O álbum narrativo do Genesis que, aos 50 anos, ainda é extremamente necessário
Resenha - Lamb Lies Down on Broadway - Genesis
Por Bruno de Sousa Moraes
Postado em 18 de novembro de 2024
Lançado em 1974, "The Lamb Lies Down on Broadway" é um dos álbuns mais ambiciosos e influentes do rock progressivo, marcando um ponto crucial na carreira do Genesis e na história da música. Com uma narrativa rica e complexa, o álbum segue a jornada de Rael, um jovem membro de gangue de ascendência porto-riquenha sai de sua vida familiar e conturbada em Nova York para embarcar em uma jornada de busca por identidade em um mundo surrealista. Com composições inovadoras, performances teatrais e uma estética visual impressionante, "The Lamb" se tornou uma obra-prima que desafiou as convenções musicais da época e, junto a outras obras, antecipou a agressividade do punk.

O álbum duplo tem uma estética forte não apenas musicalmente, mas também em sua abordagem visual e narrativa. A arte de capa foi criada pelo renomado estúdio Hipgnosis, que também desenhou o icônico prisma de "The Dark Side of The Moon". No projeto para o Genesis, o fundador da Hipgnosis, Storm Thorgerson, trabalhou em uma intrigante série de fotocolagens, que reflete o tom onírico da jornada de Rael. As imagens estão diagramadas como um artigo jornalístico junto a um texto narrativo curto e absurdo escrito por Peter Gabriel para complementar a narrativa das canções. Combinadas com a música, as imagens e o texto criam uma experiência quase cinematográfica, transportando o ouvinte para o mundo único da obra.
A produção do álbum foi marcada por tensões internas, problemas familiares e ambições externas à banda. Peter Gabriel, o carismático vocalista, viajou para os Estados Unidos em meio às sessões de composição para trabalhar com o diretor de "O Exorcista", William Friedkin, em um projeto que nunca se concretizou. Gabriel estava cada vez mais insatisfeito com a dinâmica da banda, e se sentiu abandonado no período do nascimento traumático de sua primeira filha, que viveu as primeiras semanas entre a vida e a morte.
Após o término das sessões de gravação, o cantor decidiu que seria sua última turnê com o Genesis. Essa decisão pesou sobre a banda durante toda a turnê, executada em meio a emoções e incertezas para uma plateia que não poderia desconfiar da separação que viria a seguir.
Para além do clima de despedida, a turnê foi conturbada também devido a problemas técnicos que afetaram as apresentações. Os elementos cênicos, que eram uma parte fundamental do espetáculo, muitas vezes falharam. A banda utilizou múltiplos projetores de slides simultaneamente, mas os erros frequentes tornaram a experiência visual confusa. O uso de fantasias elaboradas, como a vestimenta do "Slipperman", também trouxe desafios, dificultando a performance vocal de Gabriel. Em uma entrevista, Phil Collins lamentou que, em alguns momentos, a parte visual ofuscava a música, uma preocupação que refletia a tensão entre a inovação e a execução.
Com 104 apresentações ao longo de vários meses, a turnê se propunha uma experiência marcante que misturava música, atuação, imagens, lasers e pirotecnia, buscando conquistar um público que não teve tempo de se familiarizar com as músicas do novo álbum. A resposta não foi das melhores, com o cancelamento do último show programado da turnê, em Toulouse, devido à baixa venda de ingressos.
A narrativa simbólica e por vezes confusa de "The Lamb" também dificultou a imersão do público e da crítica à época. A história de Rael, que viaja por um mundo fantástico repleto de simbolismos e referências mitológicas, refletiu as próprias experiências de Gabriel, que estava em busca de uma nova identidade e propósito. Essa conexão pessoal com a narrativa ajudou a dar profundidade ao álbum, e nas cinco décadas que se sucederam, o disco teve a chance de conquistar o público e a crítica.
