King Bird: novos ares com "Got Newz"
Resenha - Got Newz - King Bird
Por Daniel Cardoso
Postado em 14 de janeiro de 2021
Todo membro de banda, por menor que seja sua participação na mesma, influi no resultado final das musicas, do disco, dos shows, do conceito. Desde os mais discretos aos mais fanfarrões, a partir do momento em que se está numa banda, você faz parte do esquema tático do jogo. Ponto. Agora... é fato de que, por mais que todos os membros sejam importantes, a posição de vocalista é, de longe, a mais delicada de se alterar. Ah, como temos exemplos de situações que deram (muito) erradas quando houve a necessidade de substituir o front man... e sim, também temos exemplos de boas trocas e bandas que sobreviveram muito bem. Bom, veja o caso do IRON MAIDEN, calejados pelas duas situações.
Afinal, pra que esse parágrafo todo? Porque, meus caros, depois de dois grandes álbuns e um EP, o Pássaro Rei anunciava que João Luiz saía amigavelmente da banda (com destino ao Casa das Máquinas). De quebra, logo em seguida anunciam a chegada de um certo Ton Cremon para o posto. A princípio, pensei: como a banda seguiria sem o João, de longe um dos melhores vocais nacionais e que casava perfeitamente para a sonoridade da banda? Daí, fiz o que deveria ser feito imediatamente: fui buscar vídeos do mr. Cremon no You Tube e... rapaz...
Antes de falar sobre o menino novo, falemos da cria nova: "Got Newz" é o resultado dessa mudança e nova fase da banda. Se no EP "Beyond the Rainbow" o som do KING BIRD já dava sinais de que a sonoridade da banda estava ficando mais pesada, o som apresentado nesse novo álbum escancara, de vez, essa veia heavy sem, contudo, tirar as influências setentistas do quarteto. E, para mim, dois fatores são importantíssimos para essa mudança.
Primeiro, o mais óbvio: o vocal do senhor Cremon. Canta demais o sem vergonha! Definitivamente, a banda encontrou alguém a altura do grande João Luiz e acertou em cheio. O cara tem personalidade, canta tranquilamente as músicas antigas e, de quebra, tem um alcance vocal sensacional, técnica irrepreensível... não há como comparar diretamente os dois, ambos são fantásticos. Apenas diferentes vozes que, consequentemente, trazem uma pegada diferente. 70´s pro antecessor, e algo mais 80´s para o sucessor.
Segundo: a pegada de Silvio Lopes. Não que ele se prenda a algum instrumento e, certamente, alternava entre um e outro, mas definitivamente o som de hoje está muito mais pra uma Les Paul do que para uma Stratocaster, como era nos primeiros registros. Você que, como eu, é guitarrista, sabe como as personalidades desses dois instrumentos são tão diferentes. Não apenas de timbre, de tocabilidade. A Strato implora para ser swingada, já a Les Paul é uma máquina de sons porrada. O som do guitarrista está pesado e agressivo, mas sem destoar do som clássico da banda. Afinal, os dedos são os mesmos e o músico dá um show de feeling e bom gosto na escolha de notas e timbres, bases certeiras e solos arrepiantes.
A cozinha da banda está ainda mais calibrada: Fábio Cesar desfila uma série de frases certeiras contraponteando as linhas de guitarra, ao mesmo tempo que segue deixando o som pesado e pulsante. Achei o baixista ainda mais a vontade nesse álbum, confira "Years gone by" para entender a que me refiro. Já Marcelo Ladwig é aquele baterista que sabe aparecer e, ao mesmo tempo, deixa a música respirar. Mão pesada, técnica e pegada, viradas perfeitas, e aquele swing de chimbalzão solto em "Gonna rock you" que, certamente, seria aprovadíssimo por Malcolm Young.
O repertório do álbum, assim sendo, é um hard rock daquela virada das décadas de 1970 e 1980, com um pouco mais de ênfase nessa ultima, e, claro, devidamente atualizado. Pegada é o que não falta aqui. E, se quando você pensa em Hard 80´s lhe vem a mente aquela farofa toda, esqueça. Aqui o som é de motoqueiros selvagens, pé na porta com "Immortal Rider" (segundo a banda, dedicada a Lemmy Kilmister e Franco Von), "Break away", "Daybreak", "Doomsday" (o primeiro single, já mostrando o poderio vocal de Cremon), a espetacular "The road you ride" (um duelo de Cremon com Nando Fernandes, dois vozeirões de arrepiar até o mais brabo ser), "Smoke signals" e "Freeze frame my life" (as mais setentistas do repertório)... enfim, todas, absolutamente todas as faixas são espetaculares e provam de vez a evolução dos caras no que tange a melodias (algo que este humilde servo que vos escreve já havia mencionado quando dialogamos sobre "Sunshine").
A arte da capa reflete a sonoridade e o logo da banda está atualizado. O KING BIRD agora está em outros ares, e voando mais rápido do que nunca. É sem sombra de dúvidas um dos melhores registros de hard rock feitos neste país e prova o quanto essa banda ainda irá nos presentear com músicas sensacionais. Espero, apenas, não ter que esperar outros 8 anos pelo próximo álbum completo. No mais, sempre bom lembrar: ouça sem dó. Vida longa ao Pássaro Rei.
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