Bruce Springsteen: Amadou Diallo, assassinado pela polícia

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Por Leonardo Daniel Tavares da Silva, Fonte: Wikipedia
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O novo disco de BRUCE SPRINGSTEEN, "High Hopes", vem fazendo um grande sucesso no mundo inteiro desde que vazou por um descuido da Amazon.com e foi posteriormente lançado. Mas, apesar de ser o mais recente álbum do "Boss", a maior parte dele não é de material inédito. Entre covers (como a própria faixa título) e regravações (como "The Ghost of Tom Joad", que inclusive foi nome de um de seus trabalhos anteriores está "American Skin (41 shots)". A canção é bem conhecida dos fãs, é executada desde 2000 nos shows do norte-americano (inclusive esteve presente no setlist que ele apresentou em São Paulo, em setembro do ano passado), já apareceu em diversas gravações ao vivo e até mesmo em uma rara gravação de estúdio, mas jamais tinha sido lançada oficialmente.

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Hoje a canção é uma das mais relevantes de High Hopes. Mas, do que ela fala?


A canção foi composta em homenagem a Amadou Diallo, imigrante guineano (ou guineense) nascido em 1975 e morto a tiros pela polícia nova-iorquina em 4 de fevereiro de 1999, uma tragédia bem parecida com a do nosso Jean Charles, morto em Londres. Os policiais Edward McMellon, Sean Carroll, Kenneth Boss e Richard Murphy estavam à paisana e o confundiram com um suspeito por vários estupros, quando abordaram Diallo perto de sua casa. Há relatos que não podem ser confirmados de que, a princípio, Diallo chegou a pensar que se tratava de um assalto, uma vez que os policiais não estavam fardados. Além disso, o jovem africano que vendia fitas de vídeo, meias e luvas em uma calçada da 14th street não estaria em situação legal no país (o que torna sua história ainda mais parecida com a de nosso conterrâneo Jean Charles), tendo mentido ao pedir asilo político nos Estados Unidos. Ele teria afirmado que era da Mauritânia e que seus pais teriam sido assassinados em seu país de origem em um formulário que preenchera. Ele próprio temia ser assassinado também. Mal sabia ele que essa mentira contada por escrito serviria, mais tarde, como sua sentença de morte.


No momento da abordagem, tentando mostrar que não estava armado, ou tentando mostrar sua identidade, Diallo colocou a mão no bolso, retirando de lá um objeto preto. O policial Carrol gritou "revólver!", ao que seus colegas abriram fogo. Para piorar a situação, o policial McMellon se assustou e caiu dos degraus onde se encontrava, fazendo com que os outros acreditassem que ele tinha sido atingido. Poucos segundos e quarenta e um tiros depois, Diallo estava morto, fuzilado, atingido dezenove vezes. O objeto preto que ele tinha pego em sua jaqueta não era nada mais que uma carteira.


O caso foi manchete nos jornais do país inteiro, levando a uma onda de protestos e referências a Diallo em várias canções além da de Springsteen, dos mais diversos estilos, rock, reggae e, principalmente, rap. Algum tempo depois, os policiais foram inocentados da acusação de assassinato, mas ou saíram do NYPD ou passaram a realizar funções burocráticas. A mãe e o padastro de Diallo processaram a cidade de Nova York por negligência, morte por engano, racismo e outras violações dos direitos civis de Diallo recebendo uma quantia final de 3 milhões de dólares, muito menor que a requerida (61 milhões), mas a maior já paga devido à morte de uma pessoa solteira naquele estado. O tema voltou à discussão e chegou a ter certa influência nas eleições para prefeito de Nova York em 2005.

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Na canção, Springsteen discorre sobre o acontecimento ("Será uma arma? Será uma faca? Será uma carteira? Esta é sua vida"), além de oferecer a imagem de uma mãe instruindo seu filho sobre como se portar num eventual encontro com os tiras: "Nessas ruas, Charles, / você tem que entender as regras. / Se um oficial lhe parar, / prometa-me que será sempre educado / e que nunca correrá / Prometa pra Mamãe que manterá suas mãos ao alcance da visão".

Springsteen voltou a incluir a canção sobre Diallo em seus shows (e, posteriormente, em "High Hopes") em protesto ao assassinato do garoto negro Trayvon Martin, por George Zimmerman, segurança do condomínio onde morava a futura madrasta de Martin. Zimmerman foi absolvido da acusação de assassinato (teria alegado legítima defesa), o que provocou novamente vários protestos e acusações de crime racial por todo o país, uma situação que, de certa forma, lembrou o que aconteceu com Diallo.

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Além da canção de Springsteen, várias outras canções lamentaram o ocorrido com Diallo. É o que veremos a seguir.

