Ghost: Papa Emeritus no papel de sua própria cópia
Resenha - Prequelle - Ghost
Por Ricardo Cunha
Postado em 13 de junho de 2018
Literalmente desmascarado em 2017 como a mente por trás do Ghost, Tobias Forge troca seus privilégios papais por uma nova personagem em um álbum sombriamente cômico que é muito divertido apesar de suas falhas.
Um alter ego que acabou sendo desmascarado pela imprensa, pelos fãs, ou mesmo por suas própria vontade. Idealizado com um grupo de rock com inspiração sacra/profana, a banda sueca finalmente se livrou dos tribunais no ano passado, em meio a disputa por royalties entre o Papa Eméritus (ou Tobias Forge) e seu bando de membros de máscaras cromadas, conhecido como "Sem Nome" ou Ghouls". No entanto, a maior bomba caiu fora do tribunal, quando Forge revelou à Radio Metal que ele e os Ghouls nunca tinham sido um grupo no sentido tradicional. Ele compara o Ghost aos pioneiros do Black Metal, Bathory, que atuaram como uma banda, mas eram em essência a banda solo do multi-instrumentista Tomas Börje "Quorthon" Forsberg.
Sua identidade como "o arquiteto" do Ghost, revelou Forge, estava na mesma encruzilhada onde o Kiss uma vez se encontrou. Então, ele tinha que escolher entre revelar as extravagantes personas à frente da comunhão do falso sepulcro, pelas quais se tornou popular, ou priorizar a teatralidade da banda, deixando de lado sua própria identidade para sacramentar de forma mais mais convincente o plano de marketing do grupo. No quarto álbum da banda, Prequelle, o artista atravessa os dois caminhos, reforçando o seu estilo com influências que variam entre Ozzy (nos seus melhores dias), The Oath e Lúcifer sem, contudo, abster-se dos elementos da música "pop".
Dessa forma, ao invés de reprisar seu papel como Papa Eméritus, Forge encena o papel de sua própria copia, ou seja, um clérigo ao mesmo tempo vívido e pálido que prega promessas de um céu invertido de modo a contrapor-se ao que convencionamos chamar de "paraíso". Nesse sentido, sua alegre coreografia "Thriller" no vídeo da música "Rats", o primeiro single de Prequelle, sintetiza o disco e a mudança de paradigma que ele anuncia: Papa emeritus como um clérico menor, percorre as ruas infestadas de roedores como um Gene Kelly "morto-vivo" cantando na chuva. Dando a deixa para que a identidade oculta do Ghost desapareça juntamente com a atmosfera misteriosa criada por seu próprio idealizador, o que revela um certo senso de humor da parte de Eméritus. Acabou que produziu uma comédia de fácil acesso que, por sinal, se mostra muito divertida.
Prequelle é um álbum conceitual vagamente centrado em torno da Peste Negra e faz ponte entre Meliora, o vencedor do Grammy de 2015, e os flertes do Popestar de 2016, um EP de covers que reinterpretou músicas "não-metal" de Eurythmics, Eco & The Bunnymen e outros. Mas o segundo estilo predomina, com o produtor Tom Dalgety empurrando linhas de teclado progressivas para o primeiro plano em canções como o instrumental tingido de ELO em "Miasma" e "Pro Memoria", uma reflexão sobre a mortalidade que se mostra fraca em virtude de uma das letras mais preguiçosas já escritas pelo Ghost ("Não te esqueças de morrer / Não te esqueças da morte do teu amigo / Não te esqueças que vais morrer "). Ou com seu jogo de palavras "clichê" ("Eu quero ser / quero te enfeitiçar ao luar") e ritmos à lá ABBA em "Dance Macabre", que parece infantil demais até para padrões do Ghost, que Eu (este que vos escreve) nunca levei muito à sério.
Contudo, Prequelle não é totalmente desprovido de essência rock 'n' roll. "Rats" e "Witch Image" adquirem força graças aos licks e harmonias apreendidas na cartilha de Ozzy Osbourne, proporcionando aos "roqueiros" de plantão uma pausa quanto à totalidade de todo o tempo intermediário (seria trágico se não fosse cômico!). Dados os traços comuns que se seguem. Particularmente, "Helvetesfönster", um instrumental barroco que lembra músicas de elevador, e que vale mais pela fuga do lugar comum do que por sua genialidade.
Entretanto, quem salva Prequelle do inferno dos piores lançamento de 2018 é "Faith", que resgata o que de melhor foi produzido por esta banda ao longo da sua trajetória. Uma pedra lançada para o máximo impacto, do arranjo vocal entrelaçado até o solo de guitarra. As abordagens revisitadas da dramaturgia e da dinâmica do Ghost (enquanto banda) talvez não atinja os resultados esperados quanto ao sucesso de Prequelle. Porém, no geral, não é de todo mal. Basta tentar ver/ouvir por uma segunda perspectiva.
TRACKLIST:
01 - Ashes
02 - Rats
03 - Faith
04 - See The Light
05 - Miasma
06 - Dance Macabre
07 - Pro Memoria
08 - Witch Image
09 - Helvetesfönster
10 - Life Eternal
Referência: PitchFork
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