Pitty: Matriz inaugura novos elementos e acentua as qualidades
Resenha - Matriz - Pitty
Por Fabiano Rocha
Postado em 13 de maio de 2019
"Matriz" recém-lançado foi gravado após a cantora apresentar muitas das faixas na turnê de mesmo nome, invertendo a ordem das coisas. É uma viagem sonora que evidencia elementos que já tinham sido estreados na discografia da cantora, no seu antecessor "Setevidas" de 2014.
Pitty - Mais Novidades
O álbum começa com a faixa "Bicho Solto", que tem na letra um desabafo da cantora sobre uma suposta rendição ao sistema e à indústria pop, mas que, mesmo assim, continua sendo um bicho solto. A música é experimental, com diversas camadas e um jogo de vozes, com a cantora cantando em diversos tons, o que dá uma vibe esotérica pra canção. No fim das contas é um manifesto-matriz, que diz na síntese o que ela vai explorar no álbum: suas raízes sonoras e letras intensas.
Na sequência a ótima "Noite Inteira", um possível hit radiofônico com refrão chiclete, que não perde nada por isso. A canção é visceral e sofisticada na mesma medida, a guitarra afiada de Martin toca um riff grudento e bem construído. Aqui, mais uma vez, a cantora usa diversas camadas de som e a própria voz como um instrumento. No meio disso tudo, ainda sobra espaço pra uma participação do cantor-mestre baiano Lazzo Matumbi, nos minutos de sofisticação onde a música assume uma levada latina.
"Noite inteira" é seguida por "Ninguém é de ninguém", uma música quase-de-amor, que valoriza a liberdade num relacionamento e faz um uso inteligente das batidas eletrônicas. Aliás, os vocais da baiana nessa música lembra, em alguns momentos, os vocais agressivos de "Anacrônico", melhor álbum de sua carreira. E ai vem a primeira balada do álbum, a já clássica "Motor", canção da banda "Maglore", onde a cantora mostra um vocal impecável e interpretação intensa pra versos doídos como "Você me provou que ainda não mudou nada/E quando se olha no espelho é você quem me vê". Ótima música pra chorar tomando 51, no melhor estilo público de sertanejo que, no fundo, todo rockeiro tem. Aliás, esse novo clássico irá ganhar na sequência outra versão de Gal Costa, que vem interpretando o som em seu show "A pele do Futuro". Grande música, grandes cantoras.
Após essa pedrada no peito, Pitty usa algo que era, até então, inédito em seus álbuns: interlúdio. Uma pequena frase: "saudade é vontade daquilo que já sabe que gosta", que dá o tom das próximas duas faixas. A primeira, "Roda", com participação da banda BaianaSystem, uma música forte com instrumental que mistura o rock com instrumentos de percussão da Bahia e o rap. Aqui, Pitty e Russo Passapusso - vocalista do BaianaSystem - usam gírias e expressões baianas pra valorizar suas raízes e mostrarem que são livres. Outro interlúdio complementa o primeiro: "Nunca é tarde demais pra voltar pro azul que só tem lá!" E entra a segunda faixa da sequência regionalista do álbum, a "Bahia Blues", onde a baiana fala da sua infância e adolescência em Salvador. Todo baiano, assim como eu, se identifica com as descrições da cantora: o terreiro, a reza, a ladeira, Nazaré das Farinhas, a religiosidade, a boêmia, a festa, o azul que só tem lá. Todo baiano fora da Bahia, Pitty, quer voltar, mesmo que não possa.
Passando do meio, encontramos o reggae desconstruído de "Te Conecta", que tem um baixão nervoso de Gui Almeida, que toca na banda desde 2014 e já tinha entregado uma grande participação em Setevidas. Essa música foi lançada como single há 1 ano atrás, mas não foi o pontapé para criação do álbum, segundo a cantora ela foi escrita e lançada como um trabalho solto - assim como "Contramão" - e só foi inclusa depois no repertório. É uma música positiva, uma espécie de mantra pra viver nos dias atuais e faz uso dos metais. Uma música extremamente gostosa de se ouvir.
"Redimir" tira o tom leve que sua antecessora criou. A letra é pesada e reflexiva, reflete sobre a auto-opressão. Pitty diz que ninguém a persegue melhor do que ela mesma, pergunta o que mais tem de fazer pra se redimir após já sofrer, chorar e sangrar. E quem nunca se sentiu assim que atire a primeira pedra. Apesar do peso lírico, o violino e as camadas vocais trazem uma leveza pra faixa, que é mais uma grande experimentação do álbum. A percussão aqui também é bem presente, pode-se ouvir claramente o agogô e a influência dos cânticos do candomblé.