Em sua canção "Contempt Breeds Contamination", o TRIVIUM conta exatamente o que aconteceu. "Os quatro protetores / Dispararam 41 tiros / atingindo-o 19 vezes / Revistando o corpo / nenhuma arma foi encontrada / Ele jaz com todos que morreram em vão".

Ziggy Marley aponta: "os matadores de Diallo ficam livres, pagos pela sociedade em "Now i know you don't care about me", antes de lamentar gritando o nome do guineano. Confira a letra e a canção no vídeo abaixo:

Em "Things I've Seen", o grupo de rap SPOOKS fala: Amadou Diallo somos nós, e agora eu estou de joelhos, implorando: "Deus, por favor! Salva-me do fogo do inferno!"

O rapper PARIS em sua canção "What Would You Do" critica fortemente a administração Bush, principalmente após o 11 de setembro, mas lembra que antes mesmo daquela fatídica data a polícia já se envolvia em excessos: "Mas eu lembro como esses demônios faziam antes de setembro. Foda-se o Giuliani. Perguntem ao Diallo como ele anda".

Outro rapper, BLITZ (também chamado The Ambassador), que também migrou da África (de Gana) para os Estados Unidos nos anos 90, conclama: "Libertem o meu povo, Uhuru significa liberdade". Nota: a palavra está na Língua suaíli, falada em alguns países africanos.

O rapper jamaicano WYCLEF JEAN gravou um reggae em homenagem a Diallo, dando a canção o nome do guineano e sugerindo ele, ao ser interpelado pelos policiais à paisana pensou primeiro se tratar de um assalto. Além disso, WYCLEF aponta semelhanças entre o assassinato de Diallo e os de Martin Luther King (também citado inúmeras vezes em várias outras canções) e do ativista sul-africano Steven Biko.

Terry Callier, em Lament For The Late AD homenageia tanto Diallo quanto a cidade de Nova York, mas se sentindo perplexo pelo que aconteceu.

A banda electro punk feminina LE TIGRE, entre uma gravação de noticiário e outra relatando o assassinato de Diallo pergunta "quem vai ligar 9-1-1 quando eles não sabem distinguir uma carteira da porra de uma arma?". A canção termina com as meninas contando de um a quarenta e um. O porquê já está bem claro aqui.

Mais um rapper, o peruano criado em Nova York Felipe Andres Coronel, mais conhecido como IMMORTAL TECHNIQUE, entre um palavrão e outro discorre sobre o mesmo tema: "uma carteira não se parece com uma arma. Como vocês puderam confundir isto?" E mais: "eu tenho 41 razões pra mandá-los chupar uma r...".

E um grupo de rappers chamado HIP HOP FOR RESPECT, formado por nomes como 88 KEYS, MOS DEF e muitos outros lembra da mãe de Dillo em "A Tree Never Grown". Seu filho jamais voltará para casa. E, tendo sido o caixão de Amadou fechado e entregue à terra, a semente que ela plantou seria uma árvore que jamais cresceria. Na extensa letra, eles ainda afirmam que 41 é um número difícil de entender e que a constituição dos Estados Unidos teria ganho quarenta e um buracos a mais naquela ocasião.

A banda de hardcore CHOKING VICTIM (também conhecida como CRACK ROCK STEADY 7) menciona o "número fatal" novamente em "So You Wanna Be A Cop?": "Então você quer ser um policial? / Você nunca para de estourar com suas armas maus perversas / depois de 41 tiros vai estar sorridente na loja de rosquinhas".

Para finalizar, temos uma canção sem palavras. Roy Campbell, Jr., trompetista americano falecido este ano (9 de janeiro) gravou o jazz "Amadou Diallo" em seu álbum "Ethnic Stew and Brew". A canção termina com uma rápida explosão de quarenta e uma notas, uma para cada tiro dado em direção a Diallo. Para esta canção, infelizmente, não encontramos vídeos no YouTube.

http://en.wikipedia.org/wiki/Shooting_of_Amadou_Diallo




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Sobre Leonardo Daniel Tavares da Silva

Daniel Tavares nasceu quando as melhores bandas estavam sobre a Terra (os anos 70), não sabe tocar nenhum instrumento (com exceção de batucar os dedos na mesa do computador ou os pés no chão) e nem sabe que a próxima nota depois do Dó é o Ré, mas é consumidor voraz de música desde quando o cão era menino. Quando adolescente, voltava a pé da escola, economizando o dinheiro para comprar fitas e gravar nelas os seus discos favoritos de metal. Aprendeu a falar inglês pra saber o que o Axl Rose dizia quando sua banda era boa. Gosta de falar dos discos que escuta e procura em seus textos apoiar a cena musical de Fortaleza, cidade onde mora. É apaixonado pela Sílvia Amora (com quem casou após levar fora dela por 13 anos) e pai do João Daniel, de 1 ano (que gosta de dormir ouvindo Iron Maiden).

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