Ghost: Papa Emeritus no papel de sua própria cópia

Resenha - Prequelle - Ghost

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Por Ricardo Cunha
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Literalmente desmascarado em 2017 como a mente por trás do Ghost, Tobias Forge troca seus privilégios papais por uma nova personagem em um álbum sombriamente cômico que é muito divertido apesar de suas falhas.

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Um alter ego que acabou sendo desmascarado pela imprensa, pelos fãs, ou mesmo por suas própria vontade. Idealizado com um grupo de rock com inspiração sacra/profana, a banda sueca finalmente se livrou dos tribunais no ano passado, em meio a disputa por royalties entre o Papa Eméritus (ou Tobias Forge) e seu bando de membros de máscaras cromadas, conhecido como "Sem Nome" ou Ghouls". No entanto, a maior bomba caiu fora do tribunal, quando Forge revelou à Radio Metal que ele e os Ghouls nunca tinham sido um grupo no sentido tradicional. Ele compara o Ghost aos pioneiros do Black Metal, Bathory, que atuaram como uma banda, mas eram em essência a banda solo do multi-instrumentista Tomas Börje "Quorthon" Forsberg.

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Sua identidade como "o arquiteto" do Ghost, revelou Forge, estava na mesma encruzilhada onde o Kiss uma vez se encontrou. Então, ele tinha que escolher entre revelar as extravagantes personas à frente da comunhão do falso sepulcro, pelas quais se tornou popular, ou priorizar a teatralidade da banda, deixando de lado sua própria identidade para sacramentar de forma mais mais convincente o plano de marketing do grupo. No quarto álbum da banda, Prequelle, o artista atravessa os dois caminhos, reforçando o seu estilo com influências que variam entre Ozzy (nos seus melhores dias), The Oath e Lúcifer sem, contudo, abster-se dos elementos da música "pop".

Dessa forma, ao invés de reprisar seu papel como Papa Eméritus, Forge encena o papel de sua própria copia, ou seja, um clérigo ao mesmo tempo vívido e pálido que prega promessas de um céu invertido de modo a contrapor-se ao que convencionamos chamar de "paraíso". Nesse sentido, sua alegre coreografia "Thriller" no vídeo da música "Rats", o primeiro single de Prequelle, sintetiza o disco e a mudança de paradigma que ele anuncia: Papa emeritus como um clérico menor, percorre as ruas infestadas de roedores como um Gene Kelly "morto-vivo" cantando na chuva. Dando a deixa para que a identidade oculta do Ghost desapareça juntamente com a atmosfera misteriosa criada por seu próprio idealizador, o que revela um certo senso de humor da parte de Eméritus. Acabou que produziu uma comédia de fácil acesso que, por sinal, se mostra muito divertida.

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Prequelle é um álbum conceitual vagamente centrado em torno da Peste Negra e faz ponte entre Meliora, o vencedor do Grammy de 2015, e os flertes do Popestar de 2016, um EP de covers que reinterpretou músicas "não-metal" de Eurythmics, Eco & The Bunnymen e outros. Mas o segundo estilo predomina, com o produtor Tom Dalgety empurrando linhas de teclado progressivas para o primeiro plano em canções como o instrumental tingido de ELO em "Miasma" e "Pro Memoria", uma reflexão sobre a mortalidade que se mostra fraca em virtude de uma das letras mais preguiçosas já escritas pelo Ghost ("Não te esqueças de morrer / Não te esqueças da morte do teu amigo / Não te esqueças que vais morrer "). Ou com seu jogo de palavras "clichê" ("Eu quero ser / quero te enfeitiçar ao luar") e ritmos à lá ABBA em "Dance Macabre", que parece infantil demais até para padrões do Ghost, que Eu (este que vos escreve) nunca levei muito à sério.

Contudo, Prequelle não é totalmente desprovido de essência rock 'n' roll. "Rats" e "Witch Image" adquirem força graças aos licks e harmonias apreendidas na cartilha de Ozzy Osbourne, proporcionando aos "roqueiros" de plantão uma pausa quanto à totalidade de todo o tempo intermediário (seria trágico se não fosse cômico!). Dados os traços comuns que se seguem. Particularmente, "Helvetesfönster", um instrumental barroco que lembra músicas de elevador, e que vale mais pela fuga do lugar comum do que por sua genialidade.

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Entretanto, quem salva Prequelle do inferno dos piores lançamento de 2018 é "Faith", que resgata o que de melhor foi produzido por esta banda ao longo da sua trajetória. Uma pedra lançada para o máximo impacto, do arranjo vocal entrelaçado até o solo de guitarra. As abordagens revisitadas da dramaturgia e da dinâmica do Ghost (enquanto banda) talvez não atinja os resultados esperados quanto ao sucesso de Prequelle. Porém, no geral, não é de todo mal. Basta tentar ver/ouvir por uma segunda perspectiva.

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TRACKLIST:
01 - Ashes
02 - Rats
03 - Faith
04 - See The Light
05 - Miasma
06 - Dance Macabre
07 - Pro Memoria
08 - Witch Image
09 - Helvetesfönster
10 - Life Eternal

Referência: PitchFork

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