A segunda balada do álbum é "Para o Grande Amor". Letra fofinha, melodia gostosa de se ouvir, vocal doce e refrão grudento. Não deve nada ao álbum por ser pacífica e gostosinha, muito pelo contrário, ela completa a grande viagem que Matriz é. Tenho certeza que, se for single, será um grande sucesso no TVZ.
"Submersa" tem uma letra inquieta, até um pouco melancólica. Uma reflexão sobre a existência. No início, parece ser uma faixa crua mas logo entram os elementos eletrônicos e percursivos. É uma letra extremamente bonita, uma das melhores já escritas pela cantora e tem uma mensagem de força, no fim das contas. Uma canção bonita e bem construída. E é na vibe de Te Conecta que Matriz é encerrado: "Sol Quadrado", uma parceria com Larissa Luz se encarrega da despedida. Os versos da canção foram entendidos por esse que vos escreve como gritos contra o machismo latente da sociedade brasileira. Ao mesmo tempo, que, qualquer um que se sinta oprimido seja pela família, pela igreja, pela escola, ou por qualquer coisa se sente representado pela letra.
Portanto, termino essa resenha com um último pensamento sobre Matriz: é um álbum maduro, forte, intenso, extremamente bem produzido e bem pensado. Por ter sido feito de forma orgânica, trouxe consigo a beleza das raízes baianas e o que de melhor temos no rock, que é o visceral, a inquietação, a pergunta, a revolta. Como um grande fã de Anacrônico, ainda espero ouvir algo que soe parecido vindo da cantora. Espero um álbum cru e agressivo como este, que, pra mim, é a síntese de Pitty. Mas, como um grande fã de música, me sinto emocionado e feliz de ver uma artista atingir um novo patamar de criação, expandindo seus horizontes e fazendo trabalhos frescos e extremamente interessantes. Matriz acentua o que há de melhor na cantora baiana. E, sim, gosto de ressaltar que ela é baiana, é uma espécie de orgulho conterrâneo. Portanto, Pitty provou mais uma vez o que não precisa provar pra mais ninguém: é a maior cantora de rock em atualidade nesse país.
Vida longa!
Receba novidades do Whiplash.NetWhatsAppTelegramFacebookInstagramTwitterYouTubeGoogle NewsE-MailApps



Guns N' Roses vai gravar novas músicas em 2027, garante Slash
Fãs esculacham o Metallica após discurso feito por James Hetfield em show
Slash e banda moraram juntos para escrever músicas do novo álbum
Agora é oficial: Dream Theater começa a trabalhar no próximo álbum
Ian Hill, ex-Judas Priest, diz que vida na estrada custou dois casamentos
Sharon Osbourne explica ausência do Megadeth em "Back to the Beginning"
O disco do Dream Theater em que o primeiro verso é cantado por Mike Portnoy
A música do Venom inspirada em um dos grandes clássicos do Kiss
Duff McKagan reflete sobre o dramático fim do Velvet Revolver
A opinião nada lisonjeira de Ronnie James Dio sobre o Blackmore's Night
O rockstar que se gaba de ter Donald Trump e Elon Musk na agenda do telefone
A melhor banda brasileira de prog metal segundo o Loudwire
A música do Dream Theater que "nasceu" depois que Mike Portnoy assistiu show do Pantera
Uriah Heep se manifesta após entrada de baixista no Judas Priest
Sharon detalha reunião com seis médicos antes do último show de Ozzy
O lendário guitarrista que foi fazer um teste e tentou assumir o controle do Aerosmith
A melhor banda de metal da Alemanha para cada letra do alfabeto
Bruno Sutter explica como "Casseta & Planeta" acabou com vida de Rubinho Barrichello



Carach Angren - Sete histórias para um inferno
Paura mira em velhos problemas humanos e entrega muito metalcore em "Primitive Chaos"
Flotsam and Jetsam entrega fúria e maturação em "Rats in the Temple"
Pride Of Lions Mantém a Tradição do AOR Clássico em "Unbridled"
Quase vinte anos do seu lançamento, "Over The Under" ainda soa vigoroso
Use sua ilusão: o pseudo disco perfeito do Guns N' Roses
30 anos de "A Tempestade" - o álbum que se tornou a despedida de Renato Russo
Os 40 anos de "Reign in Blood", obra-prima do Slayer e um dos maiores clássicos do thrash metal
Iron Maiden: Review do novo álbum publicado na revista Kerrang



