da arma de alguém."
A piada tinha alvo certo. Zappa detestava drogas e via boa parte da contracultura como moda vazia, então o elogio vinha atravessado por sarcasmo. Ainda assim, ele voltou à música anos depois, chegando a tocá-la ao vivo. Para alguém tão pouco disposto a reverenciar os Beatles, isso já era quase uma declaração de carinho - naturalmente torta, como convinha ao personagem.
"Strawberry Fields Forever" também fazia sentido na seleção. A canção de John Lennon levou a linguagem pop para um lugar mais ambíguo, misturando nostalgia, estranhamento e experimentação de estúdio. George Martin chegou a descrevê-la como um "poema tonal completo, como um Debussy moderno". Era exatamente o tipo de peça que podia interessar a Zappa: não por devoção beatlemaníaca, mas pela construção incomum e pela maneira como a música escapava do formato mais previsível.
"Paperback Writer", por outro lado, é a escolha menos evidente. Mais direta e roqueira que as outras duas, a faixa talvez tenha chamado atenção pela narrativa, pela melodia afiada ou pela forma como os Beatles transformaram uma ideia quase literária em single pop. Zappa chegou a sugerir que o Flying Lizards poderia fazer uma boa versão dela no estilo de "Summertime Blues", imaginando um tratamento mais seco e esquisito para a composição.
No pacote completo, as três escolhas dizem bastante sobre Zappa. Ele podia desprezar o altar construído em torno dos Beatles, mas não era surdo ao que havia de invenção no catálogo da banda. O que lhe interessava não era a santidade do quarteto, nem o romance da geração paz e amor. Eram os pontos em que o pop saía do trilho e começava a se comportar de maneira estranha. Justamente ali, até Frank Zappa precisava admitir que os Beatles tinham acertado.
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