O disco também marca uma mudança no estilo de composição do Genesis. A temática contemporânea e ambientada nos Estados Unidos levou a banda a buscar em algumas músicas uma sonoridade mais agressiva e com menos foco em estilos de composição mais clássicas e barrocas. É o caso da faixa-título, da enérgica "Back in N.Y.C." e da irônica "Counting out Time". Além disso, faixas experimentais como "The Waiting Room", "Fly in a Windshield" e a introdução de "The Colony of Slipperman" mostram uma faceta sombria e psicodélica que não estava presente nos discos anteriores, mais focados em temas e sonoridade compatível com lendas europeias e a literatura elizabetana e vitoriana. Entre outras composições, mais próximas do rock progressivo inglês, como "In the Cage" e "Carpet Crawlers", pequenos interlúdios de música ambiente completam a diversidade de estilos da jornada de 94 minutos que é o Lamb.
"The Lamb Lies Down on Broadway" continua a ser um tema de discussão apaixonada, com comunidades virtuais em sites como Reddit e uma versão anotada tentando interpretar os temas da narrativa. A busca de Rael por identidade e liberdade também se entrelaça com discussões sobre os efeitos negativos da masculinidade tradicional, que permanecem atuais em tempos em que se aborda a chamada "masculinidade tóxica", e como lidar socialmente com grupos como os incels e outros movimentos antifeministas.
O protagonista exibe uma persona repleta de agressividade e bravata, tentando se afirmar em um mundo que muitas vezes valoriza essas características como ferramentas de sobrevivência. No entanto, por trás dessa fachada, Rael revela suas inseguranças e frustrações, especialmente em sua vida amorosa. O contraste cômico entre suas afirmações sobre conquistas sexuais e a realidade de sua falta de perícia ilustra uma profunda desconexão entre a imagem que deseja projetar e sua verdadeira experiência emocional.
Em um dado momento, é revelado que, por trás do homem que se gaba com um machismo desumanizante de ter se deitado com "as carnes de sabor mais forte", está alguém cuja única experiência sexual foi tímida, insegura e frustrada. O fato de que ele aprendeu o que fazer em um livro que prometia ensinar tudo sobre o prazer feminino tem ressonância com o cenário atual, onde coaches de masculinidade vendem livros e cursos com dicas furadas de sedução baseadas em pseudociências sobre a mente feminina. A jornada de Rael se torna um processo de autoconhecimento e reconciliação com suas emoções, desafiando a máscara da masculinidade e buscando uma conexão mais profunda e universal.
Após a turnê, Peter Gabriel saiu do Genesis para seguir sua carreira solo, mas a banda continuou a evoluir. O impacto de "The Lamb Lies Down on Broadway" perdurou, e a obra foi reavaliada ao longo dos anos. Tornou-se um clássico do rock progressivo, sendo frequentemente listado entre os melhores álbuns do gênero. A capacidade do Genesis de desafiar limites e explorar novas direções artísticas consolidou sua posição como pioneiros da música.
Em um dado momento, Peter Gabriel tentou trabalhar em uma adaptação cinematográfica junto ao polêmico diretor Alejandro Jodorowsky, cujo filme "El Topo" serviu como uma das inspirações iniciais para construir a história simbólica e mística de Rael. Gabriel se aproximaria do cinema outras vezes, sendo indicado ao Globo de Ouro pela trilha sonora de "A Última Tentação de Cristo", de Martin Scorsese, e também pela canção "Down to Earth" do filme Wall-E, que também quase lhe rendeu um Oscar. A adaptação de "The Lamb", porém, assim como as premiações, não saiu do papel.
Em última análise, o disco, que completa 50 anos em 22 de novembro, é uma obra potente que nasceu de um período turbulento na vida de seus criadores, e um exemplo forte e atual de como obras de arte podem se propor a discutir a condição humana. A imagem de um cordeiro deitado na movimentada Broadway Avenue sugere um contraste entre uma essência inocente e o mundo caótico que a soterra em cinismo e violência. Acompanhar Rael em sua jornada pode ser um lembrete de que, no fundo, há um cordeiro dormindo em meio ao nosso próprio tormento.
Outras resenhas de Lamb Lies Down on Broadway - Genesis
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